quarta-feira, 14 de março de 2012

Pequenos gestos

Tenho um amigo (Renato, nome fictício) que visitou o Japão (nome não fictício). Durante essa visita foi ciceroneado por uma jovem japonesa (Yuki, creio que o nome é fictício) que o acompanhou para todo lado — onde a presença da jovem fosse recomendável. À entrada (ou saída, tanto faz) de um restaurante, o Renato franqueou a porta para que a Yuki passasse. Apesar da cavalheiresca insistência do Renato, a Yuki recusou-se terminantemente a passar antes do cavalheiro. O relativismo cultural é algo muito complicado na vida de um viajante.

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Tenho uma amiga (Marcela, nome fictício) que visitou a França (nome não fictício). À entrada de uma loja, um cavalheiro francês (Maxime, nome provavelmente fictício) franqueou a porta para que a Marcela passasse. A Marcela já tinha avançado alguns metros dentro da loja quando sentiu a mão do Maxime tocar-lhe o ombro. Virou-se. E escutou do Maxime, num tom de simultâneo ensinamento e reprimenda, um claro «merci». Por distração (ou falta de à-vontade para raspar o r na garganta) a Marcela não tinha agradecido a gentileza com o devido «merci». E o pseudo-gentil Maxime fez questão de lembrá-la disso. Noblesse oblige.

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Eu mesmo (Josué, nome ligeiramente fictício) visitei a Bulgária (nome não fictício) num tempo em que o sistema comunista já definhava. Dada a escassez e baixo preço dos bens, pela primeira vez na vida o pobre Josué poderia ter-se sentido (mas não sentiu) exageradamente endinheirado. Excetuando as belas e elegantes garotas búlgaras, o Josué comprava tudo que lhe agradava. Numa barraca de artesanato, por gestos, tentava fazer com que um ancião entendesse o produto (exposto por detrás de si) que o Josué pretendia comprar. O diálogo gestual não estava fácil. Em dado momento, o ancião soltou uns impropérios (julga o Josué) e encerrou a barraca. Mais tarde o Josué veio a saber que, na Bulgária, em termos de cabeça meneada, «sim» e «não» são gestos opostos aos da Europa Ocidental.

6 comentários:

  1. Situações dessas podem mesmo gerar mal-entendidos e olhares suspeitos. Principalmente, em terras asiáticas, as diferenças são grandes. Mas aqui na Europa, como mostraste, também. Ainda a França: sempre me perguntei porque é que as pessoas olhavam para mim um pouco perplexas, quando eu chegava a algum sítio e dizia "Bonjour" e só me respondiam passado uns segundos. Vim agora a saber que "Bonjour" não chega, diz-se sempre: "Bonjour, monsieur", ou "Bonjour, madame", conforme o caso.

    Quando se anda numa qualquer loja ou supermercado cheio de gente, é normal que, ao passar nalgum sítio mais apertado, toquemos de raspão em alguém. Se for só mesmo um raspãozinho, passa despercebido em Portugal e na Alemanha. Mas não na Inglaterra! A seguir a qualquer toquezinho, por mais subtil que seja, deve vir logo um "sorry". Estamos sempre a ouvir "sorrys" à nossa volta.

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    1. Pois é, Cristina, em certas culturas a delicadeza vira obsessão. Os franceses, então... Nem 8 nem 80 :)

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  2. Bem, a Marcela é claramente mal-educada.

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    1. Talvez apenas desatenta... :) Mas o que achei mais interessante foi a atitude hostil do cavalheiro por não ver retribuída a gentileza. Afinal, não era tão gentil.

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  3. Pois é, a nossa educação diz-nos que deve ser "assim", mas noutros locais ensina "assado"
    E porque gostei do post, agradeço pela partilha - Noblesse oblige, non? :)

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    1. Obrigado por ter gostado e, já agora, por ter agradecido. Mas mesmo que não agradecesse, eu não lhe faria nenhuma advertência! :)

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