quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A cena do presépio

Diz com alguma frequência quem na vida passa a desempenhar o papel de progenitor que forma de amor maior não há do que o amor sentido por um rebento. Sendo provavelmente essa uma grande verdade, não é menos verdade que o objeto desse amor tão singular é muitas vezes utilizado como veículo transmissor de missivas em diversos diferendos entre os progenitores macho e fêmea.

Imagine-se uma cena familiar num final de tarde de novembro, com mãe, pai e uma filha em idade escolar. A menina acaba de chegar da escola, larga a mochila e dirige-se à cozinha, onde a mãe prepara o jantar e o pai aguarda o jantar preparado. Cumprimenta os pais quase mecanicamente e encosta-se a um canto amuada. O pai pergunta-lhe:
— Que se passa?
— A peça de Natal...
— Não conseguiste papel?
— Consegui.
— Então porquê essa cara?
— Queria um papel, mas não o que me deram.
— Que papel foi esse?
— De vaca... Vou fazer o papel de vaca!
— Deixa lá, filha, o importante é participar.
— Pois, mas a Inês vai fazer de Virgem Maria!
Apesar do facto não ser importante para o desenrolar da história, não será de todo despropositado assinalar que essa tal de Inês era a melhor amiga da menina — e talvez o recíproco não fosse assim tão verdade.

O papel de vaca, mesmo que a do presépio, não é papel que um pai possa ter muito orgulho para a representação teatral de uma filha. No entanto, pretendendo desenvolver na menina mecanismos de racionalização, o pai tenta fazer com que ela veja naquela adversidade um lado positivo:
— Não é um papel tão simples quanto possa parecer!
— Não?!
— A história do cinema está cheia de grandes papeis onde os atores praticamente não dizem nada.
— Pai, é o papel da vaca do presépio: vou ficar quieta o tempo todo a bafejar o boneco que faz de menino Jesus e de vez em quando dizer muuuuu. Só isso!

Este é o momento chave. A partir daqui não fica claro se o discurso do pai é apenas fruto do amor paternal, visando o conforto da filha, ou passa a utilizar a conversa como forma de reacender a fogueira de velhas querelas com a mulher. Diz o pai:
— O papel é muito exigente para uma menina. Imagina tu a dificuldade de teres que ficar caladinha o tempo quase todo. As pessoas do sexo feminino têm uma relação muito difícil com o silêncio!
A mãe, que não tinha qualquer tipo de problema auditivo e naturalmente tinha escutado toda a conversa, conseguiu, com algum esforço, manter-se em silêncio. A menina dirigiu-se à mãe:
— Que achas, mãe?
— Não sei... Mas pensa que podia ser pior: se fosses menino, talvez te calhasse o papel de burro!
Não fica também claro se a mãe tentava com esta resposta enviar alguma missiva ao pai da menina. Mas é certo que o amor maternal por vezes também tem as suas fraquezas.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

21122012

Se há aspeto no qual podia considerar a minha existência uma absoluta nulidade, esse é seguramente o das experiências esotéricas. Até ontem. Suspeito mesmo que o mais perto que cheguei de uma experiência com algum grau de esoterismo foi há aproximadamente uma dezena de anos no Père Lachaise, em Paris. Deambulava eu alegre e perdidamente pelo cemitério em visita às moradas eternas de alguns dos mestres universais das letras e da música lá sepultados, quando fui abordado por uma jovem que, notando-me algo perdido, me perguntou (num idioma estrangeiro, já não me lembro qual): «Buscas o Jim?». E imediatamente apontando para um lugar relativamente escondido, acrescentou: «Está ali». Quando lá cheguei já só vi o túmulo do Jim Morrison, mas do jeito que ela me falou, acredito que viesse de algum contacto de elevado grau com o próprio.

É muito pouco, eu sei, mas até ontem foi o que de melhor consegui: acreditar que estive a uns escassos metros e alguns segundos de um contacto transcendente com o Jim. Claro que para uma existência tão pobre nessas matérias muito tem contribuído uma grande dose de ceticismo da minha parte. Um ceticismo congénito e alimentado ao longo das minhas já consideráveis décadas de existência. Acredito que seja uma grande limitação minha e não a confessaria aqui se não fosse para deixar claro que qualquer manifestação nessa direção, ainda que ténue, merece ser levada em consideração.

Era precisamente aqui que queria chegar: se um cético da minha estirpe, que nunca conseguiu ver nada de transcendente — e mesmo quando viu não acreditou — agora lhe confessa acreditar que algo de tenebroso está para acontecer, parece-me que qualquer pessoa minimamente razoável só pode ter uma atitude: dar-lhe crédito. Literalmente.

Não sei o que se passou comigo durante a noite passada, mas sei que hoje de manhã despertei com uma sequência de misteriosos números na cabeça: 21122012. O mais estranho é que esses números me foram zumbidos ao ouvido pela abelha Maia. A princípio não liguei, pois era ainda muito cedo e nem suspeitei que já estivesse acordado, mas depois que liguei os neurónios e parei para refletir...  21 12  20 12... abelha Maia... óbvio não é? A profecia Maia... o fim do mundo! Felizmente a querida abelhinha não só zumbiu esses números ao meu ouvido — acho que foi o esquerdo —, como se dirigiu de imediato para cima do melhor manual de Teoria dos Números que tenho em casa.

