quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A confissão

Havia já alguns dias que a Isaurinha vivia enclausurada no seu quarto. Saía apenas para as refeições — mera exigência parental —, apesar de quase nada comer. Também quase não falava. A Isaurinha alegre e comunicativa de outros tempos tinha dado lugar a um ser pouco mais do que contemplativo. 

«Mal de amores», comentava a mãe. «Falta de ocupação», acrescentava o pai. Inicialmente encararam o alheamento da Isaurinha como algo típico do fim da adolescência. Contudo, com o decorrer dos dias, a preocupação foi aumentando. Especialmente na mãe. Ao terceiro dia a mãe entrou no quarto da Isaurinha com a intenção de ter uma conversa de mulher para mulher. Após muita insistência para que a filha se abrisse, da boca da Isaurinha não ouviu mais do que um singelo e estranho pedido: «quero o padre».

Ao saber do inesperado pedido da Isaurinha, finalmente soou o alarme do pai com todo o exagero que caracteriza o género masculino:
 Extrema unção?  perguntou.
 Não digas disparates!  atalhou a mãe.
 Então só pode ser pecado... Pecado capital!  acrescentou o pai.
 Calma  disse a mãe , o padre é jovem, de mente aberta, alguém com quem os jovens gostam muito de conversar. Provavelmente quer abrir-se com ele.

Imediatamente contactado, poucos minutos depois o padre dava entrada na casa da Isaurinha. Posto ao corrente da situação, pediu para ficar a sós com ela. Para diminuir a ansiedade nos longos minutos de espera, o pai tentou escutar algo através da porta  ato liminarmente condenado pela mãe. Mais tarde, a própria mãe colou o ouvido à porta. Tudo isso em vão, porque do cómodo onde o padre e a Isaurinha estavam reunidos nem uma palavra escapou para o exterior.

Assim que o padre saiu da conversa com a Isaurinha, pai e mãe correram pressurosos em busca de explicação para o mal que atormentava a filha. O padre escudou-se no dever de sigilo da confissão. Após alguma imploração, deixou escapar que, de fato, se tratava de «mal de amores».
 Bem me parecia!  disse a mãe.
 E é preciso isto tudo?  questionou o pai.
 Amores impossíveis...  contrapôs o padre.
 É no que dá ver muita televisão  comentou o pai. E prosseguiu: — Precisa de se envolver mais com a paróquia, ir mais à missa!
 Não, não, isso não! Basta que cumpra a obrigação da missa dominical. E que não fique lá muito na frente...  rematou o padre.

3 comentários:

  1. "Quero o padre" - a Isaurinha bem disse o que queria, os pais é que não perceberam...

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  2. Pois é, Cristina, o eterno problema de comunicação entre filhos e pais. Mas felizmente não se reflete a nível de cronista e leitores... :)

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  3. O eterno problema de comunicação entre as pessoas! ;)

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