quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os Conzet

O seu nome era Conzet. Louis Conzet. Vendo-o ali estendido, com a alma já entregue ao criador e pronto para seguir na viagem eterna, é difícil imaginar a vida de luxo e luxúria pela qual acaba de passar o Conzet. Especialmente nas décadas de 60 e 70, quando o seu estilo marcou uma geração e a sua degeneração marcou um estilo. Houvesse no seu período áureo a quantidade de publicações rosa e rosa choque de hoje em dia e a sua influência no meio dos socialmente relevantes da capital e arredores – ilhas dos Açores e Madeira incluídas – teria atingido ainda maior protagonismo.

Velam o corpo do Conzet menos de uma dúzia de amigos: os poucos que lhe sobraram dentre as várias centenas que já possuiu. Ainda os pais do Mark Zuckerberg não sonhavam ir um com o outro para a cama  – ou lá onde o sujeito foi feito – e já o Conzet preconizava amizades aos centos no bom estilo facebookiano. Com a decadência física e os problemas financeiros, os amigos começaram a escassear. Naturalmente. Comparecem agora, na hora da grande despedida, apenas os autênticos, aqueles que verdadeiramente sentirão falta da sua existência alegre e das suas excentricidades.

Da sua família nunca muito falou. E, em momento algum, entrou em grandes detalhes sobre enredos da sua teia familiar. Apenas uma ou outra referência esporádica a origens na Riviera francesa, mencionando inclusive um ligeiro parentesco à família real — ou dir-se-á principal? — do Mónaco. Tendo em conta a forma esquiva como sempre abordou o tema, várias foram as conjeturas de que a sua ascendência entroncasse em algum galho bastardo da árvore dos Grimaldi. Mesmo assim, algo bem visto no seu meio social, sem dúvida. Mas não a ponto de permitir a alguém com a classe e o orgulho do Conzet conversar aberta e francamente sobre o tema.

Viveu e padeceu de inúmeros amores, mas nunca se casou. Só muito recentemente, e já depois do coração do Conzet ter perdido por completo a capacidade de amar, o Estado português permitiu que o amor sem impedimentos de género pudesse livremente firmar contrato nupcial. Quanto a filhos, o impedimento sempre foi biológico. E continua a vigorar.

A última frase que proferiu foi um surpreendente e revelador «avisem a minha irmã...». E ainda no mesmo fôlego, apontou para o telemóvel sobre a mesa de cabeceira e murmurou, já com visível dificuldade, duas palavras que os presentes entenderam como «Louise Conzet». De imediato, algum deles se aproximou do telefone e tentou, dentre a extensa lista de nomes, descortinar uma tal Louise. Em vão. O nome mais próximo que encontrou foi uma tal de Luiza. Sem grande alternativa, acabou por fazer o telefonema para essa mesma Luiza. E confirmou que efetivamente se tratava da irmã do Conzet. O mistério adensou-se.

Foi com alguma expectativa que cerca de meia dúzia de horas depois receberam na pequena sala do velório a até então desconhecida irmã do Conzet. Aparentava ser uns anos mais velha que o irmão e, surpreendentemente, revelava-se aos amigos do Conzet com um ligeiro acento beirão.
— Faça favor de se sentar — diz algum dos presentes com ar grave.
— Muito obrigada. Agradeço por me terem avisado.
— Ora essa, foi o último pedido do seu irmão.
— Pouco quis saber de mim em vida, pesou-lhe a consciência na hora da morte. Talvez por eu nunca ter gostado dessa farsa dos Conzet.
— Como assim?
— Mas nas horas de aperto dos últimos anos foi sempre a mim que recorreu.
— Farsa dos Conzet? Quer dizer que os Conzet não existem?
O ar pesaroso da sala foi nesse instante interrompido por um leve sorriso da senhora, que explicou:
— Existem sim: Luiz e Luiza, com "z" em vez de "s" — afirma com alguma graça, em parte conferida pelo acento beirão que muito se fez notar ao proferir as letras "z" e "s". E prosseguiu: — A história é simples. Na sua primeira visita ao Porto, o meu pai ficou de tal forma impressionado com a ponte D. Luiz que prometeu prestar-lhe homenagem atribuindo esse nome a um filho. Eu nasci primeiro. Não sabendo se viria filho varão, jogou pelo seguro e despachou-me logo com o nome de Luiza. Luiza com z. Mais tarde nasceu o meu irmão e, aí sim, o meu pai teve oportunidade de cumprir a contento a sua promessa. Anos mais tarde, a história teve novo desenvolvimento quando o Luiz entrou no colégio. Para distingui-lo de um outro Luís que por lá andava, os colegas começaram a apelidá-lo de «Luiz com "z"». E o meu irmão afeiçoou-se ao nome. Afeiçoou-se tanto que nunca mais o largou. Estilizou-o quando veio para Lisboa estudar Direito, mas os estudos deram para o torto. O Luiz rapidamente descobriu mais interesse em alguns colegas da vida boémia da capital do que nos estudos. O resto vocês devem saber melhor do que eu...

5 comentários:

  1. Hilariante. E uma história mais frequente do que se possa pensar.

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  2. A família dos Conzet é muito numerosa! Reproduzem-se muito, apesar de nada produzirem :)

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  3. O meu comentário, hoje, reservo-o para a mudança de visual do blogue :)
    Diferente, interessante, tal como a sua escrita.
    Bom domingo e boa semana.

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  4. As minhas visitas têm sido silenciosas, como sempre. Mas hoje deu-me vontade de explicitar que gosto. De todos e de nenhum em particular. Gosto da aparente facilidade. Eu ia escrever "leveza" e "densidade", antes de me dar conta de que são grandezas opostas, mesmo. E tem bastante das duas. Daí que "facilidade" resume melhor.
    Um abraço, Marcelo
    PS: O visual também ficou muito legal

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