quarta-feira, 25 de maio de 2011

A virgem e o pecado

‎«Estou a acostumar-me com a ideia de considerar 
cada ato sexual como um processo em que, no mínimo, 
quatro pessoas estão sempre envolvidas»
S. Freud



— Pare, pare...
— Ahn?
— Pare!
— Porquê?
— Não dá.
— Não dá? Porquê?
— Não sei...
— É por causa do falecido?
— Não! Aqui em sua casa não há problema.
— Então não entendo.
— Pois, é estranho.
— Logo hoje que tomei precauções...
— Tomou?
— Tomei. Não nota?
— Sim. Noto-o mais animado.
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que sei.
— Acha?
— Acho que sim...
— Então, qual é o problema?
— Aquela estátua.
— Qual estátua?
— A da virgem.
— Que é que tem?
— Lembra-me que estamos em pecado.
— Mas na nossa idade deus perdoa!
— O problema não é deus.
— Não?
— Não. É a virgem.
— Porquê?
— Sou muito devota!
— Ah...
— Pode tirá-la dali?
— Infelizmente não.
— Não?! Porquê?
— Prometi à falecida.
— Promessa séria?
— Sim, no leito de morte.
— Ah, então não pode quebrar a promessa.
Alguns segundos em silêncio.
— Vamos para a sala?
— Na sala?!
— Sim, no sofá.
— E a minha ciática?
— Ah, pois é...
— Já não temos idade para isso!
— Pois...
Alguns segundos em silêncio.
— Acho que tenho a solução!
— Tem?
— Acho que sim.
Ele levantou-se da cama e colocou a primeira peça de roupa que encontrou a tapar a cabeça da virgem.
— Agora já dá?
— Não sei, vamos tentar.
— Vamos!
— Mas em silêncio, por favor!
— E de joelhos?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinema de época

"There is only one thing that can kill the movies, 
and that is education"
W. Rogers

Era tão sagrado quanto a Páscoa. Ano após ano os quatro regressavam à vila para celebrar a festividade com as respetivas famílias e começavam sempre com uma comemoração aos bons velhos tempos no café da praça. Invariavelmente, lá pela nona ou décima cerveja a conversa embarcava numa sessão nostalgia. O tema deste ano era o cinema. Cinema de época, como eles próprios resolveram apelidá-lo: os filmes que lhes marcaram a adolescência e, mais ainda, as fantásticas atrizes que os protagonizaram. O primeiro a avançar com um nome foi o Toni:
— Brooke Shields…
— Ah, A Lagoa Azul! — diz o Joca.
— Uma sereia! — acrescenta o Chico.
Riram os três. O Morais não riu. Parecia pensativo. O próximo a nomear uma atriz foi o Joca:
— Bo Derek…
10 - Uma Mulher de Sonho! — diz o Chico.
— Que desempenho corporal! — acrescenta o Toni.
Voltaram a rir os três. O Morais continuou sem rir. Estava pensativo. O seguinte a evocar o nome de uma musa desse tal cinema de época foi o Chico:
— Nastassja Kinski…
A Felina! — diz o Toni.
— Uma gata no cio! — acrescenta o Joca.
Riram de novo os três. Decididamente, o Morais estava muito pensativo. E quieto. Movia apenas o braço direito espaçadamente para levar o copo à boca. Tinha chegado a sua hora de falar. No preciso momento em que os outros começavam a dirigir-lhe olhares inquiridores, ele deu com a mão na mesa — sinal inequívoco de ter descoberto o nome que buscava — e exclamou:
— Eiko Matsuda!
— Quem?! — pergunta o Joca.
— É uma atriz?! — questiona o Toni.
— É? — indaga o Chico.
— Claro! — afirma perentoriamente o Morais.
— Lá vem o Morais com a sua mania de cinema intelectual —returque o Toni.
— É mesmo coisa do Morais — acrescenta o Chico.
— Ó Morais, queremos as atrizes que nos humedeceram os sonhos — diz o Joca, para risada de todos. Menos do Morais.
— Sim, eu sei... — responde o Morais.
— E que raio de filme fez ela?! — pergunta o Toni.
— É… que raio? — questiona o Joca.
— É! — enfatiza o Chico.
— Não vos lembrais? — indaga o Morais.
— Não! — respondem os três em simultâneo.
O Império dos Sentidos! — remata o Morais.
A resposta deixou os outros em sentido. E imperou o silêncio. O Morais, o intelectual, tinha brilhado em área que nem era a sua maior especialidade. Ficaram mais uns segundos em silêncio e pediram a conta. Saíram todos com a mesma ideia em mente: «Onde diabo se pode arranjar uma cópia desse filme?»

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O GPS na relação conjugal

Não sei se já há dados estatísticos que o comprovem, mas acredito que um dos efeitos secundários do uso generalizado do GPS tenha sido uma valiosa contribuição para o decréscimo das situações de conflito entre casais que gostam de viajar (e utilizar o GPS).

