quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um novo santo

O senhor Armindo esperava o padre à saída da sacristia após a missa matinal.
— Senhor Padre, posso dar-lhe uma palavrinha?
— Pode sim, senhor Armindo. Diga lá.
— Hoje Deus falou comigo.
— Muito bem, senhor Armindo. Prestemos sempre atenção à voz de Deus.
— Não, senhor Padre, hoje foi diferente. 
— Como assim, senhor Armindo?
— Deus apareceu-me num sonho.
— Ai sim? E que lhe disse Deus, senhor Armindo?
— Disse-me que eu sou santo.
O padre esboçou um ligeiro sorriso.
— Foi só um sonho, senhor Armindo, não dê muita importância a isso.
— Diga-me uma coisa, senhor Padre: há algum Santo Armindo?
— Assim, de repente, não estou a ver.
— Pois!
— Pois o quê, senhor Armindo?
— Deus já arranjou santos para quase todos os nomes, mas ainda falta o meu.
— Senhor Armindo, a santidade não vem por aí. Vá à sua vida, vá.
Contrafeito, o senhor Armindo lá foi.

No dia seguinte, o senhor Armindo voltou a esperar o padre à saída da sacristia após a missa matinal. Agora acompanhado da mulher.
— Por aqui de novo, senhor Armindo?
— Deus voltou a falar comigo, senhor Padre.
— De novo em sonho?
— Sim, senhor Padre.
— E que lhe disse desta vez?
— O mesmo de ontem: que eu sou santo.
Neste momento, a mulher do senhor Armindo resolve dar o seu testemunho:
— É, senhor Padre, eu acordei com o meu Armindo a falar com Deus.
— E como sabe a senhora que ele estava a falar com Deus? — pergunta o padre.
— O meu Armindo disse-me, senhor Padre. E ele nunca mente.
— Meus caros, não é assim. Para a santidade a Igreja exige um milagre! Vão à vossa vida, vão.
Contrafeitos, o senhor Armindo e a mulher lá foram.

Ao terceiro dia, esperavam o padre o senhor Armindo, a mulher e um grupo de vizinhos da aldeia. O padre entendeu que a coisa estava a ficar séria.
— O senhor Armindo vai-me dizer que Deus voltou a aparecer-lhe num sonho?
— Adivinhou, senhor Padre!
— E voltou a dizer-lhe que o senhor é santo?
— Ora, nem mais!
— Diga-me lá de uma vez por todas: o que pretende com isto, senhor Armindo?
— Pouca coisa, senhor Padre: apenas uma estatuazinha em algum canto da igreja e que passe a dizer o meu nome na ladainha dos santos.
— E uma romaria em honra de Santo Armindo — diz uma voz lá de trás.
— Apoiado! — acrescenta outra voz.
— Valorizemos o santo da terra! — reclama uma terceira voz.
— Amém — dizem todos em coro.
— Caríssimos, vou ter que falar com o bispo — acrescenta o Padre. E prossegue: — Mas fiquem sabendo que não há canonização sem evidência de um milagre.
— É bom que mudem isso, porque o Armindo enjoa — replica uma voz lá de trás.
— Enjoa? — pergunta o padre.
— Sim. E por isso nunca viaja — responde a mesma voz.
— E que tem isso a ver com o caso? — pergunta o padre admirado.
— Santos da casa não fazem milagres...

5 comentários:

  1. O enjoo como impeditivo de ser canonizado... Desta nunca eu tinha ouvido falar :D

    Há um selinho para ti no meu blogue, brincadeiras da blogosfera, com que me vejo, pela primeira vez, a braços. Podes ir buscá-lo e pô-lo aqui, embora eu não saiba onde o irás colocar, neste "visual"...

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    1. Sinto-me honrado pela distinção!... Obrigado. Mas neste formato tão travadinho fica difícil incluir extras... Será que vou ser punido pelo não prosseguimento da corrente? :)

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