quarta-feira, 5 de outubro de 2011

But!

É claro que quem fala bem francês  acredito que seja esse o seu caso  não precisa de ler este parágrafo preliminar. Mas se não se sente à vontade com essa língua  tudo bem, há muito que deixou de ser grave , recomendo-lhe que comece por praticar o som da letra u: faça um biquinho — como se fosse dar um beijo  e diga u sem desmanchar o biquinho. Imagino que você, amigo macho, com receio de ver a sua virilidade posta em causa, vai sentir-se um pouco perturbado. Mas, fique tranquilo, se o seu chefe ou o seu vizinho o apanharem com expressão facial menos recomendável, conte a verdade: que está apenas a praticar francês  mas se lhe apetecer contar algo mais, aproveite o ensejo!

Longe vão os tempos em que a língua francesa dominava o mundo e falar francês se tornava quase obrigatório para quem queria ter boa formação. Ficaram-nos no português diversas marcas desse domínio linguístico, algumas bastante claras, outras mais ou menos disfarçadas: por exemplo, a palavra equipe  e outras do mesmo tipo  vem do francês e teve no português de Portugal a devida (?) adaptação para equipa. Adaptações dessas não aconteceram entre os brasileiros, sempre muito propensos a manterem fidelidade à sonoridade da palavra na língua original na introdução de qualquer neologismo. Com exageros, como é característica desse bom povo: por exemplo, nessa tentativa de afrancesar o u, em vez de menu dizem meni— na Bahia, pelo menos  até o puré vira pirê!  com tanta doçura no u, suspeito que o façam com batata doce.

Infelizmente para os francófonos, há muito que a língua inglesa passou a perna à língua francesa — algo a que os francófonos ainda não se adaptaram  e os anglófonos que se preparem pois os hispanohablantes avançam a olhos vistos — mas isso já são contas de outro rosário. Por causa desse domínio, temos também os anglicismos disseminados pelo nosso bom português, mais uma vez com as devidas (?) adaptações deste lado do Atlântico.

Uma área na qual os anglicismos predominam é a desportiva. E, por maioria de razão, no futebol — boa adaptação! Nunca entendi o motivo pelo qual os meus antepassados lusitanos desviaram o goal para golo, se gol — como se diz, e bem, no Brasil  até é uma palavra com alguma naturalidade em português, com a vantagem de manter fidelidade ao som original. Mas, enfim, nessa palavra em particular, antes golo do que o correspondente galicismo. Imagine-se no despontar do grande êxtase conferida pelo golo (ou gol) da sua equipa (ou equipe): como se sentiria se, em meio a tal êxtase, abraçando o parceiro de torcida, gritasse a plenos pulmões  com o tal u francês em biquinho  buuuuuut? No mínimo, um pouco comprometedor.

1 comentário:

  1. Sim, os anglófonos que se ponham a pau com os hispanohablantes. Lembro-me de, na altura em que dava aulas de português numa escola de línguas de Hamburgo, o castelhano (aqui, chamam-lhe spanisch) ter ultrapassado o inglês em procura! Bem, estava-se no Verão e os alemães adoram ir para Palma de Mallorca, são vários milhões (sim, não é erro, não são milhares) por ano.

    Quanto ao português... Enfim, nós consolamo-nos com o facto de ser a 5ª ou a 6ª língua mais falada no mundo. Mas a verdade é que, na dita escola de línguas, a procura do português andava a par com a do grego (uma premonição?) ou a do japonês.

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