quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O jantar de Natal com o Madeira

«Geralmente são os bens que provêm 
do acaso que provocam inveja»
Aristóteles

Ia já para 10 anos que o Madeira jantava com a família Figueiredo na noite de Natal. Depois que enviuvara, passara a ser presença habitual na casa dos Figueiredo nessa noite, mesmo após terem perdido a cumplicidade de vizinhos porta com porta, quando os Figueiredo se mudaram para outra parte da cidade.

Nos últimos anos a família Figueiredo tinha aumentado. Ao senhor Figueiredo, à dona Adozinda, ao filho e à filha juntavam-se agora o genro e a nora. E, na noite de Natal, o Madeira.

No telefonema da praxe para confirmar a presença do Madeira, foi com surpresa que a dona Adozinda notou da parte dele alguma resistência para cumprir aquilo que já podia ser considerado como uma tradição de longa data. Apercebeu-se depois que o Madeira arranjara uma namorada e não se sentia muito à vontade para aparecer com ela. Por certo, pensou a dona Adozinda, cedera à insistência de alguma viuvinha ou solteirona — frequentes assediadoras do Madeira — e sentia-se inibido para aparecer com ela. Coitado do Madeira, é tão bom, pensou ainda a dona Adzinda. Mas ela conhecia bem o Madeira e sabia que com alguma insistência o convenceria a aparecer com a namorada. E assim foi.

Na noite de Natal, enquanto aguardavam a chegada do Madeira, a dona Adozinda contou à família sobre a ligeira resistência do Madeira para aparecer naquele ano. Quando souberam do motivo, todos, sem exceção, soltaram um «coitado do Madeira, é tão bom». E concordaram que o importante era que fosse feliz. Os mais propensos a comentários inoportunos foram advertidos para que contivessem os impulsos. Independentemente de como fosse essa namorada, o Madeira era praticamente da família.

Foi já perto da hora do jantar que apareceu o Madeira acompanhado da sua namorada na casa dos Figueiredo. E foi com indisfarçável surpresa que todos constataram que a suposta «viuvinha ou solteirona» se tratava afinal de uma bela e airosa mulher na flor da idade — aproximadamente da mesma idade da filha e da nora dos Figueiredo — exalando sensualidade. Doutorada em psicologia, de conversa fluente, tornou-se naturalmente o alvo de todas as atenções nessa noite.

Quando o Madeira e a namorada saíram, ficou a família Figueiredo em alvoroço, exibindo sentimentos que denotavam uma clara falta de espírito natalício: eles com inveja do Madeira, elas com inveja das qualidades da namorada do Madeira. Houve discussões entre os casais mais jovens por causa do deslumbramento masculino pela namorada do Madeira. E tentativas — frustradas — das esposas depreciarem as óbvias qualidades da namorada do Madeira. Mesmo o senhor Figueiredo, poucos anos mais velho do que o Madeira, foi apanhado a divagar sobre atributos da namorada do Madeira. Naquela noite de Natal a harmonia da família Figueiredo ficou seriamente abalada.

Já mais tarde, na cama, o casal Figueiredo conversou bastante sobre a namorada do Madeira. E a dona Adozinda decidiu que enquanto o Madeira estivesse com aquela mulher não voltaria a ser convidado para o jantar de Natal. Em nome da harmonia familiar. Mas que diabo teria o Madeira para estar com aquela mulher?

8 comentários:

  1. Julga-se demasiado para se poder aceitar. Pobre Madeira apanhado nas teias desta triste realidade e pura verdade...

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  2. A inveja é um sentimento terrível!

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  3. :D Esta crónica é uma delícia!

    (Quando li o título, pensei que se tratava do vinho Madeira. Que também é muito bom ;)

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  4. Não foi propositado, mas também não vou dizer que não estava consciente dessa possível confusão. O vinho não esteve na origem da crónica, mas a crónica esteve na origem de um bom Madeira como presente de Natal. No próximo ano vou tentar escrever uma crónica que envolva uma casa na Côte D'Azur :)

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  5. Bem, não sei como cá estou.
    Há quem diga que os homens são como o vinho melhoram de paladar ao envelhecer...
    Votos de boas festas.

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  6. Não importa como, o importante é que cá esteja. Agradeço e retribuo os votos de Boas Festas!

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  7. Como eu não gosto de vinho, e não percebo patavina dos frutados com sabor longo ou frescos com sabor a madeira, ou....., limitei-me a uma história que até poderia ser verdade ;)

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