quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O tímido por cima da vizinha de baixo

O Abreu foi sempre muito tímido. Já próximo dos trinta anos de idade, tinha ainda quase imaculada a sua folha de registo das relações sentimentais. Não que lhe tivessem faltado oportunidades para ter maculado a sua existência nesse capítulo, mas uma timidez exagerada tirava-lhe capacidade de intervenção na hora em que a ação se tornava imprescindível.

O Abreu andava de olho  e normalmente não passava dessa fase do olho  na vizinha de baixo, desde que há algumas semanas ela se mudou para o seu prédio. Rapidamente lhe identificou qualidades que a tornaram merecedora de uma observação mais cuidada. E em alguns encontros fortuitos no elevador notou nela recetividade para algo mais do que os meros cumprimentos da praxe. Mas a timidez... A timidez é que singularizava o Abreu!

Mais um encontro no elevador. Ele entra no rés do chão, ela já vem da garagem.
— Boa noite.
— Boa noite.
Na sua qualidade de observador tímido, o Abreu coletava informações relevantes sobre a vizinha. Em particular, detalhes que confirmassem a inexistência de homem por perto. Não deixou de notar um dado que lhe pareceu significativo: que mulher com homem na sua órbita teria necessidade de subir com uma caixa de ferramentas da garagem até ao seu apartamento? Animado por esse detalhe, pensou dizer algo mais do que meramente circunstancial. E voltou a pensar. Doze andares não foram suficientes para tanto pensamento.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela saiu no andar anterior ao dele. E o Abreu confirmou o que já anteriormente tinha confirmado: ela morava no apartamento exatamente por debaixo do seu.

Gorava-se mais uma oportunidade para algumas palavras mais do que meramente circunstanciais. «Que esperas tu, Abreu? Que esperas?», pensava ele revoltado consigo mesmo. Logo hoje, que trazia consigo um CD da Madeleine Peyroux, teria sido tão fácil conseguir dois ou três dedos de conversa: «Um CD muito bom! Conhece? Madeleine Peyroux. Americana, apesar do nome. Canta uma música do Leonard Cohen parecendo Billie Holiday».  Depois das oportunidades goradas era costume tudo lhe parecer muito simples. Mas a timidez, essa maldita timidez, estava a tornar-se insustentável. Iria tomar uma atitude!

Alguns minutos mais tarde, estava ele sentado no sofá quando escutou como acompanhamento da bela voz da Madeleine Peyroux a campainha do seu apartamento. O Abreu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a campainha iria tocar. Respirou fundo e dirigiu-se à porta. Lá estava a vizinha de baixo com ar de muito preocupada.
 Desculpe incomodar, mas o meu teto está a pingar!
 Como?!
 Alguma infiltração no seu apartamento, presumo.
 Estive a lavar umas coisas no tanque, será que deixei a torneira aberta?
O Abreu abriu a porta da cozinha e viu que a água já vinha da área de serviço até meio da cozinha.
— Ai Jesus, foi mesmo! — disse ele com desfaçatez. E correu para fechar a torneira.
— Traga algo para enxugar a água que eu ajudo-o! — ofereceu-se ela.
O Abreu rapidamente apareceu com duas toalhas de banho e um balde. Quando a situação já estava sob controlo, ela mesma observou:
 Que música é esta? Parece Billie Holiday... Mas cantando Leonard Cohen? Não pode ser!
 Muito bem observado!
 Quem canta?
 Madeleine Peyroux. Não conhece?
 Não.
 Americana, apesar do nome afrancesado.
 Linda versão do Dance Me to the End of Love.
 Fantástica!
Rapidamente descobriram um imenso gosto musical em comum. Nessa mesma noite jantaram em casa dela. Enquanto ela preparou o jantar ele fez os furos e colocou um quadro na parede.

1 comentário:

  1. Uma história muito ternurenta. É mesmo caso para dizer: há males que vêm por bem ;)

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