quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O grissino

Havia já alguns minutos que ambos permaneciam em silêncio naquele restaurante italiano. Ela observava-o atentamente, enquanto ele, com o olhar distante, se entretinha com os aperitivos.

Não foi o facto de ele ter esquecido a data do aniversário de casamento que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que os homens esquecem com facilidade datas importantes. Mesmo as datas inesquecíveis.

Não foi o facto de já só muito esporadicamente — cada vez mais esporadicamente — ele lhe dar a possibilidade de sentir o seu vulcão em erupção que a fez desconfiar que algo não estava a  funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que a caldeira vulcânica masculina por vezes pode perder vapor. Mesmo na presença de uma mulher como ela.

Não foi o facto de ele, ultimamente, ter tido algumas saídas imprevistas e chegadas tardias — relativamente mal explicadas — que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela confiava cegamente no seu olfato e sabia que, se houvesse encontros com outra mulher, ela sentiria o odor da traição. Mesmo que nesse odor não houvesse perfume de marca com fixador potente.

O que realmente a fez desconfiar — ou talvez mais do que isso — que algo não estava a funcionar bem entre eles foi a forma comprometedora como ele, com o pensamento sabe deus onde e expressão de quem recordava um momento de profundo prazer, acariciou na boca aquele grissino.

2 comentários:

  1. Não sejamos maldosos! Talvez ele apenas se veja obrigado a fumar às escondidas...

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    1. Mas isso de fumar em restaurante pode ser um gesto muito mal visto... :)

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