Foi para mim claro que a Maia queria dizer-me que se o problema estava na terrível combinação de números, era nesse livro que eu deveria encontrar a resposta. Não fiquei parado — como poderia? —, estudei profundamente o problema, enchi várias páginas de cálculos e cheguei à seguinte solução: 0018 0004 19892068020 05. Coincidência das coincidências, trata-se do meu NIB! Podia tentar explicar-lhe em detalhe o processo que me conduziu a este número mágico, mas o tempo é escasso e é melhor irmos diretos ao que interessa: se quer investir na sua salvação, transfira tudo o que tem para essa conta — eu já faço isso há anos. E para que acredite que não há o menor grau de charlatanismo nesta história, aqui deixo a minha solene promessa de que, falhando a solução, eu devolvo 100 vezes aquilo que investiu na sua salvação. É mesmo isso, se a minha solução falhar e o mundo acabar, eu devolvo-lhe 100 vezes o que transferiu para a minha conta. Pense bem, pois nem nos seus tempos áureos o BPN dava lucros desta ordem a Cavaco & Associados!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A arte imita a vida

«Há três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em literatura»
S. Stills

Há homens extremamente simples cujo supremo ideal de vida – e de morte, quem sabe... – se resume a muito pouco: uma boa cama e uma mulher nela deitada – de preferência já sem roupa – é tudo quanto de mais profundo almejam.

Devo confessar que não me lembro de alguma vez ter conhecido algum homem com este grau de simplicidade, mas como homens deste tipo abundam por aí na literatura e nos filmes, deduzo que, possivelmente, também existam na vida real. É que a arte imita a vida...

Provavelmente era o caso do Pires. Um belo dia o Pires sentiu-se despertar num lugar muito incomum: um lugar claro, amplo, sem paredes laterais visíveis, nem teto. Apesar da sua vasta experiência de despertares em lugares inusitados, nunca tinha acontecido ao Pires de se sentir tão desnorteado como no despertar daquele dia. A primeira impressão que teve foi de ter despertado no meio das nuvens. E com a sensação de ter dormido um sono de vários dias consecutivos.

Quando o Pires se virou, viu deitada a seu lado uma mulher serena, bela e nua, que parecia dormir um sono profundo. Uma mulher que o Pires não se lembrava de ter visto antes — não pensou que fosse caso fortuito de véspera, pois continuava com a sensação de ter dormido vários dias seguidos. Apesar de tanta estranheza, o Pires sentiu o cenário como idílico.

Pouco depois o Pires viu surgir um homem ao longe que, lentamente, se foi aproximando. Já mais perto, reconheceu nesse homem a figura relativamente familiar de alguém com vestes longas e uma grande chave na mão. O Pires foi invadido por uma sensação muito estranha. Começou a temer o pior. Logo que o homem chegou a uma distância razoável, o Pires interpelou-o:
— Quem és tu?
— Pedro.
— Pedro?... Pedro quê?
— Pedro, simplesmente. A História nunca me deu mais do que um nome próprio.
— Que lugar é este?
— O purgatório.
— Morri?!
— Morreste.
— Ai caramba!
— Exageraste nas pastilhas do amor, o teu coração não aguentou.
— E que faz aqui esta mulher?
— Dorme um sono que pode ser eterno.
— Assim, nua...
— É uma tentação, não é?
— Sem dúvida!
— Podes tocá-la enquanto dorme.
— Posso mesmo?!
— Podes fazer tudo o que quiseres com ela. Esse será o teu céu!
— Ena!
— Porém...
— Há um porém?
— Deves ter cuidado para não despertá-la, pois ela é do tipo que fala sem parar, alega frequentes dores de cabeça e reclama de tudo que um homem faz. Esse será o teu inferno!

Devo dizer que tampouco conheço pessoalmente mulheres com estas caraterísticas, mas como é frequente vê-las por aí na literatura e nos filmes, deduzo que possivelmente também existam na vida real. Como já disse, a arte imita a vida...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta aberta ao mago Gaspar

Escrevo estas palavras com o intuito de lhe pedir um favor. Não mais do que um singelo favor. É muito provável que pense que não me deve favores nenhuns, mas analisando bem a situação, facilmente chegaremos à conclusão de que já tenho algum crédito quanto a isso. Ora vejamos: por um lado, desde que o senhor encabeçou este governo de devotos do confisco e passou a ditar as suas impiedosas leis fiscais, já me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá) um respeitável quinhão de rendimentos; por outro lado, nas altas esferas financeiras que o senhor tão bem conhece e venera, dinheiro e favores são duas faces da mesma moeda. Confio na sua prodigiosa inteligência para que chegue à conclusão certa...

Desde já esclareço que não escrevo estas linhas com o intuito de lhe pedir que me devolva — ora aí está um verbo que o senhor muito gosta de deturpar — o dinheiro que me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá), porque do jeito que a realidade que nos quer impor perdeu qualquer sentido de verdade, acredito mais que um rei Gaspar apareça no dia 6 de Janeiro no Palácio de Belém montado num camelo carregado de ouro, incenso e mirra do que o senhor, mago Gaspar, montado no seu coelho, sequer pense deixar de tomar (confiscado ou roubado, o senhor dirá) aquilo que me é devido. São apenas rendimentos do trabalho que o senhor veementemente despreza — os rendimentos, não trabalho, claro —, não são fruto de sagazes jogadas de alta finança, daí a minha descrença.

Fazendo uma pequena análise da sua atuação ministerial, facilmente constatamos que o senhor entrou na lide como o grande mago que chegava para nos salvar do descalabro financeiro. Contudo, à medida que as suas receitas e a realidade se foram mostrando inconciliáveis — algo que muitos desde cedo previram e o senhor provavelmente também, mas nunca disse —, o senhor foi paulatinamente dirigindo a sua atuação para o campo da política.

Atuação política fraca e profundamente demagógica, diga-se de passagem. Primeiro, querendo pintar-nos como um rebanho de ovelhas bem comportadas, depois querendo o senhor mesmo colocar-se no papel de cordeiro em dívida para com as outras ovelhas do rebanho e, ultimamente, querendo pintar de negro as ovelhas com voz dissonante da sua. É verdade, da sua miserável atuação política faz parte essa tentativa recente de fazer passar uma visão maniqueísta da cena política nacional — com os bons à direita e os maus à esquerda, obviamente. Se for para pintarmos uma visão maniqueísta da cena, o que melhor distingue os políticos portugueses da atualidade não é a tendência de direita ou de esquerda, mas sim o caráter: os que o têm e os que o não têm! E, para nosso grande mal, os da bancada da maioria estão todos — talvez com uma honrosa exceção — do lado do não!

