quarta-feira, 27 de julho de 2011

Coincidências lá das Caxinas

 Quem é?
 Manuel Salsão.
 Quem?!
 Ontem telefonei...
 Ah, sim, faça favor de entrar!
 Disse-me que era para vir agora.
 Sim, claro, peço desculpa, não liguei ao nome.
 Não tem mal.
 Então você é das Caxinas?
 Sou sim, e com muito orgulho!
 Terra de craques.
 É mesmo... André, Paulinho Santos, Hélder Postiga e agora o maior: Fábio Coentrão!
 É impressionante!
 E muitos outros por lá apareceram, só que nunca tiveram chances.
 Acredito.
 Deve ter a ver com a nortada... ou com o sargaço...
 Quem sabe...
 Por lá já se diz que é uma queca um craque! Se der rapaz, claro.
 Parece mesmo!
 É por isso que aqui venho.
 Disse-me que tem um filho que vai dar craque?
 Tem pormenores que não enganam!
 Vamos lá então ver isso.
 Repare nesta foto!
 Foto antiga?
 Tirada há uns tempos.
 Era novinho...
 Mas querem investir em craques novos, não é mesmo?
 Sim, sim, mas sem exageros!
 Reparou no cabelo?
 Louro... desgrenhado...
 Ora! Está a ver?
 E o que o faz pensar que o seu filho vai dar craque?
 Além do cabelo?
— Sim, detalhes importantes.
 Bom, eu era vizinho do pai do Coentrão e a minha mulher era vizinha da mãe do Coentrão.
 E mais?
 Sabe como se chama o meu filho?
 Não, não disse.
 Fábio... Fábio Salsão!
 Boas coincidências, mas...
 E não ficam por aí!
 Trouxe algum vídeo do rapaz?
 Sim, trouxe um neste CD.
 Vamos lá então ver o seu talento.
 Vamos lá!
 É este o seu filho?!
 Sim, claro, repare num detalhe importante.
 Qual detalhe?
 Veja com que pé ele chuta: esquerdo!
 Mas que idade tem o seu filho?!
 Dois anos.
 É novo demais!
 Meu caro, lá das Caxinas, ou investe agora ou depois os tubarões levam.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

S'd'tor

A preferência do ministro recentemente empossado na pasta da Economia, Álvaro Santos Pereira, para o tratamento pelo nome próprio — abdicando do nome adornado pelo posto que ocupa — causou alguma estranheza e provocou discussão em determinados meios. Num país onde se crê que o hábito faz o monge, é difícil aceitar que alguém acabado de chegar a um dos mais altos cargos da nação possa abdicar das honrarias que lhe são devidas. Pior do que isso, pensarão muitos — que não Assunção Cristas, claro está —, só ver um político sem fato e gravata em época que não seja de campanha eleitoral — em campanha eleitoral é diferente, pois eles gostam de se mostrar mais perto do povo e o povo gosta de vê-los, despretenciosamente, como iguais.

Esta questão do tratamento é algo fundamental em Portugal, sendo mais frequente a deferência pelo título que alguém ostenta do que pelo mérito daquilo que possa — ou não — ter realizado. Apesar de há mais de cem anos república, ainda se presta reverência aos títulos nobiliários e os dons ainda circulam quase como parte integrante de alguns nomes. Há ilustres da praça pública que se encontram há décadas fora da carreira militar  nem sei até que ponto alguma vez lá estiveram dentro , mas em circunstância alguma abdicam do título militar no trato quotidiano. E, aos títulos pelo grau académico, deve acrescentar-se os conferidos por certas ordens: a pena para quem não trate arquiteto ou engenheiro de forma condigna é, no mínimo, a correção imediata, grande parte das vezes em tom de relativamente ofendido! Haverá país tão sui generis como este em questão de títulos?

