sábado, 26 de novembro de 2011

Notas da semana

Num texto com este título, seria impossível não me referir à Greve Geral desta semana. Na lavagem dos cestos, o que mais se discute são percentagens, infiltrações e quem deu tareia em quem. Infelizmente sinto que, à distância a que me encontro, não posso dar contribuição de valor para o esclarecimento de nenhuma dessas grandes questões. Assim sendo, prefiro dedicar-me a outra não menos importante e vezes sem conta repetida: «greve para quê se não tem efeito prático?»

Convenhamos, dificilmente uma greve terá outro efeito que não seja o de conferir força à luta dos trabalhadores descontentes. O efeito prático de uma greve é quase sempre indireto, e esta não poderia deixar de fugir à regra. Serviria, especificamente, para aquilatar o grau de descontentamento dos trabalhadores em relação às medidas que estão a ser tomadas pelo governo.

Mas talvez a maioria não esteja ainda muito descontente; ou então, acredite piamente no discurso oficial do caminho inevitável; ou então, esteja sem capacidade de prever os efeitos secundários destas medidas austeritárias; ou então, já não se sinta suficientemente protegida pela fraca democracia que temos hoje para ousar fazer greve.

Acresce que os funcionários públicos estão a ser apontados pelos detentores do poder como o grande problema do país e os seus sacrifícios a nível salarial a tábua de salvação. Sem mais. Claro que, sendo por enquanto um problema essencialmente dos funcionários públicos, os outros ainda assobiam para o lado.

O que não sabem é que lá bem no fundo já é um problema de todos. Tanto à escala europeia, como à escala nacional, a similaridade com a situação retratada no poema de Martin Niemöller (muitas vezes erradamente atribuído a Bertold Brecht) já me parece grande:

«Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, 
porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.»

E para que consigamos fazer «da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual», como bem recomendou o desassossegado Bernardo Soares, nada melhor do que deixar aqui referência para aquelas que me pareceram ser as melhores notas desta semana, através voz desse maravilhoso cantor, músico e poeta dos nossos tempos, de seu nome Leonard Cohen: Show Me The Place. Sim, alguém que nos mostre outro lugar, porque a coisa por estes lados está cada vez mais complicada.

4 comentários:

  1. Exilado,
    partilho consigo o meu texto sobre a mesma temática:
    «No dia seguinte à Greve Geral um pouco por toda a parte faz-se o balanço. Nos media, blogues e afins reflete-se e comenta-se sob várias correntes políticas o dia de ontem bem como o seu significado.

    Eis a nossa reflexão, muito breve, baseada em algumas declarações, opiniões e comentários que fui encontrando "por aí".

    Para que serviu a Greve?
    Alguma coisa vai mudar?

    Respondo a estas questões com duas outras:
    Para que serve ter uma opinião e partilhá-la?
    Se o nosso interlocutor não mudar de opinião ou procedimento com a exposição da nossa, vale a pena darmos a nossa opinião?
    Como é por demais evidente, obviamente que sim, devemos dar a nossa opinião.
    O que se passou com a Greve Geral passa um pouco por este prisma. Tratou-se do acto de muitos portugueses manifestarem a sua opinião e isso serve de muito. Pode não ter sido suficiente para mudar a actuação do Governo, mas sejamos francos, ninguém estava à espera que isso sucedesse.

    Esta Greve foi inoportuna para o momento que o país atravessa.
    Quem indemniza os prejuízos causados pela Greve ao Estado e às empresas?

    Mais dois pontos de vista aos quais respondo com duas questões:
    Quando se deve, então, fazer uma Greve? Quando estiver tudo bem?
    Quem indemniza os portugueses pelas medidas de austeridade que lhes são alheias?
    Penso que não é necessário desenvolver mais nenhuma ideia para fazer valer o meu ponto de vista nesta matéria.

    Os números da adesão à Greve são, como sabemos, de parte a parte, discutíveis. Quaisquer que eles sejam, todavia, não permitem de forma alguma ao Governo "cantar de galo".
    Verdadeiramente ainda não se sentiram os efeitos das medidas de austeridade que nos vão ser impostas. Com a entrada em execução do novo Orçamento de Estado dar-se-á início à percepção das verdadeiras implicações que a palavra sacrifício significa na boca dos nossos ministros. A contracção da economia, o desemprego e a redução do Estado Social numa altura de crise empurrarão uma grande parte da população portuguesa, não apenas um franja, para um sofrimento tremendo.
    Janeiro, Fevereiro, Março... Qual não seria a adesão a uma Greve Geral nesta data?
    Incomparável, suponho.

    A Democracia subsiste e prospera mediante um nível de rendimento médio da população que lhe permita sentir conforto físico, material e psicológico, isto é, bem acima do limiar mínimo de pobreza.

    Com os efeitos esperados pelas políticas de Direita deste Governo é transversal a opinião de que milhares (milhões?) de portugueses serão colocados abaixo do limiar mínimo de pobreza, com a agravante de que isto será feito bruscamente.

    Agora é a minha vez de deixar uma questão:
    Até que nível de rendimento as democracias subsistem?

    Pensem nisto.»

    Cumps.

    ResponderEliminar
  2. Eu estou aqui bem perto e não consigo ter uma opinião tão clara como a sua.
    Estar em Trás os Montes permite-me ver pessoas que pouco têm e nada fazem para mudar. Porque simplesmente muitas não sabem o que fazer ou não estão informadas para tal.Por isso nem sei quem será o exilado aqui!
    Trocamos de nome?
    :)

    ResponderEliminar
  3. Mais do que trocarmos de nome, valeria a pena tentarmos trocar a mentalidade coletiva deste nosso povo sempre muito resignado ao fado!

    ResponderEliminar
  4. Talvez por isso eu não goste de fado e só da guitarra portuguesa!
    O conceito que a palavra em si evoca não é muito auspicioso! Tem alturas que é preciso mandar com o "fado" às urtigas pegar na guitarra e tocar o nosso destino!
    Fiz-me entender? Estou naqueles dias de fúria, pode ser que amanhã passe... :)

    ResponderEliminar