quarta-feira, 25 de julho de 2012

Doutor sem U

Não tenhamos ilusões. Com maior ou menor intensidade, aqueles que exercem a atividade política no planeta que habitamos — refiro-me ao planeta Terra, caros leitores marcianos — praticam o descaramento de forma tão generalizada que não acredito que haja região que se possa considerar imune a essa prática. Isso é o que penso claramente agora, depois de exílios em lugares tão distintos como as Américas do Sul e Norte, Europas do Sul e Norte e Ásia — só do Sul — e, consequentemente, depois de perdidas todas as minhas ilusões quanto à natureza do ser humano nesse aspeto. Mas nem sempre pensei desta forma.

Há quase duas décadas, no meu primeiro exílio brasileiro, tive um dos grandes choques culturais precisamente quando observava o descaramento de muitos atores políticos nas mais altas instâncias do Brasil. Chegava eu de um país onde era primeiro-ministro um homem que cultuava a imagem de sério, bem preparado e íntegro e que, imaginava eu, se fazia rodear por gente do mais elevado quilate moral e intelectual. A imagem que me passava(m) era de tal forma extraordinária a esses níveis que, ao deparar-me com a degradada realidade política brasileira, não conseguia entender como era possível aqueles sujeitos exercerem essa atividade regularmente supervisionada pelo povo sem que se regessem por padrões morais no mínimo semelhantes aos da realidade portuguesa. Realidade essa que era até ao momento essencialmente a única que eu conhecia bem. Bem mal, para ser mais exato.

No Brasil, com um parlamento mais numeroso — em termos absolutos, não relativamente ao número de habitantes — e com parlamentares provenientes de alguns estados com um nível sócio-económico-cultural muito baixo, por vezes surgem personagens muito ricos em vários capítulos, exceto naquele específico para o qual foram eleitos. Atentos à grande diversidade da proveniência e, por vezes, à falta de condições para uma boa formação académica, no Brasil tornou-se corrente titular o sujeito pelo seu relevo na sociedade: doutor — ou dotô, para ser foneticamente mais preciso — é qualquer cidadão que atinge patamar elevado na sociedade, seja por via do bom desempenho económico, do bom desempenho político ou da arte de bem roubar — frequentemente em pelo menos duas das três vias em simultâneo, tanto lá como cá.

Claro que isso tem um reverso da medalha. Especialmente nos meios mais eruditos, onde conseguem fazer a distinção entre um dotô e um verdadeiro doutor, a generalização por vezes pode dar azo a alguma ambiguidade. Eu tive a felicidade de ter estado na origem de uma interessante adenda de esclarecimento. Por razões do foro sentimental, há uns anos circulei com alguma regularidade no meio jurídico — um meio onde geralmente conseguem fazer a tal distinção — de uma grande cidade do nordeste brasileiro e, numa das vezes em que me apresentaram, resolveram fazê-lo com a alusão ao meu grau académico. Doutor com U, esclareceu quase de imediato quem me apresentou, para que não restassem dúvidas.

Atendendo ao valor que a questão ganhou em Portugal, acho que está na hora de introduzirmos também por cá o grau de dotô. E ao senhor Relvas atribua-se desde logo o título — talvez por equivalência aos mais descarados políticos brasileiros— de dotô honoris causa!




3 comentários:

  1. Apoiado, eu acho que "dotô Relvas" soa muito bem!

    Nunca estive no Brasil, mas lembro-me que, nas telenovelas (sim, vi algumas, quando ainda estava aí, anos 80), chamavam sempre "dotô delegado" aos delegados de polícia, embora não fosse necessário ter curso superior para exercer esse cargo.

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