quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Aquilo

Em 1977, a vida quotidiana dos portugueses era muito distinta da que temos hoje em dia. Por vezes é difícil acreditar que determinadas coisas que agora acontecem naturalmente, há 35 anos aconteciam ainda de forma bastante condicionada. É certo que Portugal já emergia do longo período de trevas, mas as restrições eram ainda de tal ordem que só no dia do casamento — no final de Julho do referido ano — tanto ele como ela puderam pela primeira vez experimentar aquilo. Estranharam um pouco no começo — ela mais do que ele —, mas rapidamente entranharam. Depois não queriam outra coisa. O calor do verão deixava-os bastante predispostos para aquilo. De manhã, de tarde, de noite, queriam tanto aquilo que já nem conseguiam dormir direito. Chegaram a um estado tal, que só com intervenção médica conseguiram libertar-se da dependência.

Assim como este casal, muitas pessoas em todo o mundo desenvolveram verdadeira dependência por aquilo, apesar de nem sempre terem uma boa experiência inicial. Eu, por exemplo, tive a minha primeira experiência por volta dos 10 anos de idade e devo confessar que na primeira vez não achei aquilo lá grande coisa. Depois, aos poucos, fui-me acostumando e hoje em dia até aprecio bastante. Mas sem exageros. Nunca com dependência.

O que provavelmente os mais jovens não sabem é que aquilo começou a ser desfrutado em Portugal com várias décadas de atraso em relação a muitos outros países. Após uma tentativa frustrada de trazer aquilo para Portugal no final dos anos 20, só em Julho de 1977 começou a entrar no hábito regular dos portugueses. Na tal tentativa frustrada chegou a haver uma campanha publicitária com o slogan concebido por Fernando Pessoa «primeiro estranha-se, depois entranha-se». A proibição surgiu na sequência dessa campanha com base no seguinte raciocínio: se se entranha, tem características de estupefaciente, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal; se não se entranha, a campanha é enganosa, e portanto aquilo não pode ser permitido em Portugal. Raciocínio do ponto de vista lógico — não mais do que esse, parece-me — perfeitamente inatacável!

Adenda: por manifesta falta de tempo para negociar um contrato publicitário — férias são férias! —, deixei todas as referências àquilo como «aquilo». Se ainda não descobriu do que se trata, pergunte-me em privado (exiladonomundo@gmail.com) que eu terei muito gosto em esclarecer. Apesar da tal falta de tempo, não deixarei nenhuma mensagem sem resposta. Em princípio.

4 comentários:

  1. Interessantes factos históricos sobre "aquilo" :)

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    1. Até num blogue como este pode surgir informação útil! :)

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  2. O meu pai costuma lembrar uma expressão que já se usou para "aquilo": a água suja do capitalismo. Era proibida na altura da ditadura e, pelos vistos, também no mundo comunista.

    Já agora, tenho uma história interessante. Uns tios meus viviam, com os dois filhos, na África do Sul. Nos anos 70, anunciaram a sua visita a Portugal e estavam bastante preocupados porque o meu primo, de 12 anos, só bebia "aquilo", mais nada (nem sequer água, nem leite) e essa "bebida retemperadora" (como já a vi mencionada num anúncio americano antigo) ainda não estava autorizada em Portugal. O rapaz não tinha vontade nenhuma de visitar um país onde não existia "aquilo", o país dos seus pais, que ele mal conhecia. Por coincidência, "aquilo" foi autorizado (acho que foi em 1977) bem a tempo da sua vinda. Estiveram umas semanas em nossa casa e havia grades "daquilo" em todo o lado, grades que tornaram a desaparecer, quando a família regressou à África do Sul ;)

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    1. É impressionante como "aquilo", que agora é tão natural como a sede, apenas há umas décadas era quase tão artificial como a cortina de ferro! :)

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