quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A panificadora doméstica

O grau de desenvolvimento de uma sociedade é inversamente proporcional à capacidade demonstrada pela sua classe média para contratar uma empregada doméstica: algo muito fácil nos países subdesenvolvidos, mais difícil nos países em vias de desenvolvimento, praticamente impossível nos países desenvolvidos.

Para auxiliar a classe média na execução das tarefas domésticas, nas sociedades mais desenvolvidas foram surgindo em força os abençoados eletrodomésticos. Uns, indubitavelmente, para compensar a falta de capacidade financeira para contratar auxílio humano para a execução dessas tarefas, outros apenas para dar largas a hábitos consumistas: quem nunca comprou um eletrodoméstico que nunca usou? Eu, por exemplo, tenho há alguns anos uma faca elétrica numa prateleira de inutilidades.

Agora que se vota para eleger tudo e mais alguma coisa, já dei por mim a pensar — em momento de pouca capacidade intelectual, é certo — qual seria o resultado de uma votação para eleger o eletrodoméstico mais maravilhoso da atualidade. Talvez o inevitável frigorífico. Restringindo a eleição a aparelhos de auxílio nas tarefas domésticas, acredito que as respostas pudessem andar maioritariamente entre a máquina de lavar louça e a máquina de lavar roupa. Excluo aqui, propositadamente, a aclamada Bimby: primeiro, porque nunca tive qualquer tipo de contacto com esse prodígio da sociedade contemporânea; depois, a julgar pelos relatos entusiasmados de quem a descreve com todo o seu poder multifuncional, tendo a considerá-la não tanto como um eletrodoméstico mas mais como uma empregada doméstica   e longe vão os tempos em que a fraca consciência social permitia olhar uma empregada doméstica como uma mera máquina.

Na mesma prateleira de inutilidades da já citada faca elétrica, tive durante largos meses uma máquina de fazer pão. Mas em boa hora a resgatei dessa prateleira. E hoje nem tenho dúvidas em elegê-la como um dos meus eletrodomésticos favoritos. Acordar pela manhã com o cheiro a pão quente  sempre tive um certo fascínio pelo cheiro das padarias  sem ter que descer para comprá-lo, é algo que só uma máquina superdotada poderia proporcionar-me. Com a programação certa — e abrindo mais ou menos portas entre a cozinha e o quarto — consigo o aroma com a intensidade ideal para me invadir agradavelmente as narinas ao despertar. Invasão essa que, é certo, me conduz a dúvidas pungentes: deixo-me inebriar pelo aroma e durmo mais uns minutos? Ou saio já para barrar a manteiga no pão quente? Ou será que hoje prefiro geleia?

E, convenhamos, haverá forma mais agradável de começar o dia do que com dúvidas como estas? Haver há, mas não muitas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O jantar de Natal com o Madeira

«Geralmente são os bens que provêm 
do acaso que provocam inveja»
Aristóteles

Ia já para 10 anos que o Madeira jantava com a família Figueiredo na noite de Natal. Depois que enviuvara, passara a ser presença habitual na casa dos Figueiredo nessa noite, mesmo após terem perdido a cumplicidade de vizinhos porta com porta, quando os Figueiredo se mudaram para outra parte da cidade.

Nos últimos anos a família Figueiredo tinha aumentado. Ao senhor Figueiredo, à dona Adozinda, ao filho e à filha juntavam-se agora o genro e a nora. E, na noite de Natal, o Madeira.

No telefonema da praxe para confirmar a presença do Madeira, foi com surpresa que a dona Adozinda notou da parte dele alguma resistência para cumprir aquilo que já podia ser considerado como uma tradição de longa data. Apercebeu-se depois que o Madeira arranjara uma namorada e não se sentia muito à vontade para aparecer com ela. Por certo, pensou a dona Adozinda, cedera à insistência de alguma viuvinha ou solteirona — frequentes assediadoras do Madeira — e sentia-se inibido para aparecer com ela. Coitado do Madeira, é tão bom, pensou ainda a dona Adzinda. Mas ela conhecia bem o Madeira e sabia que com alguma insistência o convenceria a aparecer com a namorada. E assim foi.

Na noite de Natal, enquanto aguardavam a chegada do Madeira, a dona Adozinda contou à família sobre a ligeira resistência do Madeira para aparecer naquele ano. Quando souberam do motivo, todos, sem exceção, soltaram um «coitado do Madeira, é tão bom». E concordaram que o importante era que fosse feliz. Os mais propensos a comentários inoportunos foram advertidos para que contivessem os impulsos. Independentemente de como fosse essa namorada, o Madeira era praticamente da família.

