quarta-feira, 16 de maio de 2012

Espírito missionário

O Francisco olhou o bilhete, olhou a inscrição por cima do assento, olhou novamente o bilhete e sentou-se no lugar que lhe estava reservado. Com indisfarçável satisfação. Desta vez tinha-lhe tocado em sorte uma companheira de viagem com excelentes atributos físicos. Ainda antes do comboio ter seguido marcha já o Francisco lhe tinha tirado as medidas, sentido a fragrância e apreciado a tez sedosa e morena.

Enquanto executou — de forma subtil, mas não totalmente discreta — esse rastreamento interpessoal, ela permaneceu imóvel. Com óculos escuros e olhando na direção da janela, pareceu ao Francisco que ela tinha o olhar preso em algum ponto do infinito. Talvez dormisse. Não: entre o aro dos óculos e o rosto dela, o Francisco pôde notar um olho a pestanejar.

A forma ligeiramente descuidada de vestir — que nem por isso a fazia pouco sedutora —, o cabelo mal amanhado, o olhar sempre fixo e distante, pareceram ao Francisco sinais inequívocos de alguma tristeza. Dado que ela mantinha as mãos entrelaçadas no regaço, o Francisco não pôde observar os seus dedos de forma totalmente esclarecedora, mas pareceu-lhe mesmo ver no dedo anelar dela uma marca mais clara de alguma aliança recentemente retirada. A marca de uma separação, pensou ele. Talvez carregue ainda a dor profunda de um namoro mais sério, de um noivado ou até mesmo de um casamento que acaba de romper-se, pensou o Francisco.

O Francisco sentou-se naquele lugar com doses de confiança e de espiritualidade mais do que suficientes para rapidamente entabular uma conversa cativante com a sua ocasional companheira de viagem, mas à medida que foi notando nela sinais de tristeza foi também perdendo o seu elã. Uma hora depois o Francisco abandonou o seu lugar no comboio e desceu para a plataforma sem que ela tivesse removido o olhar do tal ponto algures no infinito nem ele lhe tivesse dirigido uma só palavra.

Censurou-se por não ter sequer tentado dar-lhe algum conforto. Despretensioso, claro está. Num mundo de tanta impessoalidade, de tanta solidão, talvez aquela jovem mulher precisasse de uma palavra reconfortante ou até mesmo de um novo olhar de esperança sobre o futuro, pensou o Francisco. Num mundo onde tanta gente — especialmente idosa — sofre por falta de um mínimo de atenção, louve-se o espírito missionário que nesse momento pareceu despontar no Francisco — esta parte não pensou ele. 

Já na plataforma, ele parou e olhou para trás, na direção da janela da carruagem onde ela tinha permanecido para continuar viagem. Nesse instante, ela levantou ligeiramente a mão e dirigiu o olhar na direção do Francisco. Simultaneamente, soltou uma risada e deu um tchauzinho.

8 comentários:

  1. Talvez ela tenha gostado, precisamente, dessa discrição dele. Há momentos em que agradecemos que os outros nos deixem em paz...

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  2. Existem alturas em que partilhar o silêncio vale muito mais que qualquer palavra que se possa dizer, e talvez essa depois de pronunciada perca o sentido...
    Por isso num silêncio, num olhar e num gesto comunicamos mais do que falando. Francisco tomou-lhe a tristeza e não a deixou indiferente, talvez os seus destinos se cruzem, talvez...

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    1. Estou a gostar da variedade de interpretações que denotam estes comentários... :)

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    2. Quer dizer, tu escreveste isto com uma outra intenção... Talvez ele se sentisse um parvo, no fim, pela oportunidade perdida?

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    3. A versão de alguns (supostos) factos chega-nos através da visão do Francisco. Nem tudo é exatamente como parece... :)

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  3. Sempre muito interessante para onde nos leva o cérebro. Muitas vezes precisamos de nos deixar conduzir, sempre com um certo domínio, talvez em ponto morto...

    Bom fim de semana =)

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  4. Por vezes uma palavra apenas vale muito, um silêncio de compreensão também pode valer...

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