Um tratamento que me causa alguma indignação é o de s'tor  aluno que me queira ver relativamente irritado, aqui fica a sugestão! A introdução desse tal de s'tor foi particularmente bem-sucedida como trato aos professores do ensino secundário  não estudei o problema a fundo, mas suponho que a inovação remonte ao período no qual a profissão passou a ser exercida maioritariamente por licenciados. É-me difícil entender que esses, exercendo profissão tão nobre, com papel preponderante na formação intelectual e cultural das novas gerações, tenham querido libertar-se do clássico tratamento por professor, em favor de outra coisa que veio a descambar nesse tal de s'tor

Sou de uma geração na qual o s'tor  talvez numa forma ainda não tão sincopada  já imperava como tratamento preferencial aos professores do ensino secundário. Na universidade, o tratamento dividia-se entre o senhor professor e o senhor doutor, aqui e ali já com tentações para formas mais sincopadas. Recordo, a propósito, um episódio com um dos meus professores — um daqueles verdadeiros mestres que nos ficam eternamente na memória —, tão zeloso com a Língua Portuguesa como com a Matemática — após a correção das provas, era frequente trazer anotações sobre os erros de Matemática e os de Português que mais lhe desagradaram. Um certo dia, uma das minhas colegas resolveu ceder à tentação de um tratamento a meio caminho entre o senhor doutor e o s'tor. Algo como s'd'tor. Perante tal forma de tratamento, o professor, no charme dos seus já quase setenta anos de idade, perguntou: «A senhora acha-me realmente sedutor?»

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Morangos e chantilly num apartamento em Albufeira

Havia já mais de uma dezena de anos que o Alfredo e o Delfim passavam as férias de verão no Algarve. A independência financeira da idade adulta trouxe-lhes uma certa dependência por um apartamento em Albufeira. Alguma vez tentaram uma alternativa no sul de Espanha, mas rapidamente concluíram que não havia nada como um apartamento em Albufeira!

Nos primeiros anos um quarto e sala era suficiente. Depois da peregrinação noturna pelos bares sagrados, o calor da noite acontecia já ao amanhecer no recesso do apartamento. Poder-se-ia pensar na competição interna pelo quarto, mas estranhamente era a sala o aposento mais requisitado. O acesso privilegiado à cozinha era fator decisivo. Chantilly e morangos eram ingredientes indispensáveis no frigorífico. Morangos que, ocasionalmente, eram também chamados de fresas ou strawberries e, numa das vezes, até de aardbeien. Chantilly era uma palavra mais universal. Com exceção de uma ocasião, quando uma camone mais embriagada teimou em chamar aquilo de cheivim foume. Estava o Alfredo nessa noite com o acesso privilegiado à cozinha  — e à camone  — e, apesar de não ser grande especialista em língua inglesa, pelo uso dado ao creme deduziu que chevim foume fosse expressão para algo como espuma de barbear  — não exatamente para a barba naquele caso.

Alguns anos depois o Alfredo e o Delfim casaram  — não um com o outro, é claro. Mas a sintonia entre eles era tanta que até no ano do casamento fizeram questão de coincidir: o Alfredo em Abril e o Delfim em Maio. E a tradição do apartamento em Albufeira no verão manteve-se. O quarto e sala deu naturalmente lugar a um sala e dois quartos. As peregrinações noturnas mudaram de local e as esposas tornaram-se presença habitual. Alfredo e Delfim trocavam por vezes toques de cotovelo e olhares nostálgicos nas passagens em frente aos templos sagrados de outros tempos. As noites eram agora mais comedidas e o amanhecer passou a ser, para o Alfredo e o Delfim — e as respetivas esposas —, a hora do sono profundo. Morangos e chantilly agora só esporadicamente. E como sobremesa.

Anos mais tarde os filhos. Hábitos quase todos alterados. Exceto a tradição de um apartamento em Albufeira no verão. O quarto e sala que dera lugar ao sala e dois quartos evoluía agora para um sala e três quartos —  o Bruno César e o César Bruno passaram a dividir o quarto extra. As saídas noturnas tornaram-se incompatíveis com a necessidade do sol da manhã para os pequenos. A proposta masculina de tomarem conta deles no horário da sesta — por troca com alguma liberdade noturna e um bom sono matinal — foi simultânea e liminarmente vetada por ambas as esposas — a sintonia entre o Alfredo e o Delfim prolongava-se também às esposas. Morangos e chantilly voltaram a ser presença habitual no frigorífico. Agora para as crianças.

