quarta-feira, 4 de abril de 2012

Intervenção divina

O casal debatia-se acesamente na cama, numa peleja simultaneamente oral e corporal:
— Jesus!
— Jesuus!
— Jesuuus!
— Jesuuuus!
...

Já oralmente soltavam para cima de uma vintena de u's e corporalmente se contorciam em alfabetos completos, quando um enorme clarão invadiu o quarto. Não fosse tão profunda a compenetração de ambos e nesse momento podiam ter visto materializar-se na frente da cama aquela figura de olho claro, olhar sereno, barba e cabelo comprido, perguntando:
— Chamaram?
Quando se aperceberam da inesperada presença divina, pararam com tudo o que estavam a fazer. Subitamente, o rubor do cansaço deu lugar ao rubor da vergonha. E, não tendo a possibilidade de cumprirem o ritual bíblico de cobrir as zonas mais pecaminosas com folhas de videira, trataram de cobri-las mesmo com o lençol. Ela ainda tentou tapar a cara com as mãos e os seios com os cotovelos. Com cara de incrédulo e voz trémula ele exclamou:
— Jesus?!
— Eu mesmo!
— Apareces assim, enquanto nós...
— Apareço quando me invocam! Não me invocaram?
— Sim, mas...
— Precisam de ajuda?
— Não! Nisto somos autossuficientes...
— Então por que me chamaram?
— Era apenas força de expressão...
— Pois então, da próxima vez, mais cuidado com a força das expressões!
— Nunca nos tinha acontecido.
— Pois não. Mas com a atual crise de fieis resolvemos voltar a ter uma postura mais interventiva.
— Como assim?
— Sempre que possível, iremos aparecer quando nos invocarem.
— Não fazíamos ideia...
— Acabam de ativar o serviço. 
— Serviço? Qual serviço?!
— O serviço de intervenção divina, ora!
— Mas nós não precisamos de intervenção nenhuma!

Jesus nada acrescentou. Sacou de um pequeno bloco de apontamentos de dentro das suas vestes e começou a tirar algumas notas. Dirigiu-se novamente a ele:
— Preciso de saber se são praticantes.
— Praticantes de quê?
— Da fé cristã, naturalmente.
— Ah, sim! Sempre que possível...
— Têm os sacramentos todos em dia?
— Todos. Até o casamento!
— Um com o outro?
— Claro!
— Assim sendo, e dado que não precisam da intervenção, pagam apenas a deslocação.
— Como?!
— São 25 euros.
— Ahn?
— Por pessoa.
— ...
Cash.

 



8 comentários:

  1. É a crise... Humor acutilante, gostei!

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    1. Obrigado, Isa. Pode até parecer humor, mas olhe que isto aconteceu mesmo. Cuidado com a força das expressões! :)

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    2. Isso não posso divulgar... Lamento.

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    3. Fiquei curiosa!!
      Sílvia

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  2. ninguém diria, um Jesus com olhos de docinho de côco, que se me aterrasse aos pés da cama eu nem sei o que fazia e depois só pensa em dinheiro. Está tudo pela hora da morte.Até os Cristos. Caramba!

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