quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O pastel de Belém e a cavaca

Há dias, revia algumas fotos de uma das minhas três visitas de quinze dias à China. Detive-me a olhar uma que tirei a um painel publicitário da KFC, multinacional norte-americana especialista em sobreasas de frango fritas. Curiosamente, no painel publicitário não era apresentada nenhuma imagem desse produto que notabiliza a KFC — a sobreasa de frango frita —, mas, pasme-se!, o pastel de nata — ou de Belém, como preferir.

Inevitavelmente, o meu pensamento foi, de imediato, conduzido até ao Álvaro. Esse que carrega, que nem cruz, uma das pastas ministeriais mais pesadas em tempos de crise: a de Ministro da Economia. Quando Portugal era um país aproximadamente rico, bastava estimular — financeiramente, claro — a produção em série de uns Magalhães ou umas atividades culturais no Allgarve e a coisa fluía. Agora que não temos dinheiro para mandar cantar um cego, exige-se de um Ministro da Economia maior visão, mais rasgo, enfim, melhores ideias. Em particular, ideias que não exijam ao Estado grandes investimentos financeiros.

Na minha atividade profissional como matemático puro — a pureza refere-se à especificidade da Matemática que produzo, não a mim. Longe disso! — conheço muito bem a dificuldade de comunicar uma grande ideia em abstrato. Por isso, ao contrário dos maledicentes que não conseguiram enxergar a grandiosidade da ideia do Álvaro e se quedaram pela malsucedida concretização no pastel de nata, eu tive a generosidade de ir mais longe. O ponto importante não é o exemplo específico com o qual ilustrou a sua brilhante ideia, mas a generalidade: a doçaria portuguesa. Alguém irá negar que temos uma doçaria de fazer água na boca a muito boa gente por esse mundo fora? E se queremos realmente muita gente, não podemos deixar de fora o mercado chinês. E se queremos conquistar o mercado chinês, não podemos querer conquistá-lo com o pastel de Belém, pois a KFC chegou lá antes.

Foi neste ponto que dei por mim a tentar descobrir, dentre os nossos doces, aquele que melhor combinará com essa enorme legião de potenciais consumidores asiáticos. Nas minhas estadias de três quinze dias em território chinês apercebi-me de que eles não são muito chegados a produtos lácteos — estará a KFC a ter sucesso com o pastel de nata? — nem a ovos frescos — os melhores ovos que por lá comi tinham sido deixados a apodrecer durante dois ou três meses. Dessa forma, iguarias como baba de camelo, barrigas de freira, ovos-moles, papos de anjo ou pudim abade de Priscos não são boas apostas. 

Doces nacionais parcos em ovos ou produtos lácteos são muito raros. Mas alguns existem. Um dos primeiros que me veio à ideia foi a cavaca. Já que a KFC nos retirou margem de manobra para o sucesso com a exportação do pastel de Belém para o mercado chinês, que tal apostarmos na exportação da cavaca?

7 comentários:

  1. Meu caro sou a favor da exportação imediato do Cavaco. Serve? Resta é saber se alguem nos dá dinheiro por ele...!! Mas a propósito de iniciativas há anos pensei num fast food português : Chamar-se-ia PANCALHAU e o prato principal seriam as pataniscas de bacalhau, logo seguidas dos peixinhos da horta. Isto tudo em cartucho de papel de jornal como as castanhas de antigamente.

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    1. Os mecanismos do pensamento humano são muito interessantes: como pode um texto, que fala de iguarias como o pastel de Belém e a cavaca, ter levado alguém a pensar nesse tal Cavaco? :)

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  2. Eu já tinha visto, num programa televisivo aqui, na Alemanha, que os pasteis de nata eram muito conhecidos na China. Referi isso num comentário, penso que foi no 2711, quando se falou na ideia do Ministro Álvaro (que, afinal, não tem nada de original). Já não me lembrava que se vendiam na KFC, apesar de saber que era em restaurantes de "fast-food". Salvo erro, chamam-lhe "portuguese custards" e penso que chegaram ao seu conhecimento através de Macau. Revelaram-se um sucesso económico. Só que não pagam direitos de autor...

    As cavacas, sim senhor, podiam ter êxito. Há, na Alemanha, uns doces parecidos, têm é mais massa por dentro. Mas também são assim chatos e com cobertura tipo "glacé". Chamam-lhes "Amerikaner" (vá-se lá saber porquê).

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    1. Obrigado por algumas informações que desconhecia. Tirei esta foto há cerca de três anos, por mera curiosidade, mas nunca me dediquei muito ao assunto. Descobri um post interessante onde há alguma informação (credível?) sobre a facturação:
      http://belemlivre.blogspot.com/2012/01/viva-o-pastel-de-nata-com-canela.html

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  3. Obrigada pelo link. Afinal, foi a partir de Hong Kong, por via inglesa. Eu vi o tal programa já há bastante tempo e não me lembrava desse pormenor. E fiquei com o nome "portuguese custards" na cabeça. Bem, pelo menos, este nome ainda referia a origem do doce, mas "egg tart stow" nem isso!
    Enfim, lá se foi a bela ideia do Álvaro... Pode ser que ele leia o teu blogue e tente com as cavacas ;)

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  4. Isto faz-me lembrar uma pequena mercearia que visitei em Paris há mais de vinte anos, propriedade de um emigrante português, que vendia desde o bacalhau ao vinho tinto, passando pelas hortaliças, enchidos e azeite, até alguns doces. Tudo português, fresco e de boa qualidade. Para isso vinha cá ele todas as semanas, às vezes mais que uma vez, abastecer-se. Na altura, o homem tinha sucesso com o seu pequeno negócio, porque a melhor publicidade que existe, que é a "boca-a-boca" (salvo seja), funcionava eficazmente entre a vasta comunidade portuguesa radicada na cidade luz. Mais: os próprios franceses que, por acaso ou através de amigos lusitanos, iam tomando conhecimento da pequena e atravancada loja, também contribuíam significativamente para que o negócio corresse de vento em popa.

    http://o-estado-a-que-chegamos.blogspot.com/2012/03/proposito-da-exportacao-do-pastel-de.html

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    1. O grande problema não está em termos o que exportar. O grande problema está na falta de visão estratégica de quem tem o comando.

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