Foi já perto da hora do jantar que apareceu o Madeira acompanhado da sua namorada na casa dos Figueiredo. E foi com indisfarçável surpresa que todos constataram que a suposta «viuvinha ou solteirona» se tratava afinal de uma bela e airosa mulher na flor da idade — aproximadamente da mesma idade da filha e da nora dos Figueiredo — exalando sensualidade. Doutorada em psicologia, de conversa fluente, tornou-se naturalmente o alvo de todas as atenções nessa noite.

Quando o Madeira e a namorada saíram, ficou a família Figueiredo em alvoroço, exibindo sentimentos que denotavam uma clara falta de espírito natalício: eles com inveja do Madeira, elas com inveja das qualidades da namorada do Madeira. Houve discussões entre os casais mais jovens por causa do deslumbramento masculino pela namorada do Madeira. E tentativas — frustradas — das esposas depreciarem as óbvias qualidades da namorada do Madeira. Mesmo o senhor Figueiredo, poucos anos mais velho do que o Madeira, foi apanhado a divagar sobre atributos da namorada do Madeira. Naquela noite de Natal a harmonia da família Figueiredo ficou seriamente abalada.

Já mais tarde, na cama, o casal Figueiredo conversou bastante sobre a namorada do Madeira. E a dona Adozinda decidiu que enquanto o Madeira estivesse com aquela mulher não voltaria a ser convidado para o jantar de Natal. Em nome da harmonia familiar. Mas que diabo teria o Madeira para estar com aquela mulher?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os Conzet

O seu nome era Conzet. Louis Conzet. Vendo-o ali estendido, com a alma já entregue ao criador e pronto para seguir na viagem eterna, é difícil imaginar a vida de luxo e luxúria pela qual acaba de passar o Conzet. Especialmente nas décadas de 60 e 70, quando o seu estilo marcou uma geração e a sua degeneração marcou um estilo. Houvesse no seu período áureo a quantidade de publicações rosa e rosa choque de hoje em dia e a sua influência no meio dos socialmente relevantes da capital e arredores – ilhas dos Açores e Madeira incluídas – teria atingido ainda maior protagonismo.

Velam o corpo do Conzet menos de uma dúzia de amigos: os poucos que lhe sobraram dentre as várias centenas que já possuiu. Ainda os pais do Mark Zuckerberg não sonhavam ir um com o outro para a cama  – ou lá onde o sujeito foi feito – e já o Conzet preconizava amizades aos centos no bom estilo facebookiano. Com a decadência física e os problemas financeiros, os amigos começaram a escassear. Naturalmente. Comparecem agora, na hora da grande despedida, apenas os autênticos, aqueles que verdadeiramente sentirão falta da sua existência alegre e das suas excentricidades.

Da sua família nunca muito falou. E, em momento algum, entrou em grandes detalhes sobre enredos da sua teia familiar. Apenas uma ou outra referência esporádica a origens na Riviera francesa, mencionando inclusive um ligeiro parentesco à família real — ou dir-se-á principal? — do Mónaco. Tendo em conta a forma esquiva como sempre abordou o tema, várias foram as conjeturas de que a sua ascendência entroncasse em algum galho bastardo da árvore dos Grimaldi. Mesmo assim, algo bem visto no seu meio social, sem dúvida. Mas não a ponto de permitir a alguém com a classe e o orgulho do Conzet conversar aberta e francamente sobre o tema.

Viveu e padeceu de inúmeros amores, mas nunca se casou. Só muito recentemente, e já depois do coração do Conzet ter perdido por completo a capacidade de amar, o Estado português permitiu que o amor sem impedimentos de género pudesse livremente firmar contrato nupcial. Quanto a filhos, o impedimento sempre foi biológico. E continua a vigorar.

A última frase que proferiu foi um surpreendente e revelador «avisem a minha irmã...». E ainda no mesmo fôlego, apontou para o telemóvel sobre a mesa de cabeceira e murmurou, já com visível dificuldade, duas palavras que os presentes entenderam como «Louise Conzet». De imediato, algum deles se aproximou do telefone e tentou, dentre a extensa lista de nomes, descortinar uma tal Louise. Em vão. O nome mais próximo que encontrou foi uma tal de Luiza. Sem grande alternativa, acabou por fazer o telefonema para essa mesma Luiza. E confirmou que efetivamente se tratava da irmã do Conzet. O mistério adensou-se.

