quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Restaurador Olex ®

A publicidade televisiva tem atualmente ao seu dispor meios que seriam praticamente impensáveis há algumas décadas atrás, com recursos para a criação de filmes publicitários que, por vezes, são autênticas produções hollywoodianas. Apesar do muito aparato (ou talvez pelo exagero do aparato), fico com a sensação de que nessas produções escasseia capacidade para se imporem no imaginário coletivo da mesma forma que se impunham algumas publicidades (ou reclames, como era costume dizer-se) do passado com recursos muito mais limitados.

Quem se encontra numa faixa etária acima dos trinta-e-muitos, certamente ainda guarda na memória (e, quem sabe, também na despensa) produtos como Boca Doce ®, Fantasias de Natal ®, Mokambo ® ou Trinaranjus ®. Apesar da produção simples e dos orçamentos irrisórios, todos eles se tornaram profundamente marcantes, fosse pela doçura dos seus intérpretes, pela cançãozinha que facilmente (até demais) se colava ao ouvido, ou até mesmo pela ligeira graçola.

Igualmente dessa época, igualmente inolvidável (porém, sem nenhuma das características atrás mencionadas) é a publicidade do Restaurador Olex ®. Não sei até que ponto foi intencional, mas se alguém tentou, conseguiu: impera o mau gosto do princípio ao fim. Apesar disso (ou talvez por isso), marcou o imaginário de uma geração. Quem a viu e ouviu dificilmente esqueceu que «um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural; o que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu».

Nunca pratiquei yoga (por manifesta falta de tempo, obviamente), mas sou totalmente favorável à filosofia do ser como uno, corpo e mente em saudável harmonia. Em algumas intervenções orais do (jogador de futebol) Hulk, ficava com a sensação de que ele era naturalmente loiro. Sentia que o disfarce capilar em tom escuro não combinava. Finalmente, no passado fim de semana, ele resolveu seguir o conselho (quiçá, utilizando o produto) do Restaurador Olex ® e devolver a cor natural ao seu cabelo. Fica assim mais harmoniosamente preparado para enfrentar as agruras de um campeonato onde já deu mostras de sentir dificuldades de autocontrolo, principalmente na penumbra dos túneis.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Já nem o diabo os quer

Não tenhamos ilusões, do outro lado eles sabem tudo o que se passa por cá. E, dependendo do comportamento dos figurões deste lado, podem acontecer negociações entre um e o outro. Por estes dias houve uma interessante chamada telefónica de Deus para o Diabo:
 Estou.
 Aleluia! Finalmente atendes.
 Calma, Deus, temos a eternidade à nossa frente!
 Que estavas tu a fazer?
 Coisas do Diabo...
 Ai, ai, essas tuas coisas... Mas vamos ao que interessa: como estás de reservas?
 Que tipo de reservas?
 Para governantes portugueses.
 Nem pensar!
 Nem pensar?!
 Sim, por duas ou três gerações não aceito mais reservas.
 Oh Diabo, complicas-me a missão!
 Porquê, mais algum se portou mal?
 Sim, esse novato, o Passos Coelho.
 Que aprontou?
 Mentira.
 Mentira?
 Sim, mentiu.
 E queres mandá-lo cá para baixo por uma coisinha dessas?
 Coisinha?! Mentira descarada com a clara intenção de tirar benefício pessoal. Um grande aldrabão!
 Ah, Deus, perdoa-lhe.
 Não posso, Diabo, enganou milhões de fiéis. Aceitá-lo aqui dá-me cabo da reputação da casa.
 Bom, dessa casa sabes tu.
 Mas, deixa-me que te diga, isso de não aceitares reservas nem parece coisa tua.
 É verdade, mas esses governantes portugueses são do pior.
 E não é do mal que te alimentas?
 Sim, sim, claro. Só que esses gajos são insuportáveis!
 Por que dizes isso?
 No sistema deles, qualquer medíocre bem-falante apadrinhado num tal de centrão ganha facilmente protagonismo na cena política nacional.
 E daí?
 Depois transita do mundo da política para o mundo empresarial, como executivo topo de gama, enquanto eu esfrego um olho.
 E não gostas de promiscuidade?
 Claro que gosto! O chato é que esses governantes portugas se dão tão bem por lá, vão tão além das expectativas que os méritos pessoais recomendariam, que depois lhes custa demasiado abandonar as mordomias da vida na terra.
 E que mal tem isso para ti?
 Ora, com a alma deles, com o tal do fado enraizado, esses medíocres bafejados pela fortuna terrena chegam aqui demasiado chorões. Podes crer, vão muito além do razoável!
 E isso incomoda-te?
 Claro! Choram tanto que me estragam a fogueira. Depois que queimo um, há um trabalhão do Diabo para fazê-la voltar ao normal.
 Ai essa tua preguiça!...
 Pouco importa, preguiça ou não, já decidi não aceitar mais reservas para esses fulanos por uns tempos.
 E que faremos então com o Passos Coelho e mais uns quantos na forja?
 Sei lá, tu que és Deus resolve!
 Não estou a ver como... Em punições tu costumas ser melhor.
 Bom... surgiu-me uma ideia.
 Que ideia?
 Aumentamos o tamanho do purgatório e deixamo-los por lá a purgar na incerteza para todo o sempre.
 Só tu para te lembrares de uma coisa dessas!
 Modéstia à parte, não gosto de deixar os meus créditos por mãos alheias. E, neste caso, a necessidade aguçou-me o engenho!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A chama oculta

