quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Alexandre, o grande, e a geleia de abóbora

Escreveu um dia Fernando Pessoa que «para ser grande sê inteiro». E acrescentou — meio em jeito de explicação — que «nada teu exagera ou exclui». É provavelmente para fazer jus a essa sentença pessoana de grandeza que o Alexandre do Pingo Doce não receia mostrar todas as suas facetas: tanto aparece num discurso moralista dizendo, entre outras coisas, «que se tem vindo a perder a noção de ética e do comportamento social responsável» como, poucos meses depois, manda o  «comportamento social responsável» às laranjas e coloca o grupo Jerónimo Martins  — detentor dos supermercados Pingo Doce — com sede fiscal num lugar onde a contribuição social para resolver a crise que nos escalpa será bem menos contributiva.

Perante a traição à pátria perpetrada pelo Alexandre que dirige o Jerónimo Martins  — que por vezes eu confundo com o líder do PCP  —, não tardou a surgir uma onda de indignação em redes sociais e caixas de comentários de blogs e jornais, com juras do tipo «não compro mais no Pingo Doce».  Eu próprio cheguei a pensar aderir a essa onda e boicotar o Pingo Doce. A primera coisa que me freou um pouco o ímpeto foi não ter descortinado nos supermercados que tenho por perto algum — único que seja — que tenha a sede fiscal em Portugal: Froiz (Espanha), Intermarché (França), Jumbo (França), Lidl (Alemanha), Minipreço (França) e Modelo Continente (Holanda), todos com sede fiscal a léguas. E outros não tenho por perto.

Mesmo consciente da falta de alternativas, cheguei a pensar aderir ao boicote. Afinal, há já muito tempo que perdi a ilusão de querer ser sempre justo na minhas escolhas e não seria uma certa dose de falta de critério justo numa mera escolha de supermercado que pioraria muito a já assumida carência de ilusão. Além do mais, a hora é de luta e o grupo do Alexandre é o único que deserta na hora em que os ladrões eleitos, em nome da crise, mais me entram no bolso.

Mas o que realmente me demoveu da intenção de boicotar o Pingo Doce foi uma geleia de abóbora. Sim, lá no Pingo Doce há uma geleia de abóbora — não me lembro da marca, mas mesmo que me lembrasse não diria, pois publicidade aqui só paga — que combina na perfeição com o pão matinal produzido pela minha panificadora doméstica. Enquanto não encontrar noutro supermercado geleia de abóbora tão saborosa como aquela, poderei até prometer não comprar outros produtos no Pingo Doce, mas a geleia de abóbora nunca deixarei de comprar.

E por causa dessa geleia de abóbora não jurei uma postura radical de boicote ao Pingo Doce, em sintonia com um «comportamento social responsável» e interventivo contra traidores da pátria. Admito que ultimamente o meu coeficiente de patriotismo também tem andado um pouco por baixo.

7 comentários:

  1. E fazes muito bem, não há nada que pague uma boa geleia de abóbora ;) Também gosto muito de comer geleia ao pequeno-almoço. E mel. Há quem diga que é doçaria a mais, mas, por outro lado, evito fiambres e seus derivados, o que combina com a minha postura de comer o menos carne possível. E nunca notei que esses pequenos-almoços doces me engordassem.

    Já agora: compras a mistura pronta da massa para fazer o teu pão, ou tens receita própria?

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  2. Caro Exilado,
    fazer geleia de abóbora é mt fácil:quantidades deixo a tua discrição " fifty-fifty"
    --- abóbora picada, açúcar, raspas de 1 laranja e sumo de 1/2 laranja para aromatizar, tudo a fumegar no tacho e voilá!
    Porque não au naturel?

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  3. Cristina: eu no pequeno almoço tanto posso ir para os doces como para os salgados. Depende da vontade momentânea. Quanto ao pão, agora tenho comprado a farinha já pronta, mas já fiz segundo a receita do livro de instruções da máquina e ficava muito boa. O problema é que obriga a juntar fermento de padeiro e nem todos os supermercados o têm.

    "a preferida do piotr": obrigado pela receita! Um destes dias experimento.

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  4. Estou com uma séria dificuldade em perceber quem são os reais "traidores da pátria", se são os eleitos ou estes a quem se armou uma luta de palavras esquecendo-se que não são os únicos a abandonar o navio!

    Já provei algumas das geleias do PD de abóbora, e não só, mas nada supera uma magnífica receita caseira a que se lhe junta nozes ou amêndoas laminadas (a gosto, claro!).
    Bom domingo e boa semana de trabalho, ou de descanso :)

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    1. Aceito, de bom grado, a receita! :)
      Bom Ano!

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  5. só hoje li este post e estou solidária com a decisão... posso deixar de comprar tudo no PD mas o doce (doce e não geleia...)de abóbora é insubstituível! E até já tentei faze-lo em casa, mas não é a mesma coisa!!!

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    1. A influência brasileira em mim é terrível! :)

      É verdade, rigorosamente não é o que em Portugal se denomina de geleia. Talvez compota seja até o termo mais adequado.

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