Foi com alguma expectativa que cerca de meia dúzia de horas depois receberam na pequena sala do velório a até então desconhecida irmã do Conzet. Aparentava ser uns anos mais velha que o irmão e, surpreendentemente, revelava-se aos amigos do Conzet com um ligeiro acento beirão.
— Faça favor de se sentar — diz algum dos presentes com ar grave.
— Muito obrigada. Agradeço por me terem avisado.
— Ora essa, foi o último pedido do seu irmão.
— Pouco quis saber de mim em vida, pesou-lhe a consciência na hora da morte. Talvez por eu nunca ter gostado dessa farsa dos Conzet.
— Como assim?
— Mas nas horas de aperto dos últimos anos foi sempre a mim que recorreu.
— Farsa dos Conzet? Quer dizer que os Conzet não existem?
O ar pesaroso da sala foi nesse instante interrompido por um leve sorriso da senhora, que explicou:
— Existem sim: Luiz e Luiza, com "z" em vez de "s" — afirma com alguma graça, em parte conferida pelo acento beirão que muito se fez notar ao proferir as letras "z" e "s". E prosseguiu: — A história é simples. Na sua primeira visita ao Porto, o meu pai ficou de tal forma impressionado com a ponte D. Luiz que prometeu prestar-lhe homenagem atribuindo esse nome a um filho. Eu nasci primeiro. Não sabendo se viria filho varão, jogou pelo seguro e despachou-me logo com o nome de Luiza. Luiza com z. Mais tarde nasceu o meu irmão e, aí sim, o meu pai teve oportunidade de cumprir a contento a sua promessa. Anos mais tarde, a história teve novo desenvolvimento quando o Luiz entrou no colégio. Para distingui-lo de um outro Luís que por lá andava, os colegas começaram a apelidá-lo de «Luiz com "z"». E o meu irmão afeiçoou-se ao nome. Afeiçoou-se tanto que nunca mais o largou. Estilizou-o quando veio para Lisboa estudar Direito, mas os estudos deram para o torto. O Luiz rapidamente descobriu mais interesse em alguns colegas da vida boémia da capital do que nos estudos. O resto vocês devem saber melhor do que eu...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estudos de equilíbrio

Os estudos são como tudo: valem o que valem (e utilizo aqui um recurso lapalissiano por não ter encontrado maneira mais interessante de começar este texto). Dependendo de quem os realiza, da forma como os realiza ou das conclusões que deles são extraídas, tanto podem surgir para acrescentar informação de valor, como redundar num desastre total.

Para ilustrar o que pretendo dizer com desastre total, podia aqui referir as recentes conclusões de João Duque e seu naipe de ases na sequência de um suposto estudo sobre a RTP. Contudo, aquilo pareceu-me mais um documento produzido com segundas intenções para agradar a terceiros do que um estudo sobre a RTP. Por conseguinte, não merece ser aqui citado, nem na categoria de estudo que redundou num desastre total.

Nessa categoria, prefiro recordar um estudo feito há uns anos — não sei onde, nem por quem, mas talvez até seja melhor assim —, cuja conclusão ditava algo como: «descafeinado faz mal ao coração». O estudo foi divulgado nos media e, como a conclusão era surpreendente, o estudo foi repensado — nem sei até que ponto já tinha sido pensado antes, mas concedo aqui o benefício da dúvida aos seus autores. Repensamento feito, concluiu-se que, afinal, não era bem assim: o que sucedia é que pessoas com problemas do coração — e não me refiro aos mal de amores — tinham já, à partida, uma certa tendência para substituir o café pelo descafeinado. É evidente que uma inversão entre causa e efeito pode desvirtuar um pouco o valor de um estudo.

Exemplos inequívocos — pelo menos para mim — de estudos com valor são regularmente levados a cabo pela CareerCast.com sobre as melhores profissões nos Estados Unidos. Nesses estudos são tidas em conta as características de cada profissão, entrando em consideração fatores como a remuneração, a responsabilidade e o stress. O estudo de 2011 revelou a profissão de matemático como a segunda melhor do ranking, apenas atrás da de engenheiro de software. Surpresa? Só para quem não tem estado a par dos resultados desses estudos, pois a profissão de matemático já tinha ocupado a sexta posição em 2010 e a primeira em 2009!

Trabalho num país muito diferente dos Estados Unidos, onde a valorização profissional não é necessariamente a mesma — em Portugal a coisa funciona mais a sério e não se dá valor por aí além a esses alucinados matemáticos —, mas nos tempos que correm não posso deixar de considerar como excelente um estudo que revela resultado tão animador. E manda o meu manual de equilíbrio psíquico e emocional que encare tal estudo como bem pensado, bem realizado e bem concluído! Mais não seja, para ter o conforto de saber que quando a situação por aqui apertar para valer, ainda há lugares neste belo mundo onde um exílio pode compensar.