quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A chama oculta

O Júlio e a Teresa visitavam pela primeira vez o Mendonça no apartamento onde este tinha recentemente ido morar com a Mariela. Tratava-se do primeiro encontro do casal com essa tal Mariela. «Um pouco sem sal», pensou o Júlio após as primeiras impressões colhidas. E acrescentou para consigo mesmo: «Não entendo que chama viu o Mendonça nesta insulsinha para ter abandonado o lar daquela forma». Para ser mais exato, além do lar, tinha também abandonado a esposa e dois filhos menores.

O Mendonça teve sempre no Júlio um parceirão à altura a quem invariavelmente contava todos os detalhes  ou talvez apenas os mais sórdidos  sobre a sua vida conjugal e extra-conjugal nos momentos mais importantes. No entanto, para grande desapontamento do Júlio, desta vez tinha sido muito parco em palavras e mais ainda em explicações: «Preciso de uma nova chama na minha vida», foi apenas o que disse o Mendonça quando comunicou ao Júlio o seu novo rumo.

Tomados os aperitivos da praxe na sala de estar, os anfitriões sugeriram que se dirigissem para a mesa de jantar. O Júlio e a Teresa sentaram-se de um lado da mesa — com a Teresa à esquerda do Júlio —, o Mendonça e a Mariela do outro lado. Tendo o Júlio ficado em frente à Mariela  e o Mendonça em frente à Teresa, mas isso pouco importa para o caso , uma apreciação mais detalhada da Mariela tornou-se praticamente inevitável. «Mesmo muito sem sal», pensava novamente o Júlio para com os seus botões, quando sentiu um ligeiro roçar — da batata de uma perna, supôs  na sua perna direita. A Teresa não podia ser  longe ia o tempo em que a Teresa dava largas aos seus dotes de contorcionista para roçar os membros do Júlio. O Mendonça nem pensar. Só podia ser... acidental. E era a batata da perna da Mariela, claro. «Acidental? Mas desta forma? Queres ver que a mosca-morta afinal tem vida?», pensava o Júlio, quando sentiu um novo roçar na sua perna.

Vítima de tais atrevimentos sob a mesa, o Júlio ficou naturalmente por fora da conversa que os outros três mantinham por cima  algo que todos notaram sem necessidade de recurso a especiais dotes no campo da perspicácia. Sentindo o alheamento do amigo, pergunta provocatoriamente o Mendonça:
 Não é Júlio?
 O quê? O quê?  responde o Júlio visivelmente atrapalhado para risada geral.
 O Júlio é sempre assim calado?  resolve acrescentar a Mariela.
A pergunta da Mariela funcionou como lenha na fogueira para o pobre Júlio: «Grande safada, não só me assedia por debaixo, como ainda me provoca por cima!»

A avaliar pelo comportamento da Mariela na primeira vez que se encontravam, o Júlio começava a entender onde podia o Mendonça ter descoberto nela a chama que lhe faltava. Mas continuava sem vislumbrar justificação para a leviandade com que tinha abandonado o lar  com a esposa e os dois filhos menores  e mergulhado de cabeça numa relação séria  seria? — com tal galdéria. Nesse momento já os outros três comentavam  com alguma preocupação  sobre o ar ausente e preocupado do Júlio. Tentando distrair o amigo, pergunta o Mendonça:
 Já te disse que temos uma gato?  E dirigindo-se à Mariela:  onde está ele?
 Senti-o há pouco roçar-me a perna debaixo da mesa  responde a Mariela.

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