quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O negócio dos saquinhos

Mesmo quem muito viaja de avião poderá não estar consciente de todas as variantes possíveis no filão dos negócios aeroportuários. Especialmente fulanos como eu que, com muita frequência, por lá passam exilados no mundo das ideias.

Há dias fiz uma viagem entre Marselha e Lisboa, com ida num domingo e volta na terça-feira seguinte. Para abreviar procedimentos na partida e na chegada, optei por levar apenas bagagem de mão. Ciente das restrições para certo tipo de produtos a bordo, tive o cuidado de deixar as armas brancas (e outras) em casa e de não levar líquidos em volumes superiores aos 100ml permitidos por lei. Em Marselha, coloquei a pequena mala na esteira rumo ao raio X e nem o facto de ser eu o único passageiro por lá naqueles minutos fez com que quisessem mostrar serviço. «Bon voyage!», foi tudo quanto me disseram.

Dois dias depois, o embarque em Lisboa: uma enorme fila de passageiros antes do raio X e um grande contingente de seguranças da Prosegur junto às esteiras para rastreio da bagagem de mão. Instruíam os passageiros que devia ser retirada da bagagem de mão todo e qualquer líquido, mesmo líquidos em volume abaixo dos 100 ml permitidos. Ordem recebida, ordem cumprida: de imediato, retirei o pequeno estojo com os objetos de higiene, asseio e perfume do interior da minha pequena mala. 
– Não não, meu senhor, tem que colocar essas coisas dentro de um saco transparente! – esclarece o diligente segurança.
– Bom... mas... não tenho nada disso.
– Lá atrás – aponta o segurança para um primeiro ponto de controle de passageiros – tem uma máquina com sacos.

«Lá atrás» significava ter que regressar ao ponto de partida e voltar a encarar aquela enorme fila. Sem outra opção, lá fui eu, de mau humor, em busca da tal máquina dispensadora de sacos. É bom que fique claro que não me refiro a sacos num material muito especial ou com um fecho não sei das quantas. Não. Refiro-me àqueles banais saquinhos plásticos que facilmente se encontram aos pacotes de 50 ou 100 em qualquer supermercado, ao preço de um ou dois euros (os 50 ou 100, claro), muito úteis para guardar produtos no frigorífico ou no congelador.

No aeroporto de Lisboa (imagino que noutros também, mas foi este o primeiro onde senti o problema) esses saquinhos tornaram-se uma boa oportunidade de negócio. A ideia da máquina é a seguinte: deposite um euro e receba em troca um saquinho. Como tenho uma certa aversão a alimentar ideias oportunistas, optei por me dirigir de novo ao balcão da companhia aérea e despachar como carga a bagagem que deveria ser de mão. Correndo o sério risco de ver danificada (e nem sempre ressarcido pela companhia) a frágil mala, é certo. Mas preferi arriscar ter que gastar 50 euros numa mala nova, a contribuir com um euro para um negócio obsceno como esse. No final das contas, em caso de má sorte, o prejuízo já só seria de 49 euros (2% de desconto estava desde logo garantido!).

A mala chegou bem, obrigado.

10 comentários:

  1. Um euro por saquinho?! Que roubalheira! E, ainda por cima, ter de voltar à bicha!

    É raro eu andar de avião, mas, da última vez (já foi em 2007, Hamburgo-Lisboa), eu e o meu marido estávamos convencidos de ter preparado tudo muito bem. Para não termos problemas com os líquidos, prescindimos de levar água na bagagem de mão (somos fanáticos da água, ou do chá, estamos sempre a beber). Mas levei uma bisnaga com um creme para as mãos na carteira. E tive que a deixar no aeroporto, por ter capacidade para 125 ml de creme. E nem o facto de já não estar cheia demoveu o funcionário.

    No regresso, em Lisboa, sem água e sem creme, correu tudo bem, embora tivéssemos estado numa grande bicha. Valeu-nos uma diversão: a equipa do Benfica (ainda com Nuno Gomes) que embarcava, na mesma altura, para um jogo no estrangeiro ;)
    Já não me lembro para onde...

    ResponderEliminar
  2. Eu já presenciei uma cena interessante com creme das mãos em Lisboa. Esse negócio dos aeroportos é um prato cheio! Um destes dias volto ao tema...

    ResponderEliminar
  3. Meu caro, numa viagem para os Açores parti uma unha.Ora só uma mulher sabe o que é PARTIR UMA UNHA!!! e não ter uma lima para resolver aquela catástrofe. Vai daí e pedi à hospedeira para me acudir. Ela muito solícita passou-me para a mão algo que eu pensava que já não existia: uma lima de metal pontiaguda.
    Disse-lhe:
    -Tem noção de que me está a pôr uma arma na mão?
    E ela toda sorrisos:
    -A senhora não tem ar de terrorista.
    Está claro!! Qualquer terrorista que se preze tem barba, turbante e um T na testa. tal como o que a hospedeira devia também ter : de TONTA!!MIN

    ResponderEliminar
  4. Valeu pelo menos um bom artigo! Eu agora ia lá tentar vender o artigo, estilo jornal, por 1,05€ =)

    ResponderEliminar
  5. De facto oportunismo puro, de uma situação em que geralmente Nos vemos confrontados com a pressão do timing de embarque, e para alguns o stress na barriga por irem voar.

    ResponderEliminar
  6. Não há Saco nem Saquinho que aguentem tanta ladroagem!!!!

    ResponderEliminar
  7. Não sabia que existiam máquinas dessas a cobrarem ridiculamente 1€ por um saco que nada vale. Já vi no aeroporto Sá Carneiro os seguranças terem desses sacos mas desconheço se cobram por eles.

    ResponderEliminar
  8. Tive uma experiência semelhante. Mas levava os produtos num saco de plástico transparente, justamente dos que se usam para congelar alimentos: "não podem ser esses", informou o funcionário, "têm que ter um fecho. Ainda argumentei que o atilho servia o objectivo, mas não tive sorte nenhuma.
    Mais incrível é que em Londres, os ditos sacos são gratuitos. Mas os ingleses, coitados, têm o mau hábito de serem civilizados. ;)

    ResponderEliminar
  9. Sílvia: acredito que no Porto seja a mesma coisa, pois é a mesma empresa que administra os dois aeroportos.

    Teresa: ainda bem que diz isso, pois desse (g)atilho não me tinha apercebido.

    ResponderEliminar
  10. Depois de um périplo Marselha - Paris (Orly) - Brest - Marselha, "Bon voyage" nos três aeroportos e nada de saquinhos. Mas se os quisesse utilizar eram grátis...

    ResponderEliminar