Casal que tenha ultrapassado a lua-de-mel rapidamente começa a aperceber-se que não é por terem passado a formar um só corpo que daí em diante tudo funcionará na perfeição. A mulher, de um modo geral, atinge esse estado de consciência muito antes do homem. Muitas vezes, na própria lua-de-mel. Principalmente se essa envolver viagem de carro na qual se torne necessário recorrer a um mapa. Facilmente a mulher descobre que a sugestão de ignorarem o mapa e pedirem indicações a alguém é uma das ofensas graves para o homem: o verdadeiro macho sabe como tratar sozinho da orientação familiar e não precisa da ajuda de estranhos. Sugerir que se abdique deste princípio básico pode ser (e quase sempre é) interpretado como ofensa grave. Respeitado esse princípio, a viagem passa depois por várias fases.

Na fase 1, o homem coloca o mapa nas mãos da mulher e escuta a inevitável pergunta: «onde é que estamos?» Respostas objetivas do tipo «devias saber tanto quanto eu», além de dificilmente saírem no tom e volume certos para não parecerem ofensivas, também não vão contribuir em nada para a resolução do problema. Nessa fase, o mais recomendável é parar o carro e assinalar sobre o mapa (de preferência com uma cruzinha) o local onde se encontram nesse momento. Ainda com o carro parado, o homem deve colocar o mapa com a orientação certa nas mãos da sua companheira. Se o estado de espírito ainda permitir, pode também aproveitar para lhe dar um beijo e assim transmitir a ideia (falsa) de que não está tenso.

A fase 2 é um pouco mais demorada e, normalmente, envolve instruções do tipo «vira para lá» (com o correspondente acompanhamento de sinalética manual, claro está). Nesta fase o homem deve aumentar o mais que puder o alcance da sua visão radial. O ideal seria colocar a mulher no capô (e ela até agradeceria, mais não fosse para se livrar do sujeito mal-humorado que tem ao lado), mas isso não é permitido por lei (pelo menos nos países por onde tenho andado). Esta é a fase em que a tensão aumenta significativamente e deixa de ser possível disfarçá-la com um beijo. Aumentar o volume do rádio pode ajudar. Mesmo que isso faça com que as instruções deixem de ser escutadas, o efeito será praticamente o mesmo. E o volume alto sempre permite libertar alguma da tensão acumulada praguejando um pouco sem que se note a indelicadeza.

Entre as fases 2 e 3 há a tentação para uma fase 2.5, que envolve o mapa colocado sobre o volante e o acumular das funções de piloto e co-piloto. O homem jamais deve cair nessa tentação! Além de ser proibido por lei e contribuir de forma significativa para aumentar o risco de acidente (por vezes há sintonia entre as proibições e o perigo iminente), não costuma trazer resultados práticos: o desempenho de mais do que uma tarefa em simultâneo é qualidade exclusiva da mulher!

A fase 3 depende dos casais:

Nos casais onde o homem tem alguma inteligência prática (ou menos testosterona, dá no mesmo), chegando a esta fase (mas só nesta fase!), o problema já se resolve facilmente com o renovar da sensata sugestão feminina «vamos perguntar a alguém». No entanto, nesta fase de cedência à sensatez feminina, evitem-se os exageros: perguntando a grupos exclusivamente femininos, e sendo elas pelo menos quatro, com probabilidade alta se corre o risco de obter indicações com mãozinhas delicadas a apontar nas direções de (no mínimo) os quatro pontos cardeais.

Nos casais mais radicais, a mulher sai do carro e apanha um táxi. Muito tempo depois o homem chega ao destino visivelmente cansado e, com um sorriso idiota e ar triunfal, acrescenta: «estás a ver que consegui?»

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Nota temporária

A todos quantos visitam este blogue em busca do GPS na relação conjugal, esclareço: de acordo com informação prestada pelas engenheiras da Google a crónica irá voltar. Saiu sem GPS, mas o Google Maps já a localizou e vai ajudá-la a voltar para o devido lugar. Só mais um pouco de paciência, por favor!

Aqui a versão oficial do ocorrido:
http://buzz.blogger.com/2011/05/blogger-is-back.html

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Esse tal de Bilada

Coincidiu estar eu no Alentejo na manhã em que foi anunciada a morte do Bin Laden. Acabava de pedir o meu café com leite e torrada  de pão alentejano, claro  para o dejejum na esplanada de um café. Em condições normais, teria aproveitado o entrementes  gosto especialmente desta palavra, apesar de só agora a desvirginar por escrito   para sacar do meu telefone esperto e cavalgar em 3G por esse mundo virtual afora em busca das notícias matinais. Contudo, perante o cenário que me era oferecido, simplesmente detive-me a contemplar a beleza do imenso matiz verde-claro — típico da época na planície alentejana — aqui e ali salpicado pelo verde-escuro das oliveiras.