Simultaneamente com as medidas de austeridade que o senhor impiedosamente nos tem imposto vem sempre, ao jeito de banda sonora no seu tom pausado e monocórdico, essa lengalenga de que é necessário cortar nos benefícios sociais para corrigir o défice da república. Poderia ser. Mas não é. Já toda a gente — o senhor incluído — se apercebeu de que, do jeito que a situação evolui, a correção do défice vai ficar para as calendas gregas. E qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe que o caso não é o corte no estado social ser o meio inevitável para atingir o objetivo do défice, mas sim o défice ser uma ótima desculpa para atingir os cortes no estado social. Ninguém duvide que os seus fiéis amigos do investimento anseiam pelo momento em que o estado social seja desmantelado e servido em bandejas de ouro para eles se banquetearem.

Posto que o seu mago conhecimento técnico se está a revelar ineficiente, a sua desastrosa atuação política cada vez mais nos desconcerta e entramos em quadra natalícia — época em que sentimentos nobres por vezes falam mais alto —, acalento a esperança de vê-lo aceder ao favor que lhe peço. Tão singelo quanto isto: bata com as portas, largue o inqualificável coelho a pastar nas suas desqualificadas relvas e deixe-nos em paz!

Pode esquecer a sua dívida de gratidão para com Portugal, pois este bom povo também facilmente a esquecerá. Pode até partir montado no tacão alto da sua altivez, seguro de que não foram os gráficos e as folhas de Excel que não se adaptaram à nossa realidade, mas sim a realidade que não teve um mínimo de capacidade para adaptar aos seus excelentes gráficos e folhas de Excel. O importante é que vá... que parta! E não tenha problemas de consciência por nos deixar ao Deus dará. Com a matriz católica que nos caracteriza, depois que nos virmos livres da tragédia grega que nos impõe o senhor e a sua legião do confisco, facilmente acreditaremos que Deus novamente algo de bom nos dará — quase nove séculos de existência já dão algum conforto quanto à sobrevivência mesmo sem magos. Talvez mais uma breve ilusão, pouco importa. Afinal, o que seria da vida sem ilusões? É que já não são só os rendimentos que nos toma (confiscados ou roubados, o senhor dirá) que me preocupam: com o senhor por muito mais tempo no poder serão as últimas réstias de esperança que se esvaem. E sem esperança não há futuro!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tamanhos

Os benefícios em termos psíquicos decorrentes da prática de qualquer atividade artística são sobejamente conhecidos e cientificamente reconhecidos, podendo esses benefícios ser obtidos de modo direto, através da libertação psíquica do indivíduo no processo de criação, ou de modo indireto, aproveitando a criação artística como veículo para o autor desabafar sobre os seus vícios/prazeres menos confessáveis, sem que daí advenha grande comprometimento para si.

Na arte da escrita, o aproveitamento de forma indireta é bastante frequente. Um dos subterfúgios mais utilizados nessa arte ficcionada — por vezes só aparentemente — consiste na criação de personagens: querendo o autor abordar um tema delicado sem qualquer tipo de comprometimento para a sua postura, inventa um personagem para dar o corpo ao manifesto e manchar o seu — do personagem — bom nome com posições menos recomendáveis — que, no fundo, são as do autor.

Não me parecendo verdade que os textos que aqui tenho vindo a publicar possam ser considerados arte, também não me parece menos verdade que se tratam de escrita. E mesmo sem arte, os efeitos psicoterapêuticos têm sido evidentes. Sinto-os.

É isso que aqui farei mais uma vez, com variante de que desta vez o confesso.

Avancemos então com um nome para o nosso personagem: Amâncio. Para começo de conversa, coloquemos o Amâncio a meditar sobre um dos seus maiores vícios/prazeres. E dêmos um indício sobre o rumo que a exposição pode levar, deixando o nosso personagem a recordar uma velha máxima brasileira que assegura que «tamanho não é documento». E talvez nem seja.

Mesmo sem acesso a dados estatísticos que o confirmem, o Amâncio sabe que em Portugal sempre houve grande moderação quanto à preferência pelo tamanho. E, pese embora, desde tempos imemoriais as grandes andarem por aí, tem sido nas de tamanho médio que tem recaído a massiva preferência nacional.

O Amâncio, homem muito dado a experimentar dessas coisas pelo mundo fora, recorda-se que parecido com Portugal lhe pareceu ser o Chile — embora com ligeira preferência pelas grandes, especialmente quando partilhadas entre a população estudantil. Mas é bom ressalvar que o Amâncio não teve no Chile uma experiência tão vasta quanto isso para poder tirar grandes conclusões sobre esse país.

Experiência vasta e grandemente prazerosa teve o Amâncio no Brasil, onde em média elas são maiores do que em Portugal — sem, no entanto, chegarem a ser tão grandes quanto as maiores portuguesas.

O que ultimamente tem deixado o Amâncio bastante apreensivo é a constatação de que, tanto no Brasil como em Portugal, há uma acentuada tendência para a proliferação das de tamanho reduzido. Se ainda fosse como na Bélgica, onde as mais pequenas são normalmente compensadas com maior potência e qualidade, ainda menos mal. Mas não, tanto em Portugal como no Brasil, reduzem-lhes o tamanho sem nada lhes acrescentarem em compensação.

Abaixo as minis! Defende o Amâncio, obviamente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O absurdo mora ao lado

O Pereira já fez parte do imenso — talvez nem tanto — contingente de homens com tendência para brincar com o fogo (emanante das mulheres alheias). Uma vez levou a brincadeira longe de mais e fugiu de casa, tendo deixado ao abandono a mulher e os filhos. Como nem tudo que reluz é ouro, não tardou muito para que o fogo da mulher alheia se apagasse e, consequentemente, despertasse no Pereira uma profunda, sentida e merecida dose de arrependimento. A mulher do Pereira, que tinha vocação para a santidade, dessa vez perdoou-o.