O Júlio e a Teresa visitavam pela primeira vez o Mendonça no apartamento onde este tinha recentemente ido morar com a Mariela. Tratava-se do primeiro encontro do casal com essa tal Mariela. «Um pouco sem sal», pensou o Júlio após as primeiras impressões colhidas. E acrescentou para consigo mesmo: «Não entendo que chama viu o Mendonça nesta insulsinha para ter abandonado o lar daquela forma». Para ser mais exato, além do lar, tinha também abandonado a esposa e dois filhos menores.

O Mendonça teve sempre no Júlio um parceirão à altura a quem invariavelmente contava todos os detalhes  ou talvez apenas os mais sórdidos  sobre a sua vida conjugal e extra-conjugal nos momentos mais importantes. No entanto, para grande desapontamento do Júlio, desta vez tinha sido muito parco em palavras e mais ainda em explicações: «Preciso de uma nova chama na minha vida», foi apenas o que disse o Mendonça quando comunicou ao Júlio o seu novo rumo.

Tomados os aperitivos da praxe na sala de estar, os anfitriões sugeriram que se dirigissem para a mesa de jantar. O Júlio e a Teresa sentaram-se de um lado da mesa — com a Teresa à esquerda do Júlio —, o Mendonça e a Mariela do outro lado. Tendo o Júlio ficado em frente à Mariela  e o Mendonça em frente à Teresa, mas isso pouco importa para o caso , uma apreciação mais detalhada da Mariela tornou-se praticamente inevitável. «Mesmo muito sem sal», pensava novamente o Júlio para com os seus botões, quando sentiu um ligeiro roçar — da batata de uma perna, supôs  na sua perna direita. A Teresa não podia ser  longe ia o tempo em que a Teresa dava largas aos seus dotes de contorcionista para roçar os membros do Júlio. O Mendonça nem pensar. Só podia ser... acidental. E era a batata da perna da Mariela, claro. «Acidental? Mas desta forma? Queres ver que a mosca-morta afinal tem vida?», pensava o Júlio, quando sentiu um novo roçar na sua perna.