Atendeu-me um senhor de idade já avançada. Seria perfeitamente razoável que ainda fosse de uma geração de formação escolar  se a teve  predominantemente analfabeta. Se não de ignorância total nas letras, pelo menos com pouca agilidade para absorver a informação das legendas que habitualmente complementam o som e as imagens televisivas. Especialmente, quando a junção de letras conduz a uma palavra em língua estrangeira. Bin Laden, por exemplo.

Notei junto ao balcão desse café um prender de atenções dos clientes locais pelo aparelho televisivo. Na esplanada onde me encontrava não podia ver nem ouvir que notícia lhes cativava a atenção, mas foi para mim claro que algo de importante se passava. Quando o senhor me trouxe o tal café com leite e torrada, aproveitei para tentar obter algum esclarecimento. A resposta veio pronta e ligeiramente evasiva:
 Dizem que mataram esse tal de Bilada.
Não pude deixar de notar esse detalhe interessante na forma como me esclareceu com o "dizem que". Inteligentemente, toma o conteúdo da informação televisiva como mera informação, não como comprovativo de um facto. E o delicioso pormenor do Bilada? Comentários para quê? Ninguém duvide que uma certa dose de analfabetismo por vezes ajuda na criatividade para uma adaptação linguística.

Soube depois que noutras latitudes houve festa da brava até altas horas da madrugada para celebrar a morte desse tal de Bilada, como se da conquista de um campeonato do mundo se tratasse. Devo confessar que ao ser informado dessa morte não levantei nem o punho direito para festejar, como se de um mero golo se tratasse. Encarei sempre esse tal de Bilada tanto como produtor quanto como produto do mal. Morre este homem, mas ninguém duvide que o génio do mal continuará com personificações por esse mundo à solta.

domingo, 1 de maio de 2011

O álbum de retratos

O amor da dona Lurdes pelo Marinho era de tal forma profundo que, em nome de um valor tão alto como a felicidade do filho, estava disposta a invadir a sua privacidade. O seu coração de mãe não aguentava mais ver o Marinho no estado de sofrimento em que tinha mergulhado depois que a Maria Helena o largou. Acima de que tudo, não podia permitir que ele continuasse a cultivar esse sofrimento: eram já sem conta as vezes que lhe batia à porta do quarto — nesse bater quase em simultâneo com o rodar do puxador — e o via esconder aquele maldito álbum vermelho no armário.

Foram também sem conta as vezes que a dona Lurdes avisou o Marinho de que não era normal o tempo que o Ricardo passava no apartamento deles. E, muitas dessas vezes, apenas na companhia da Maria Helena. Mas, de que adiantou? A todos os alertas o Marinho respondeu sempre com um «somos amigos de infância». E eram de facto amigos de infância. Três amigos de infância. Mas a dona Lurdes sabia — e o tempo veio comprovar que estava certa — que a amizade de infância nunca foi escudo para uma punhalada pelas costas. Foi assim que a dona Lurdes interpretou o modo como a Maria Helena abandonou a casa e a vida do Marinho para ficar com o Ricardo. Com um simples bilhete: «Fui viver com o Ricardo, não me procures».

O Marinho era um menino puro. Essa mesma pureza que anos antes fizera a Maria Helena optar por ele — em detrimento do Ricardo —, servia agora para ela facilmente descartá-lo como quem descarta uma peça de roupa sem utilidade. E para ficar precisamente com esse Ricardo, que outrora lhe parecera impuro. Sabia-se que, na época, o coração da Maria Helena tinha vacilado bastante entre o Marinho e o Ricardo e finalmente pendido para o lado da pureza. Mas, excetuando a dona Lurdes, ninguém vaticinaria que esse mesmo coração pudesse voltar a vacilar e pender agora para o outro lado.

O momento da dona Lurdes violar a privacidade do filho — em nome da sua felicidade, claro — tinha finalmente chegado. O Marinho tinha saído apressado para o trabalho e, inacreditavelmente, esquecido a chave na porta do armário onde zelosamente guardava o álbum de retratos. A dona Lurdes não deixou de notar esse detalhe enquanto arrumava o quarto do filho. Ainda pensou duas vezes, mas à terceira já estava com a porta aberta. E nem precisou de vasculhar muito para rapidamente descobrir o maldito álbum vermelho. Soltou um suspiro de alívio e abriu um ar de satisfação enquanto apertava o álbum contra o peito.

De imediato, dirgiu-se para o seu quarto. Antes de encerrar o álbum a sete chaves, a dona Lurdes sentiu a tentação de olhar o seu conteúdo. Sabia que havia a possibilidade do álbum conter fotos íntimas do Marinho e da Maria Helena, mas ao seu coração de mãe nem isso fez merecer a reprovação do intento. Abriu o álbum e começou a folheá-lo. À medida que avançava, o seu semblante, que minutos antes era de satisfação, rapidamente começou a ficar carregado. E, entre suores frios, surgiu-lhe a inevitável interrogação: «Porquê tantas fotos do Ricardo?!»