Perante essa lição de vida, o Pereira transferiu-se para o imenso — agora sim — contingente de homens que não pretende mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. Mas o episódio da fuga e arrependimento deixou as suas marcas no Pereira. A experiência ensinou-lhe — e ele jamais esqueceu — que, ao menor deslize, paixões fortuitas entram de mansinho, destroem felicidades conjugais e depois passam.

Daí em diante, não só o Pereira abandonou certas palavras e atos relativamente às mulheres alheias, como passou também a tentar mantê-las afastadas até dos seus pensamentos. Custasse o que custasse. Esse o grande erro do Pereira: quis levar longe demais o seu esforço. É sabido que em matérias do pensamento a radicalização facilmente gera descompensação. O absurdo mora ao lado.

No escritório onde trabalhava o Pereira todos — elas, principalmente — sabiam da sua conversão ao mundo dos homens que não pretendem mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. E ele parecia feliz nessa nova postura de vida. Até que, aos poucos, começaram a sentir o Pereira padecer dum certo tipo de estranheza — sobejamente conhecida — que consiste em ficar introspetivo o tempo todo.

O Augusto, que tinha uma relação de maior proximidade com o Pereira, foi incumbido de ter uma conversinha com ele. Vai que o Pereira precisava de se abrir. Saíram juntos para o almoço e à primeira palavra de provocação o Pereira abriu-se num lamento:
— Acho que estou apaixonado!
— Como?!
— Uma paixão impossível...
O Augusto deduziu que o Pereira não se referia à madame Pereira.
— Invade-me o pensamento nas situações quotidianas mais simples.
— Relaxa, deve ser coisa passageira.
— De há uns tempos para cá, não há vez em que lave os dentes ou coma um bife que não pense nela!
— Ela quem?
— A Isabel Jonet!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Exercício especulativo sobre a ociosidade divina


Na minha modesta e pouco fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria especulativa.

Exemplifiquemos.

Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.

O plano inicial de Deus não teria sido propriamente trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos, teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos colhe da ociosidade: a arte.

O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem — por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes. Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando dá.

É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus, como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar os melhores lugares.

Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento — felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e observava uma linda morena — talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode ter uma profunda inspiração ociosa.

Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal, à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O linguista

Disse Millôr Fernandes que um escritor só é realmente famoso quando os seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais. Não me ocorrem estas palavras a propósito de um escritor, dado que sobre o personagem que aqui vou considerar não tenho informação de quaisquer registos escritos, mas sim sobre esse orador — cuja máxima de Millôr Fernandes também se aplicará, acredito — que dá pelo nome de Passos Coelho e que, num dos seus últimos discursos, avançou com uma ousada proposta de "refundação" do memorando com a troika — ou do estado português... ou lá que diabo queria ele refundar...

Perante a imprecisão — ou vacuidade? — da proposta, muitos foram os comentadores e analistas que se debruçaram sobre as enigmáticas palavras de Passos Coelho, especificamente sobre a palavra "refundação" — que o meu corretor ortográfico continua a sublinhar a vermelho.

Imbuído do rigor matemático que me caracteriza, antes de tentar descobrir o que Passos Coelho queria dizer com a palavra, fui tentar descobrir o que a palavra queria dizer. Consultado o dicionário online da Priberam, cheguei à conclusão de que a palavra "refundação" não existia e "refundar" tinha um significado que, no contexto, não combinava nada com o que me parecem ser as ideias políticas de Passos Coelho. Mais tarde consultei o meu velho dicionário da Porto Editora e cheguei essencialmente às mesmas conclusões. Ousei até postar um comentário no Facebook:
De acordo com o que me parecem ser elementares regras da língua portuguesa, presumo que "refundação" será o ato ou efeito de "refundar". E diz o meu dicionário que "refundar" tem o significado de "tornar mais fundo, profundar, afundar". Será que Passos Coelho, finalmente, começou a falar verdade ao país? Ou será que Passos Coelho, simplesmente, não sabe o que diz?
Tive até um amigo que gostou! Qual não foi o meu espanto quando, poucos dias depois, um outro amigo me alertou para o conteúdo deste meu comentário, observando que tinha consultado o dicionário online da Priberam e, surpresa das surpresas:
refundação
s. f.
Ato ou efeito de refundar. 
refundar
v. tr.
1. Tornar mais fundo. = AFUNDAR, APROFUNDAR, PROFUNDAR
2. Tornar a criar, a estabelecer algo; fundar novamente.
No espaço de alguns dias, não só a palavra "refundação" ganhava vida própria, como "refundar" adquiria um novo significado. Confesso que se não houvesse aqui e ali outros comentários com o mesmo teor do meu comentário facebookiano, eu ia começar a desconfiar da minha própria capacidade de leitura — ou até da minha sanidade mental, quem sabe. Desta forma, vou apenas achar que a erudição linguística de Passos Coelho tem esse dom de nos enriquecer a língua. Se outra riqueza não consegue criar para o país, pelo menos essa ele consegue. 

Julgo ser da mais elementar sensatez que de futuro eu passe a prestar atenção redobrada às palavras de Passos Coelho. E digo mais: quando tiver tempo vou tentar reinterpretar todos os seus discursos passados. Agradeço desde já à Priberam que inclua no seu dicionário significados ocultos de palavras como "já", "ouvi", "dizer", "que", "nós", "queremos", "acabar", "com", "o", "décimo", "terceiro", "mês", "mas", "nós", "nunca", "falamos", "disso", "e", "isso", "é", "um", "disparate", entre muitas outras. Não acredito que Passos Coelho tivesse utilizado estas palavras com os seus significados mais óbvios. Na minha conceção, o Passos Coelho linguarudo dá lugar ao linguista!

