«Geralmente são os bens que provêm
do acaso que provocam inveja»
Aristóteles
Nos últimos anos a família Figueiredo tinha aumentado. Ao senhor Figueiredo, à dona Adozinda, ao filho e à filha juntavam-se agora o genro e a nora. E, na noite de Natal, o Madeira.
No telefonema da praxe para confirmar a presença do Madeira, foi com surpresa que a dona Adozinda notou da parte dele alguma resistência para cumprir aquilo que já podia ser considerado como uma tradição de longa data. Apercebeu-se depois que o Madeira arranjara uma namorada e não se sentia muito à vontade para aparecer com ela. Por certo, pensou a dona Adozinda, cedera à insistência de alguma viuvinha ou solteirona — frequentes assediadoras do Madeira — e sentia-se inibido para aparecer com ela. «Coitado do Madeira, é tão bom», pensou ainda a dona Adozinda. Mas ela conhecia bem o Madeira e sabia que, com alguma insistência, o convenceria a aparecer com a namorada. E assim foi.
Na noite de Natal, enquanto aguardavam a chegada do Madeira, a dona Adozinda contou à família sobre a ligeira resistência do Madeira para aparecer naquele ano. Quando souberam do motivo, todos, sem exceção, soltaram um «coitado do Madeira, é tão bom». E concordaram que o importante era que fosse feliz. Os mais propensos a comentários inoportunos foram advertidos para que contivessem os impulsos. Independentemente de como fosse essa namorada, o Madeira era praticamente da família.
Foi já perto da hora do jantar que apareceu o Madeira acompanhado da sua namorada na casa dos Figueiredo. E foi com indisfarçável surpresa que todos constataram que a suposta «viuvinha ou solteirona» se tratava afinal de uma bela e airosa mulher na flor da idade — aproximadamente da mesma idade da filha e da nora dos Figueiredo — exalando sensualidade. Doutorada em psicologia, de conversa fluente, tornou-se naturalmente o alvo de todas as atenções nessa noite.
Quando o Madeira e a namorada saíram, ficou a família Figueiredo em alvoroço, exibindo sentimentos que denotavam uma clara falta de espírito natalício: eles com inveja do Madeira, elas com inveja das qualidades da namorada do Madeira. Houve discussões entre os casais mais jovens por causa do deslumbramento masculino pela namorada do Madeira. E tentativas — frustradas, naturalmente — das esposas depreciarem as óbvias qualidades da namorada do Madeira. Mesmo o senhor Figueiredo, poucos anos mais velho que o Madeira, foi apanhado a divagar sobre atributos da namorada do Madeira. Naquela noite de Natal a harmonia da família Figueiredo ficou seriamente abalada.
Já mais tarde, na cama, o casal Figueiredo conversou bastante sobre a namorada do Madeira. E a dona Adozinda decidiu que enquanto o Madeira estivesse com aquela mulher não voltaria a ser convidado para o jantar de Natal. Em nome da harmonia familiar. Mas que diabo teria o Madeira para estar com aquela mulher?

Julga-se demasiado para se poder aceitar. Pobre Madeira apanhado nas teias desta triste realidade e pura verdade...
ResponderEliminarA inveja é um sentimento terrível!
ResponderEliminar:D Esta crónica é uma delícia!
ResponderEliminar(Quando li o título, pensei que se tratava do vinho Madeira. Que também é muito bom ;)
Não foi propositado, mas também não vou dizer que não estava consciente dessa possível confusão. O vinho não esteve na origem da crónica, mas a crónica esteve na origem de um bom Madeira como presente de Natal. No próximo ano vou tentar escrever uma crónica que envolva uma casa na Côte D'Azur :)
ResponderEliminarNão custa nada tentar ;)
ResponderEliminarBem, não sei como cá estou.
ResponderEliminarHá quem diga que os homens são como o vinho melhoram de paladar ao envelhecer...
Votos de boas festas.
Não importa como, o importante é que cá esteja. Agradeço e retribuo os votos de Boas Festas!
ResponderEliminarComo eu não gosto de vinho, e não percebo patavina dos frutados com sabor longo ou frescos com sabor a madeira, ou....., limitei-me a uma história que até poderia ser verdade ;)
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