quarta-feira, 6 de junho de 2012

O efeito borboleta

Há uns anos houve uma tentativa — relativamente malsucedida, na minha cinéfila opinião — de passar para o cinema esse fenómeno científico denominado «efeito borboleta». Princípio importante na elaboração da Teoria do Caos, assenta na ideia simples de que pequenas alterações numa escolha inicial levam a comportamentos muito distintos na evolução de um sistema. Sem dúvida, um fenómeno facilmente detetável no dia-a-dia.

Essa mesma ideia pareceu-me explorada com maior mestria por Luís Fernando Veríssimo no seu livro «Em Algum Lugar do Paraíso», onde na crónica «Versões»  relata o episódio de um homem que conversa com várias versões de si mesmo que lhe vão aparecendo no bar onde se encontra. Descobre assim quem ele teria sido caso tivesse passado num teste para ser jogador de futebol. Ou, se realmente se tivesse tornado jogador, caso tivesse feito ou não aquele golo. Noutras revelações, o homem depara-se com quem ele teria sido se tivesse passado num concurso público ou se tivesse casado com a Doralice. E assim por diante...

Eu já me sentei muitas vezes em bares, mas (in)felizmente nunca tive a possibilidade de conversar com as versões de mim que optaram pelas escolhas que eu rejeitei. Nem mesmo quando bebi demais. Não significa isso que por vezes não tenha pequenos vislumbres sobre possíveis variações do meu passado caso as minhas escolhas não tivessem sido exatamente as mesmas. Tenho sim. A última vez em que isso me aconteceu foi numa visita recente — a primeira — à Universidade de Warwick.

Dadas as minhas preferências matemáticas na época em que tive que escolher o lugar para realizar o meu doutoramento, Warwick e Rio de Janeiro apresentaram-se como os lugares mais prováveis — que no caso do Rio veio a confirmar-se com 100% de probabilidade — para o meu exílio. Não faço ideia de quem seria eu hoje, caso não tivesse optado pelo Rio. No entanto, depois de conhecer a Universidade de Warwick fiquei convencido de que por lá teria conseguido obter o grau com muito menos sofrimento. E não me refiro à exigência da universidade nem à qualidade da Matemática que por lá se produz. Refiro-me, isso sim, às condições envolventes muito mais favoráveis: uma universidade no meio de campos verdejantes, sem os apelos profanos de bares, praias e garotas num doce balanço a caminho do mar. Ou do bar.

Nada parecido com o bairro de Ipanema, onde fui morar. Para cúmulo, logo ali num ponto onde se cruzam duas ruas tão distintas: a do ônibus com destino ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada e a das garotas com destino à praia. Eu nem sou muito de me queixar do passado, mas este é um dos raros momentos em que olho para trás e sinto vontade de fazer um desabafo. Em tom de lamento. Pela dor, pelo sofrimento, pelos quatro anos de conflito interno para optar pela rua certa. E quando razão e tentação entravam em grande conflito, optava por levar uns livros para a praia e ficar por ali mesmo. Livros de Sistemas Dinâmicos e Análise Funcional, que foram as áreas mais estudadas. Bem encadernados, é claro, para disfarçar o conteúdo. É que se os Sistemas Dinâmicos até poderiam dar azo a alguma interpretação favorável, já uma Análise Funcional dificilmente seria motivo para uma interpretação que não me comprometesse.

6 comentários:

  1. Acho que gostaria de ler esse livro...!
    Também nunca tive o prazer de conversar com versões de mim mesma... Mas talvez fosse uma conversa interessante!
    Quanto ao dilema Análise Funcional / praia, tenho uma história parecida, mas na Costa da Caparica (FCT da Universidade Nova)... :)

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    1. Creio que o livro ainda não teve edição portuguesa. Torço para que chegue logo. A tempo de poder ser lido este verão. Na praia :)

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  2. Algumas vezes paro para pensar "e se as minhas escolhas tivessem sido diferentes?"... uma coisa é certa nas conversas que tenho comigo, com os meus outros eus, esse livro não entraria ;), tal como já lhe disse a matemática não é o meu forte, mas tenho uma ligeira tendência para me aliar a matemáticos, ainda não percebi essa força universal, mas deve ser a perseguição matemática...

    Se eu pudesse ter escolhido outro opção quando decidi a minha vida naquele papel para a entrada no ensino superior... se eu tivesse hipótese, não pelas notas, mas por outras circunstâncias da vida, certamente não teria escolhido aquilo, mas teria sido eu? Teria aprendido o que aprendi?
    Tenho achado piada ao facto de, depois de entrelaçada uma conversa com alguém que conheço casualmente, e lhe digo qual a minha profissão, muitos olham para mim como se isso não fosse possível. Pelos vistos nem o meu aspecto físico aponta para a minha escolha naquele momento. Mas afinal não existem escolhas certas ou erradas, existem escolhas que alteram tudo à nossa volta, a nossa vida e a dos outros. E isso é válido para qualquer escolha que façamos.
    Provavelmente não estaria aqui, não o estaria neste seu exílio.

    Ah! não consegui ver o filme, muito forte para o meu gosto, mas conheço muito bem a teoria pelos livros e artigos que vou lendo.
    E achei que a Universidade de Warwick teria sido uma escolha interessante, mas sem a alegria e o sol contagiante do Rio. Em suma, o que aprendeu e o esforço tem outro gosto, sabem a sal, sol, e palavras cantadas ;)

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    1. Escolhas certas ou erradas até devem existir. O problema é conseguir comprovar o acerto ou o erro!

      Um dos detalhes do filme que me desagradou foi um desnecessário exagero hollywoodiano. Essa mania de exteriorizarem demasiado aquilo que é para ser bem dissecado por dentro é um problema sério (e frequente) nos filmes americanos.

      Quanto ao lamento sobre a minha escolha, trata-se apenas um pequeno recuso literário... É que "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu"! :)

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  3. A propósito de encadernar os livros para disfarcar o conteúdo: os "ebooks" têm dado que falar, ao permitir ler literatura erótica em público, sem dar nas vistas.

    Gravei, aqui há tempos, um filme sobre o efeito borboleta, mas ainda nao o vi. É com o Ashton Kutcher. É desse que falas?

    Quanto ao efeito borboleta na nossa vida: se eu, ainda nos tempos de liceu, achando piada a idiomas estrangeiros, nao tivesse aberto, numa livraria, determinada revista, onde se encontrava determinado anúncio, escrito em inglês, de um determinado jovem alemao, que desejava corresponder-se com miúdas estrangeiras, eu nunca teria vindo parar à Alemanha - nem foi preciso internet ;). E muitas vezes penso no que seria a minha vida, hoje em dia. Talvez devesse escrever algo sobre esse gesto de abrir essa revista, nesse dia. Se alguém me tivesse chamado a atencao para outra coisa e eu nao a tivesse aberto...

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    1. Os ebooks têm de facto a discrição como uma das virtudes.... mesmo para livros que possam ser considerados desvirtuadores :)

      Sim, é esse filme. Não me agradou muito, talvez porque eu estivesse com as expectativas demasiado elevadas.

      É interessante o que contas sobre essa revista. A vida está mesmo cheia de pequenos detalhes onde é notório o tal efeito borboleta. Só é pena que não tenhamos a possibilidade de conhecer as outras versões em algum bar. Ou então, a possibilidade de voltar atrás...

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