E para que não volte a cair em más interpretações, numa próxima campanha eleitoral só ouvirei Passos Coelho com dicionário na mão. Dicionário da Priberam, claro!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro das coisas

A Clotilde, a Maria Teresa e a Rosa Manuela conheceram-se há cerca de uma dúzia de anos, quando os seus filhos começaram a frequentar a mesma escola. A forte amizade que logo no primeiro ano nasceu entre os meninos estendeu-se com alguma naturalidade às respetivas mães. Jantares, lanches — muitos lanches — e incontáveis telefonemas selaram a amizade de tal forma que, mesmo agora, com os rapazes já crescidos e seguindo caminhos distintos, as três mães continuam a encontrar-se com alguma regularidade. Os telefonemas já escasseiam, para os jantares não há muito tempo, mas pelo menos um lanche, no começo de cada ano letivo, mantêm como hábito sagrado.

Desde cedo, o filho da Clotilde começou a revelar excelentes aptidões para as Ciências Exatas, o filho da Maria Teresa para as Humanidades e o filho da Rosa Manuela... bem, o filho da Rosa Manuela foi ficando para atrás e tardava em revelar aptidões para o que quer que fosse. Na falta de alguma aptidão especial, foi repetindo anos, com o intuito de tentar melhor descobrir a sua vocação. Assim dizia a Rosa Manuela.

Com os filhos da Clotilde e da Maria Teresa acabadinhos de entrar na universidade, no lanche deste ano conversaram naturalmente sobre as opções recentes e as perspectivas de futuro dos filhos.

— O meu filho entrou para Matemática, em Ciências — disse a Clotilde.
— E como são as perspectivas de emprego? — perguntou a Maria Teresa.
— Já foram muito melhores, mas esperemos que as coisas mudem — respondeu a Clotilde.
— Pois é, esperemos que as coisas mudem — concordou a Maria Teresa.
— As coisas?... Quais coisas?! — perguntou a Rosa Manuela.
— A conjuntura, a situação... — esclareceu a Maria Teresa.
— Ah! — apenas disse a Rosa Manuela.

Após um breve silêncio, a Clotilde dirigiu-se à Maria Teresa:
— E para que curso entrou o teu filho?
— Para Filosofia, em Letras — respondeu a Maria Teresa.
— Complicado, em termos de emprego — afirmou a Clotilde.
— Sempre foi, imagina agora! — acrescentou a Maria Teresa com ar de preocupação.
— Bom, esperemos que as coisas mudem! — concluiu a Clotilde.

Após mais um período — um pouco menos breve que o anterior — de silêncio, a Rosa Manuela interveio:
— É para ver como são as coisas: o meu filho ainda não terminou o secundário, mas eu não estou nada preocupada.
— Nada? — perguntaram admiradas a Clotilde e a Maria Teresa.
— Nada! — reafirmou a Rosa Manuela.
— E o que fará ele sem um curso? — perguntou a Clotilde.
— O que fará eu não sei, mas para lhe garantir um bom futuro o pai já o inscreveu na JS e na JSD! — respondeu a Rosa Manuela. E acrescentou: — E esperamos que as coisas não mudem!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bem-vindo ao Faroeste


No domingo passado ouvi o Professor Marcelo propor a realização de um filme, dirigido à opinião pública alemã, sobre os enormes sacrifícios que estão a ser exigidos aos portugueses — abaixo o eufemismo mediático dos «sacrifícios pedidos aos portugueses», pois a mim ninguém me pediu nada!

Suponho que o objetivo de um tal filme é provocar nos alemães a compaixão por este desafortunado povo no extremo mais ocidental da Europa. A ideia não é original e já teve uma primeira tentativa — não sei se muito bem sucedida — com um pequeno filme, contendo alguns chavões e imprecisões históricas, dirigido ao distante povo finlandês. Se é para enveredar novamente por esse caminho, desta vez faça-se a coisa bem feita: lance-se um repto a Brancos, Canijos, Oliveiras, Vasconcelos — e a sua inefável amiga dos peitos — e outros cineastas renomados deste país e realize-se um filme como deve ser! Julgo que a tragicomédia será o género que melhor se adequará ao objetivo, pois terá o mérito de conseguir despertar a atenção dos alemães para os nossos problemas e, simultaneamente, deixá-los bem dispostos — algo recomendável...

Nessa linha, um filme que pode ser levado em conta como inspiração para a obra cinematográfica de resgate da imagem do povo português é a comédia francesa de 2008, Bienvenue Chez les Ch'tis — Bem-vindo ao Norte, em Portugal —, realizada por Dany Boon. Trata-se de um filme que lida muito bem com a questão do deslumbramento do francês típico em relação o sul e o simultâneo preconceito com o norte. Norte e sul de França, no caso. Como seria de esperar, o desdém do personagem principal — e dos espectadores, acredito — pelo norte vai, ao longo do filme, dando lugar a um certo encanto e no final... bom, não quer que lhe conte o final, pois não?

Só a título de curiosidade, refira-se que o filme se tornou a produção francesa com maior sucesso de bilheteira e o segundo filme de sempre mais visto em França. O primeiro continua a ser o Titanic, mas nem queria mencioná-lo neste texto — longe de mim qualquer acusação de mau presságio sobre a realidade portuguesa!

Bienvenue Chez les Ch'tis inspirou já a versão italiana Benvenutti al Sud (Bem-vindo ao Sul). Na Itália, por comparação com a França, há uma generalizada simetria de opiniões quanto a norte e sul. Penso que no caso do nosso filme para os alemães, será fundamental que nos demarquemos da típica imagem de sul da Europa boémia e gastadora. Como também é verdade que geograficamente nos encontramos no extremo mais ocidental da Europa, «Bem-vindo ao Faroeste» será um título que assenta que nem uma luva!