Mais de dez anos depois, a sintonia daquela já longa amizade sofreu um abalo. Há um passo no qual o Alfredo não acompanha o Delfim: o divórcio. Com esse divórcio o Alfredo sofreu quase tanto como o Delfim. A incerteza sobre a tradição de um apartamento em Albufeira no verão deixou-o apreensivo. Chegou a temer o pior. Mas o próprio Delfim fez questão de lhe assegurar que a tradição se manteria. O Alfredo suspirou de alívio. Ocorreu-lhe depois que a situação voltava a permitir saídas noturnas e amanheceres mais animados para o Delfim. Não pode conter o despontar de uma nova dose de algum sofrimento — agora provocado pela inveja. Chegou a pensar no seu próprio divórcio, mas infelizmente não via ainda motivos suficientemente fortes que o justificassem. Mas teria de explicar ao Delfim que em nome dos valores familiares continuaria a ser um apartamento de sala e três quartos. E, para prevenir tentações, morangos e chantilly estariam proibidos naquele frigorífico.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A fábula do coelho especial

Há muito, muito tempo (num tempo em que os animais ainda falavam) havia uma quinta no extremo mais ocidental do velho mundo, habitada exclusivamente por coelhos, galinhas e patos   demasiados patos; muito mais patos do que coelhos e galinhas. Apesar das constantes ameaças das glutonas raposas que circundavam a quinta, a população animal no seu interior conseguia defender-se razoavelmente bem e sobreviver com alguma tranquilidade.

Entre os animais da quinta havia naturalmente um líder. Líder esse que era eleito periodicamente em assembleia geral, através do sistema de voto mais natural: levantamento de asa, no caso de galinhas e patos, ou levantamento de pata, no caso dos coelhos. Fazia parte das atribuições desse líder zelar pela defesa dos animais na quinta, em particular, protegê-los das investidas das raposas. Como forma de diminuírem as tentativas de invasão, uma parte do que cultivavam na quinta era arremessado por cima dos muros para que as raposas se alimentassem  reza a lenda que há muito, muito tempo, as raposas eram animais com tendências tanto vegetarianas como carnívoras, mas já com clara preferência pela carne.

Durante anos, a organização da quinta funcionou na perfeição. O poder alternava quase sempre entre galos e coelhos; ora uns, ora outros. Os patos, apesar de em muito maior número, nunca conseguiam ascender ao poder  eram demasiado patos. Porém (há sempre um porém!), as condições de vida na quinta começaram a degradar-se seriamente quando um galo janota, de penas brilhantes e bem falante conseguiu ascender ao poder. A pouco e pouco, os humildes animais da quinta começaram a constatar que a contribuição dada para os manterem a salvo do inimigo externo (que dava pelo nome de raposa) era cada vez maior, e um grupo restrito de galos e galinhas engordava a olhos vistos. Em contrapartida, coelhos e patos (principalmente estes) emagreciam também a olhos vistos. O orgulho por terem um líder tão janota e bem falante rapidamente deu lugar ao descontentamento pelas condições de vida cada vez mais degradadas.

Um belo dia, para gáudio dos já inúmeros descontentes (principalmente patos), saiu da toca um belo coelho. Um coelho vigoroso, de pelo bem cuidado (ainda mais janota que o galo janota), com falas sábias e mansas. Esse coelho tornou-se na nova esperança para aquela população animal. Tanto fez, tanto prometeu, que a assembleia geral para nova eleição foi inevitavelmente marcada. No dia da votação, os coelhos nem pestanejaram e os patos (sempre muito dispostos a deixarem-se levar na onda das falas sábias e mansas) votaram em massa no coelho recentemente saído da toca. Até algumas galinhas se deixaram enganar pela lábia e aparente aura de boas intenções desse coelho tão especial.

Não demorou muito (menos de um mês) para que os patos mais desconfiados (alguns, poucos) e as galinhas sempre desconfiadas começassem a detetar no coelho uns certos tiques de raposa. Num ápice, já poucos acreditavam que sob a pele daquele coelho especial não houvesse uma raposa. E muitas outras raposas tinham saído da mesma toca sob peles de outros coelhos. O pânico instalou-se. Era tarde demais!