quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Não é nada do que você está a pensar!

É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.

Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.

Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.

No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!

Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.

Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.

A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.

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