Que alemão poderia sentir compaixão de nós se lhes mostrássemos como imagem portuguesa um Algarve cheio de sol, praia, campos de golfe, mariscadas e boa vida noturna? Praticamente nenhum. Que me perdoem as gentes trabalhadoras do Algarve, mas proponho até que no filme incluamos um algarvio no papel de vilão da história. Por exemplo, um sujeito com aura de político sério, mas que, eleito primeiro ministro, esbanje recursos europeus sem grande critério, dizime a agricultura e as pescas e se rodeie de um bando de amigos banqueiros que lhe deem grandes retornos financeiros e criem um monstro bancário capaz de deixar o país atolado. Para acentuar o tom de tragicomédia da película — e ilustrar a má sorte dos portugueses —, pode-se até fazer com que tal personagem algarvio ascenda ao lugar de figura maior do estado português.

Demasiado ficcionado? Talvez. Mas não esqueçamos que o objetivo de um tal roteiro cinematográfico é tentar convencer os alemães que somos um povo trabalhador, apenas muito mal governado. Como num passado não muito distante eles elegeram presidente um tal de Adolf Hitler, não será difícil aceitarem essa nossa história mirabolante e desafortunada como verosímil.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O catalisador

Dois amigos conversam sobre o impasse na vida sentimental de um deles.
— Estamos em ponto morno.
— Em ponto morno?
— Sim. Não aquece nem arrefece.
— Tu e a Nini já namorais há demasiado tempo!
— Pois, desde a adolescência...
— Precisais de um catalisador.
— De um quê?!
— De um catalisador. Algo que provoque reação. Um ingrediente extra.
— Talvez... Mas o quê?
— Deixa ver... A Nini é ciumenta?
— Já foi. Agora nem isso para aquecer!
— Então há que provocá-la.
— Mas como?
— Há diversas possibilidades. Vamos pela mais simples: convives com amigas da Nini?
— Várias.
— Alguma especialmente interessante?
— A Odete!
— Como é essa Odete?
— Um espetáculo! Bonita, inteligente, carinhosa...
— Namora?
— Há tempo que não.
— Então vai ser ela o catalizador.
— Como?
— Faz-lhe uns elogios à frente da Nini. Mostra-te deferente com a Odete. Enaltece-a. Se ela retribuir um pouco, melhor ainda!
— Achas que isso resulta?
— Não sabes como são as mulheres!

Passadas algumas semanas.
— Então, resultou?
— Nada!
— Porquê?
— Vê o meu azar: logo depois que conversei contigo, fui encontrar-me com a Nini. Imagina a primeira coisa que ela me disse.
— O que foi?
— Que a Odete começou a namorar!
— E daí?
— Desde então a Odete nunca mais esteve connosco; não pude catalisar ciúme nenhum!
— Catalisavas com outra, pá! Não convives com outras amigas da Nini?
— Conviver convivo, mas com nenhuma como a Odete! A Odete é realmente muito especial. Vê-la e ouvi-la é deleitar os sentidos! E as formas? E a forma como se expressa? Tão harmoniosa e perfeita como um noturno de Chopin num quadro de Renoir. Ando triste só de pensar que caiu nos braços de um fulano!

O amigo não disse mais nada. Ficou a pensar. Sentindo-se, ele mesmo, um catalisador.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Considerações em abstrato

«A única desculpa para se fazer uma coisa inútil 
é admirá-la imensamente. Toda a arte é inútil»
Oscar Wilde

Havia já alguns anos que não vendia — apesar de me pagarem cada vez menos, ainda sou pago — aulas a alunos do primeiro ano de uma licenciatura. Talvez fruto de um mundo assustadoramente imediatista, noto esses alunos cada vez mais vocacionados para a aquisição de rotinas na resolução de exercícios e pouco recetivos para aquilo que a Matemática lhes pode transmitir de melhor: a arte de (bem) pensar. Não se tratando, obviamente, de uma característica exclusiva da área, é inegável que a Matemática é especialmente apetrechada para fazer desenvolver nos alunos a capacidade de pensar em abstrato e aprimorar o pensamento lógico-dedutivo. E, sejamos objetivos, por muito que se tenha apego a grandes números, gráficos ou fórmulas aplicadas, ainda é com base no pensamento humano que se dão os maiores avanços no conhecimento.

Excetuando raras e honrosas exceções, por maior que seja o gosto e o contacto com a Matemática no ensino secundário, é apenas na universidade que os alunos se deparam pela primeira vez com aquilo a que verdadeiramente se poderá chamar de uma prova matemática. Parece-me ser esse um aspeto que não pode nunca ser descurado na formação de um aluno nesta fase. A mudança de paradigma quanto à forma como deve ser encarada a Matemática exige também dos professores uma certa perseverança, especialmente quando se trata de alunos já com o pensamento formatado em moldes que menorizam o pensamento abstrato. Não se tratando de alunos de uma licenciatura em Matemática, maior é a renitência para a aceitação de aspetos teóricos ou conceitos mais abstratos da Matemática.

Utilidades e necessidades à parte, por mais fantástico que seja um resultado em si, reside frequentemente na explanação das ideias em torno da sua prova uma beleza que muitas vezes só encontra paralelo na arte.

Longe de mim querer comparar o meu sorriso ao da Julia Roberts — perdoem-me se vislumbram em mim tal heresia! —, mas ocorre-me a propósito destas considerações uma associação com o filme «O Sorriso de Mona Lisa», no qual Julia Roberts desempenha o papel de uma professora de arte numa universidade americana nos anos 50 do século passado. Não sendo eu um especialista em cinema que possa basear as minhas opiniões em padrões de grande erudição cinematográfica, os filmes quase sempre me fascinam por pequenos detalhes. Um diálogo, uma sequência de imagens, uma trilha sonora ou um bom desempenho verbal ou corporal — especialmente feminino — são os aspetos que frequentemente me fazem reter um filme na lembrança. 

