Two people playing the game
Negotiations and love songs
Are often mistaken for one and the same»
Paul Simon
Conseguiram viver juntos durante cerca de três anos, o último dos quais com grande desgaste para a relação. Quando ambos sentiram que já estavam a produzir mais ruído e silêncio do que diálogo, num último assomo de sintonia, concordaram pôr cobro à contenda.
Como nenhum dos dois se mostrou disposto a permanecer no apartamento que juntos tinham escolhido para morar, cada um tratou de encontrar o seu novo lugar. Aquele apartamento seria devolvido ao senhorio no domingo seguinte. E, para que pudessem viver a dor da partida sem muita amplificação externa, acertaram um esquema de dias alternados para retirarem os seus pertences do apartamento: ela na segunda, quarta e sexta, ele na terça, quinta e sábado. Pequenas dúvidas seriam esclarecidas por SMS. Preferencialmente.
Na terça, ele enviou-lhe uma SMS:
«Levaste o Simon & Garfunkel no Central Park. Devolve, pf»
Ela respondeu:
«Compra outro»
Comprar outro não era problema. O problema é que aquele tinha sido autografado pelo próprio Art Garfunkel, após um concerto a que tinham ido juntos em Nova Iorque. Ele argumentou:
«Esse está autografado... E tu nem gostavas deles!»
Ao que ela contrapôs:
«Pois agora gosto muito! E lembras-te que fui eu a pagar esse CD?»
Lembrava, de facto. Desafortunadamente, dessa vez tinha sido ela a pagar o CD. Não lhe parecia um argumento de peso, mas também não encontrou nenhum melhor para desequilibrar a disputa a seu favor. Restava-lhe a esperança de que ela enfiasse a mão na consciência e acabasse por mudar de ideias — algo muito pouco provável, pelo que conhecia dela.
Na quinta ele acabou por comprovar o que já era por si esperado: ela não devolveu o Simon & Garfunkel no Central Park. Sentiu o coração destroçado. Duas separações em simultâneo eram carga negativa a mais para o seu pobre coração.
Durante dois dias não comunicou com ela. No sábado, mandou uma nova SMS:
«Tenho sentido muito a tua falta... Talvez devêssemos dar-nos uma nova oportunidade»
Ela vacilou na resposta:
«Não sei...»
Ainda que ténue, ele sentiu renascer a esperança. Iria investir tudo o que pudesse nessa possibilidade! Talvez ainda conseguisse reaver aquele precioso Simon & Garfunkel no Central Park...

Parece história, mas não é.... conheço pessoas para quem uma dupla separação seria assim...
ResponderEliminar"Um olhar crítico sobre a realidade, assente numa visão relativamente tendenciosa e numa mente algo imaginativa" era a descrição deste blogue... :)
EliminarPois... separações, esperança, reviver e renascer...
ResponderEliminarHistórias trazidas do exílio ou da realidade.
Todos vivemos exilados em alguma realidade ;)
EliminarHá coisas que custam a largar...
ResponderEliminar... e esse disco, então! :)
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