quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Velocidade relativa

Há dias fiz uma viagem de carro do Porto a Lisboa e vice-versa. Durante o percurso lembrei-me de uma pergunta — em jeito de anedota — que ouvi há uns anos: quais os dois países da Europa cujas autoestradas não têm limite de velocidade? Sendo a resposta — também em jeito de anedota — a Alemanha e Portugal. A Alemanha, porque efetivamente em grande parte das suas autoestradas não há lei que estabeleça limites para a velocidade; Portugal, porque praticamente ninguém cumpre os limites estabelecidos por lei.

Sobre o que a anedota contém de verdade em relação aos restantes países da Europa nada posso atestar, pois não conheço os hábitos de cada povo nas autoestradas de todos os países europeus. No que toca aos portugueses, ninguém duvide que a anedota é puro reflexo da nossa realidade: na tal viagem do Porto a Lisboa e vice-versa coloquei o cruise control do meu carro no limite de 120km/h e não exagero muito se disser que, nos cerca de 600km percorridos, ultrapassei uma meia dúzia de veículos pesados — não eram muitos, pois tratava-se de um fim de semana — e fui ultrapassado por um sem número de veículos ligeiros. Muito ligeiros. Poderia até jurar que alguns deles passaram por mim a uma velocidade — relativa à minha, obviamente — muito próxima dos 120km/h!

Numa primeira tentativa de explicar o fenómeno, poderia avançar com a teoria de que os portugueses correm apressados para tirar o país da crise. Infelizmente, tal não me parece verdade, pois os automobilistas portugueses já conduziam assim quando Portugal era um país próspero. Ou então, que os portugueses, quais parisienses ou novaiorquinos, vivem num frenesim constante. Teoria respeitável, mas, feliz ou infelizmente — ainda não me decidi —, facilmente refutável. Para tal, basta colocar os pés numa escada ou tapete rolante de um qualquer aeroporto ou shopping center. Esse mesmo povo que circula a altíssima velocidade nas autoestradas, chega a uma escada ou tapete rolante e estaca. Mais do que isso, bloqueia a passagem de quem necessita de caminhar mais apressado ou quer aproveitar para se deleitar por breves instantes com passadas de gigante. O que deveria servir para aumentar a velocidade, transforma-se assim num veículo de culto à pasmaceira.

Acima de tudo, fica evidente que o gosto dos portugueses pela velocidade é muito relativo. Bipolar. Oscila entre o ronceiro que se deixa levar à velocidade natural das escadas e tapetes rolantes e o apressado que circula nas autoestradas no limite de velocidade do seu próprio carro. Quiçá o problema do excesso de velocidade nas autoestradas nem seja culpa dos condutores, mas sim um capricho congénito dos veículos. É que, apesar de agora estarmos na pindaíba, grande parte dos carros que circulam nas estradas portuguesas ainda é de alta cilindrada e de origem alemã. Esperemos pelo previsível ajuste no parque automóvel para ver no que isto dá.

9 comentários:

  1. Aos que circulam próximo aos 240 km/h nas estradas portuguesas cabe dizer:
    - Quanto mais pressa, mais devagar. Opps! já passaram...

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  2. Penso eu de que o " Cruise Control " não fixa exatamente a velocidade que marcamos, mas sim um pouco abaixo dessa.

    Pois na minha opinião de leigo e pedestre, a velocidade pretendida foram 120 km/h e a que realmente foi fixada pelo sistema foram os 110 km/h. Assim todos aqueles que te ultrapassaram nos 600 km percorridos circulavam na velocidade máxima permitida nas AE em Portugal, os 120 km/h

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  3. Quando é que Portugal foi um país próspero? quero ir para esse tempo, reincarnar, coisas assim. Pensava que andamos em crise desde 1143. Mas afinal já fomos prósperos. Terá sido com os descobrimentos...e que carros haveria?!

    Vou defender os automobilistas pronto, por que carga de água se fazem automóveis com um painel que permite 260 km hora? é uma tentação. Deixem-se de tentações despropositas caramba.

    quanto a andar devagar na escada rolante: é lá que se descansa um pouco. Tem razão o exilado quando diz que o descanso de uns inibe a pressa ou a ginástica de outros, até porque há regras tb nas escadas rolantes, mas garanto que a maioria das pessoas as desconhece; a boa educação, mesmo a básica, anda muito por baixo.

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    1. Os portugueses caem facilmente em tentação...
      Como diz o Exilado, só na Alemanha não existe limite de velocidade, o que quer dizer que, em países onde há muitos mais carros de grande cilindrada (como na Escandinávia, por exemplo, na Holanda, ou na França), o limite é respeitado! Deixemo-nos de desculpas!

      Digo por experiência própria: é muito mais agradável guiar em auto-estradas onde há limite de velocidade (e esse limite é respeitado). Por isso, desejaria que também na Alemanha (onde vivo) houvesse limite. Ao fazer uma ultrapassagem numa auto-estrada alemã, raramente sabemos quanto tempo demora a chegar até nós o carro que, através do retrovisor, vemos lá longe. É mais confortável (e seguro) facilitar esse cálculo.

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    2. Devo confessar que ainda não sei se me irrita mais o excesso de velocidade nas autoestradas ou a lentidão nos tapetes rolantes.

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  4. E não nos chame nomes que faço queixa à minha mãezinha.bipolares!É que me faz mossa.

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