No caso específico de «O Sorriso de Mona Lisa», há vários pontos de interesse: os questionamentos sobre o que se pode considerar ou não arte, sobre o que é ou não boa arte ou até mesmo sobre o sentido da formação universitária na vida de uma mulher naquela época. Marcou-me especialmente um pequeno diálogo entre a professora e as suas alunas, quando estas foram apresentadas a uma enorme tela de Jackson Pollock:
— Por favor, não me diga que temos que escrever uma redação sobre isso, — diz com desdém uma das alunas, transmitindo o que parecia ser uma opinião generalizada. Ao que a professora contrapôs:
— Façam-me um favor. Aliás, façam um favor a vocês mesmas: parem de falar e olhem! Não é exigido que escrevam uma redação. Nem tão pouco é exigido que gostem dele. O que é exigido é que o considerem!

Aí mesmo reside um dos pontos importantes de tudo isto. Independentemente do gosto, da necessidade ou da utilidade que possam ter, há certas e determinadas coisas que, em algum momento da nossa formação, deveríamos ser levados a considerar.

Eu mesmo, só muito tardiamente fui levado a considerar as pinturas de Jackson Pollock. Tardei, mas felizmente cheguei a um dos pintores que hoje em dia mais me apraz. A tal ponto de, na minha última visita a Nova Iorque, ter gasto parte significativa das minhas quatro ou cinco horas no MoMA a considerar várias telas de Pollock. E cheguei até ele por linhas muito travessas. Especificamente, através de um trabalho de Richard Taylor, físico australiano, no qual é estudado a evolução da dimensão fractal das pinturas na fase gotejada de Pollock, deixando em evidência a crescente complexidade no emaranhado dos seus traços. Grandes reflexões surgiram na época sobre a intencionalidade dessa crescente complexidade. Em particular, uma associação com a Teoria do Caos, que na época debutava como teoria matemática, levou a revista Time a publicar uma matéria sobre o trabalho de Pollock intitulada «Chaos, damn it!». Curiosamente, esse mesmo Caos que hoje em dia é frequentemente utilizado como chamariz para diversas exposições matemáticas, foi na época utilizado de forma bastante pejorativa. Ao ponto de Pollock ter publicado na mesma revista uma resposta sob o título «No Chaos, damn it!».

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Imaginação e sensibilidade


«Nas mulheres, a imaginação e 
a sensibilidade sobrelevam a lógica»
Marie de Vichy-Chambord

Diálogo entre duas amigas num fim de tarde em frente ao mar:
— que bom estar aqui
— e ter um homem em casa
— que vai buscar as crianças ao infantário
— e dá-lhes banho
— e a sopinha
— e deita-as para dormir
— e prepara um bom jantar
— e um banho de sais com espuma
— e dá-me banho
— e comemos
— e volta a dar-me banho

«Outro banho?!», pensa a amiga com ar de intrigada. Diz «ah, sim!» e prossegue:
— e jantamos
— e arruma a cozinha
— e chama-me para dançar Cheek to Cheek
— e recita a Elegia XIX de John Donne
— e massageia-me antes de dormir
— e acorda mais cedo
— e prepara o pequeno-almoço
— com crepes caseiros e sumo de laranja espremida
— e leva o pequeno-almoço à cama
— e acorda-me com um beijo
— e desperta as crianças
— e dá-lhes banho
— e o pequeno-almoço
— e leva-as para a escola

Ficam alguns segundos em silêncio.
— o teu homem é assim?
— não, e o teu?
— também não
— achas que há algum homem assim?
— acho que não
— pois...
— está na hora de irmos buscar as crianças!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O amor à porta

A interdição de fumar em bares e restaurantes foi interpretada pelo Matias, que fuma, como uma excelente oportunidade para as suas investidas de homem faminto. Por força das circunstâncias, rapidamente descobriu que a porta de alguns bares e restaurantes tinha passado a ser o local mais apropriado para a prospeção de comida.

Foi assim que conheceu a Lurdinhas. Antes ainda do Matias se ter levantado para ir à porta fumar — depois que a viu a Lurdinhas fazer o mesmo —, já os olhares deles se tinham cruzado dentro do restaurante. Inevitavelmente, também as palavras se cruzaram à porta do restaurante. Fluíram de tal forma que o Matias e a Lurdinhas acabaram por fumar vários cigarros de uma assentada antes de retornarem às respetivas mesas. E no telemóvel de cada um veio já registado o contacto telefónico do outro e fotos tiradas para anexarem aos contactos.

Além do vício comum pelo tabaco, nessa mesma noite começaram a desenvolver o vício um pelo outro. Três dias depois — praticamente dois, se levarmos em conta que as primeiras palavras foram trocadas à porta do restaurante já perto da meia-noite— já estavam a morar juntos. A química da nicotina fez disparar a química do amor. Um caso flagrante de amor à primeira vista — ignorando o detalhe dos olhares do Matias e da Lurdinhas já se terem cruzado no interior do restaurante, claro está.

Nove meses depois nasceram gémeos. Um menino e uma menina. Nicolau e Albertina. Nico e Tina, mais carinhosamente. Asseguram que os nomes surgiram de forma natural — tão natural como o amor instantâneo que os uniu — como consequência de gostos surpreendentemente coincidentes, mas há quem note nas escolhas implícita homenagem à substância viciante que os aproximou.

Um mínimo de respeito pelo Nico e pela Tina fez com que, após os nascimento, o Matias e a Lurdinhas tivessem deixado de fumar dentro de casa. Passaram a fumar à porta do prédio. Ou, quando achavam que ouvir os impropérios do vizinho de cima era menos incómodo do que ter que descer até à porta do prédio, fumavam à janela.

Moral da história: esta história não tem moral nenhuma! Chega a ser um péssimo exemplo para os mais jovens, pois deixa em evidência vantagens sentimentais provenientes do vício do tabaco, menciona — ainda que ao de leve — caso de dependência humana e, como se isso não bastasse, ainda descreve — sem qualquer tipo de censura — situação comportamental que dá origem a má convivência entre vizinhos!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Oportunidades oportunísticas

O atual primeiro-ministro português disse há uns meses que o desemprego podia constituir uma excelente oportunidade para mudar de vida. E pode. Só não deixou claro se considerava a oportunidade excelente para aqueles que caíam no desemprego. Desconfio que não.

