Uma das tarefas mais árduas que conheço é, seguramente, a de tentar adivinhar pensamento — esqueça todos os números de circo que já viu, porque aquilo é tudo combinado. Pior mesmo, só tentar adivinhar pensamento de mulher. Quantas vezes, meu caro amigo, em meio a uma conversa com a sua cara metade — ou lá quanto ela vale —, lhe apeteceu perguntar: «como diabo te foste lembrar agora disso?». Não pergunte, pois parecerá que está — e estará mesmo — a desvalorizar o assunto por ela despoletado em favor do processo lógico que o desencadeou. Por mais interessante que isso lhe pareça, ela não vai apreciar. Nem, tão pouco, tente entender essas coisas por si só: na complicada e singular lógica feminina há um encadeamento de ideias quase inacessível mesmo aos mais dotados cérebros masculinos — homossexuais incluídos. No universo masculino, os objetivos são sempre muito mais claros, os processos são sempre muito mais simples e os temas andam quase sempre à volta dos mesmos (dois ou três) tópicos.
O Francisco, que era um sujeito pouco avisado para essas coisas, conduzia o carro a alta velocidade — praticamente à mesma velocidade com que se espalhava em pensamento... —, enquanto a Glorinha seguia calada a seu lado. E por que motivo se espalhava em pensamento o desavisado Francisco? Ora, sentindo a Glorinha estranhamente calada durante largos minutos, resolveu tentar adivinhar-lhe o pensamento. Pior do que isso: tentou adivinhar a causa e o pensamento. Recuou às últimas palavras que trocaram e, rapidamente, achou que tinha descoberto: «está assim por causa de uma palavrinha azeda que me escapou... é óbvio que só pode ser isso... mas não pode ser isso... que mal tem isso de uma palavrinha azeda aqui ou ali?... um homem não é propriamente uma refinaria de açúcar!... estas reações dela por palavrinha de nada são cada vez mais irritantes!!... estão a tornar-se insuportáveis!!!... como é que a Glorinha pode agir assim comigo?!!!...»
Tudo isto e muito mais foi produzido numa súbita enxurrada de pensamentos pelo Francisco. Quando o crescendo de pensamentos — espiralando em torno do mesmo tema — já o levava perto da situação absurda de pensar pedir o divórcio da mulher que amava, surge uma inesperada interpelação:
— Chico?
— Sim.
— Vinha aqui a pensar...
— Sim?
— Sobre aquele problema que te falei ontem: acho que vou fazer como sugeriste.

:) Obrigada pela partilha.
ResponderEliminarHá pessoas que nos surpreendem! Mesmo quando já começa a parecer difícil... :)
ResponderEliminarOs homens são uns aflitos...
ResponderEliminarSão as mulheres que nos afligem! :)
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