quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Caminhos do norte

Não diria que se tratava de um sonho de infância, pois nessa idade não cheguei a conhecer os trolls noruegueses, mas a minha recente visita à Noruega foi, inequivocamente, o cumprir de um sonho de longa data. Entre fiordes, lagos, vales verdejantes e montanhas de tirar o fôlego que não me defraudaram as expectativas, foi no padrão de desenvolvimento que tive as maiores surpresas. Consegue imaginar um país com uma área cerca de quatro vezes maior do que a de Portugal com pouco mais do que algumas dezenas de quilómetros de autoestradas? Pois esse país existe e chama-se Noruega. A julgar por esse detalhe, e se não soubesse que se tratava de um dos países mais ricos do mundo, asseguraria que por lá não tinha ainda passado a prosperidade. Claro que isso tem o seu preço e eles não têm uma Brisa ou uma Mota Engil que os encham de orgulho.

Ainda antes de sair de casa, num mínimo de estudo prévio sobre a Noruega (indispensável para quem se propunha percorrer uma boa parte desse paíde carro), constatei que por lá havia (e há) um sistema de portagens muito similar ao que recentemente foi implementado em Portugal nas chamadas (agora só por ironia) estradas Sem Custo para o Utilizador. Não para pagar a autoestradas que, como já disse (e eu nunca minto, mas quando o faço disfarço bem) quase não existem, mas para entrar nas principais cidades ou para passar em alguns túneis. Viadutos quase não vi. Vi sim muitas travessias que em Portugal teriam dado origem a faustosas pontes por lá ainda funcionarem através de ferryboats. Vi também muitos túneis, uns muito longos, outros nem tanto, uns pouco iluminados outros totalmente às escuras. Sem luxo nenhum. Num desses túneis, ao cair da tarde, quando sobre o planalto caía o frio no aproximar de mais uma noite de fim de verão, deparei-me com um rebanho de ovelhas descansando.

Voltando às portagens. «Estou tramado», pensei, «se o sistema de pagamento for como o português, a coisa não está preparada para turistas». «Não vou», pensei de novo. «Mas... e o sonho?», pensei mais uma vez. Não precisei de me alongar muito na sequência de pensamentos, pois rapidamente descobri que os noruegueses, afinal, não tinham montado um sistema de pagamento não preparado turistas. Vejam lá do que eles se lembraram: o visitante estrangeiro vai à página web da Autopass (uma empresa assim tipo Via Verde, mas melhorada) e lá preenche um formulário onde regista a matrícula do carro, o número do cartão de crédito e as datas de vigência para esse registo. Os noruegueses são muito espertos, não são?

Claro que por causa disso acabam por não ter uma indústria de chips (não me refiro às batatas, até porque a culinária foi coisa a que por lá não me dediquei muito a fundo) tão desenvolvida como a nossa. Consequentemente, também não têm uma Via Verde com o sucesso da nossa. Em contrapartida, e para que não se sintam inferiorizados de todo, têm um país quase todo verdejante. Um país profundamente rural. «Como é possível que um país com tamanho grau de desenvolvimento continue a apostar fortemente na agricultura?», pensará Cavaco Silva e seus correligionários. Sem mencionar a preponderância das pescas, pois toda a gente sabe de onde vem grande parte do nosso tão querido bacalhau. Se não soubesse que se tratava de um dos países mais desenvolvidos do mundo, à luz do cavaquismo que de longa data nos ilumina, juraria que apostaram num modelo de desenvolvimento completamente errado.

Um ligeiro desapontamento surgiu na componente mais encantadora da espécie humana que povoa qualquer país: a feminina. Talvez pela profunda admiração que nutro pelas vizinhas suecas, esperava algo de similar na qualidade da menina norueguesa que vem e que passa no doce balanço a caminho do bar. A realidade ficou um pouco aquém das expectativas, mas penso que tal é compreensível: muito provavelmente, com o grande domínio que durante séculos exerceu na região, o império sueco açambarcou para as proximidades de Estocolmo o que de melhor por lá existia na genética feminina. Conjetura minha, mera conjetura.

7 comentários:

  1. É, em Portugal a inteligência não chegou a tanto:
    http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/scut-portagens-galegos-xoan-mao-estradas-de-portugal-tvi24/1279963-4071.html

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  2. Gostei muito de ler este post :)

    Muitas vezes, temos, em Portugal, uma ideia um pouco falsa de progresso. Quando vim para a Alemanha, no início dos anos 90, ligava progresso e cidades importantes a arranha-céus (prédios altos e espelhados eram muito apreciados, no nosso país). Também os há em Hamburgo, mas são mesmo a excepção, a esmagadora maioria das casas não tem mais de quatro andares!

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  3. Nada como nos afastarmos para vermos melhor como somos...

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  4. Em cheio na "mouche" a referência à agricultura e ao que o Gravelho, agora tão opinioso, lhe fez quando entrámos na CEE...
    Riachense

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  5. Talvez o facto de a Noruega ser o 13° produtor mundial de petróleo (se nao contarmos com a UE) tenha ajudado a manter a agricultura e as pescas.
    Qualquer comparacao economica entre um pais produtor de petroleo e um nao-produtor, tem que ser bastante cuidadosa...
    Trata-se no entanto, de uma descricao bonita da Noruega.

    Cumprimentos

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  6. Caro Anónimo, entendo o que diz e concordo. A grande diferença está precisamente na forma como gerem a prosperidade: tivessem alguém a governá-los com a mentalidade de quem nos governou no tempo das vacas gordas da UE e motivos mais fortes teriam para mandarem às urtigas a Agricultura e as Pescas!

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