O facto não é novo. Os abutres, por exemplo, vêem numa carcaça uma excelente oportunidade para algo tão básico como a sua própria sobrevivência. Também os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001 constituíram uma excelente oportunidade para as entidades responsáveis pela gestão de aeroportos aumentarem de forma absurda as taxas aeroportuárias. Supostamente, por causa dos encargos inerentes a regras de segurança mais apertada.

Teoricamente aceitável. Quanto à prática, talvez eu não esteja a ver bem o problema — é até bastante provável que tenha uma mente demasiado maquiavélica—, mas sempre que transito em aeroportos fico com a sensação de que as tais regras de segurança mais apertadas são muito incómodas — e onerosas — para passageiros inofensivos e continuam a ser facilmente contornáveis por sujeitos mal intencionados.

Ora vejamos. Após o 11 de setembro ficou interditado o transporte na bagagem de mão de objetos que possam constituir ameaça à integridade física da tripulação. Em particular, canivetes, tesouras, corta-unhas e limas estão liminarmente proibidos. Contudo, apesar de uma garrafa de vidro bem quebrada e segura pelo gargalo poder constituir uma arma mais eficiente do qualquer uma das armas brancas que eu acabei de citar, elas continuam a ser vendidas em qualquer aeroporto que se preze. Sim, eu sei que o negócio das bebidas e perfumes em aeroportos é muito rentável e não deve ser afetado. Deve-se zelar pela segurança, mas sem prejudicar a atividade económica!

Nestas questões de controle aeroportuário, assim como em qualquer sistema de regras muito restritivas, dependendo da rigidez de quem controla, podem facilmente surgir situações absurdas. Uma das que presenciei foi no aeroporto de Lisboa, no rastreio da bagagem de mão para um embarque rumo ao Porto. Passou-se em meados da década passada, portanto, já uns anos depois do traumático — especialmente para os noviorquinos — 11 de setembro. Uns metros à minha frente, uma senhora mostrava-se indignada com um segurança totalmente inflexível: a senhora não podia embarcar com um pequeno pote — talvez acima dos 100ml permitidos para líquidos — de creme das mãos. Não bastava à senhora que aquilo fosse considerado líquido perigoso como, dizia ela, «venho de Nova Iorque e lá ninguém implicou com isto!»

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

P C de A a Z

Aldrabão
Batoteiro
Covarde
Demagogo
Enganador
Falso
Galãzinho
Hipócrita
Incompetente
Jotinha
Logro
Mentiroso
Néscio
Oportunista
Pérfido
Quadradinho
Rasca
Sonso
Teimoso
Usurpador
Vaidoso
Xacoco
Zero

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Três príncipes tristes

Durante a semana passada estive na província espanhola que dá nome ao título do príncipe herdeiro da coroa real — as Astúrias. Apesar de lá, como cá, a crise e as medidas de austeridade estarem na ordem do dia, grande destaque noticioso nos média espanhóis estava a ser dado ao nosso príncipe. Não, não estou aqui como português em estado de orfandade monárquica ansiando por uma coroa, num assomo de patriotismo transibérico, a referir-me ao Príncipe das Astúrias. Refiro-me, isso sim, ao Príncipe de Madrid, aquele que vende os pontapés que dá numa bola a peso de ouro e anda triste. Serviu a tristeza do Príncipe de Madrid para que amigos espanhóis, num momento de alguma erudição literária e bom humor, me tivessem dado a conhecer (parte de) um poema de Rubén Darío:
«La princesa está triste..., ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
Que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro».
Na viagem de volta ao Porto, já em território nacional, tive a oportunidade de seguir, via rádio, o discurso de outro príncipe português: o de Massamá. Esse discurso — horas mais tarde complementado com umas notas tristes na sua página do Facebook — provocou-me também uma associação literária: «O Príncipe Sapo», dos irmãos Grimm. Não duvido nada que, volvido pouco mais de um ano sobre a eleição do aperaltado e bem-falante Príncipe de Massamá, muitos dos seus eleitores o vejam agora como uma espécie de personagem dos irmãos Grimm, mas evoluindo ao contrário: se no famoso conto de fadas é o sapo que se transforma príncipe, neste nosso triste conto de fadas — ou de fados, quem sabe, talvez até com as vogais trocadas — é o Príncipe de Massamá que se transforma em sapo.

Num pequeno aparte, o meu pedido de desculpas a todos os sapos por esta infame associação, pois não vi até hoje na literatura científica nenhum relato sobre a existência de sapo aldrabão, prepotente ou cínico.

Voltando ao conto dos irmãos Grimm. Tanto quanto sei, a versão atual está um pouco polida em relação à original. Na versão original o sapo não se transformava em príncipe quando a princesa lhe dava um beijo, mas sim quando o atirava contra uma parede. Penso que no caso do Príncipe de Massamá, e para que se dê sequência ao triste conto de fadas ao contrário, é chegada a hora dos seus eleitores o atirarem contra alguma parede para que ele encarne na sua condição de sapo. E, para que de futuro não tenhamos que engolir muitos sapos, que se guarde como lição deste conto de fadas ao contrário, que por debaixo de um príncipe de falas mansas, sorrisos simpáticos e cabelos bem pinteados pode estar um tremendo sapo.

Nestas minhas alusões a príncipes, ilusões e tristezas do Portugal contemporâneo, não podia deixar de fazer uma breve referência ao Príncipe de Paris. Aquele que, após seis anos nos quais nos enredou em complexas teias de engenharia civil e financeira, resolveu recolher-se para estudos filosóficos em Paris. Tem estado adormecido, mas imagino que também esteja triste. E já que o momento é de associações literárias, o que me ocorre quando penso no Príncipe de Paris é «A Bela Adormecida Vai à Escola», de Torrente Ballester.