Vítima de tais atrevimentos sob a mesa, o Júlio ficou naturalmente por fora da conversa que os outros três mantinham por cima  algo que todos notaram sem necessidade de recurso a especiais dotes no campo da perspicácia. Sentindo o alheamento do amigo, pergunta provocatoriamente o Mendonça:
 Não é Júlio?
 O quê? O quê?  responde o Júlio visivelmente atrapalhado para risada geral.
 O Júlio é sempre assim calado?  resolve acrescentar a Mariela.
A pergunta da Mariela funcionou como lenha na fogueira para o pobre Júlio: «Grande safada, não só me assedia por debaixo, como ainda me provoca por cima!»

A avaliar pelo comportamento da Mariela na primeira vez que se encontravam, o Júlio começava a entender onde podia o Mendonça ter descoberto nela a chama que lhe faltava. Mas continuava sem vislumbrar justificação para a leviandade com que tinha abandonado o lar  com a esposa e os dois filhos menores  e mergulhado de cabeça numa relação séria  seria? — com tal galdéria. Nesse momento já os outros três comentavam  com alguma preocupação  sobre o ar ausente e preocupado do Júlio. Tentando distrair o amigo, pergunta o Mendonça:
 Já te disse que temos uma gato?  E dirigindo-se à Mariela:  onde está ele?
 Senti-o há pouco roçar-me a perna debaixo da mesa  responde a Mariela.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

But!

É claro que quem fala bem francês  acredito que seja esse o seu caso  não precisa de ler este parágrafo preliminar. Mas se não se sente à vontade com essa língua  tudo bem, há muito que deixou de ser grave , recomendo-lhe que comece por praticar o som da letra u: faça um biquinho — como se fosse dar um beijo  e diga u sem desmanchar o biquinho. Imagino que você, amigo macho, com receio de ver a sua virilidade posta em causa, vai sentir-se um pouco perturbado. Mas, fique tranquilo, se o seu chefe ou o seu vizinho o apanharem com expressão facial menos recomendável, conte a verdade: que está apenas a praticar francês  mas se lhe apetecer contar algo mais, aproveite o ensejo!

Longe vão os tempos em que a língua francesa dominava o mundo e falar francês se tornava quase obrigatório para quem queria ter boa formação. Ficaram-nos no português diversas marcas desse domínio linguístico, algumas bastante claras, outras mais ou menos disfarçadas: por exemplo, a palavra equipe  e outras do mesmo tipo  vem do francês e teve no português de Portugal a devida (?) adaptação para equipa. Adaptações dessas não aconteceram entre os brasileiros, sempre muito propensos a manterem fidelidade à sonoridade da palavra na língua original na introdução de qualquer neologismo. Com exageros, como é característica desse bom povo: por exemplo, nessa tentativa de afrancesar o u, em vez de menu dizem meni— na Bahia, pelo menos  até o puré vira pirê!  com tanta doçura no u, suspeito que o façam com batata doce.

Infelizmente para os francófonos, há muito que a língua inglesa passou a perna à língua francesa — algo a que os francófonos ainda não se adaptaram  e os anglófonos que se preparem pois os hispanohablantes avançam a olhos vistos — mas isso já são contas de outro rosário. Por causa desse domínio, temos também os anglicismos disseminados pelo nosso bom português, mais uma vez com as devidas (?) adaptações deste lado do Atlântico.

Uma área na qual os anglicismos predominam é a desportiva. E, por maioria de razão, no futebol — boa adaptação! Nunca entendi o motivo pelo qual os meus antepassados lusitanos desviaram o goal para golo, se gol — como se diz, e bem, no Brasil  até é uma palavra com alguma naturalidade em português, com a vantagem de manter fidelidade ao som original. Mas, enfim, nessa palavra em particular, antes golo do que o correspondente galicismo. Imagine-se no despontar do grande êxtase conferida pelo golo (ou gol) da sua equipa (ou equipe): como se sentiria se, em meio a tal êxtase, abraçando o parceiro de torcida, gritasse a plenos pulmões  com o tal u francês em biquinho  buuuuuut? No mínimo, um pouco comprometedor.