quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bem-vindo ao Faroeste


No domingo passado ouvi o Professor Marcelo propor a realização de um filme, dirigido à opinião pública alemã, sobre os enormes sacrifícios que estão a ser exigidos aos portugueses — abaixo o eufemismo mediático dos «sacrifícios pedidos aos portugueses», pois a mim ninguém me pediu nada!

Suponho que o objetivo de um tal filme é provocar nos alemães a compaixão por este desafortunado povo no extremo mais ocidental da Europa. A ideia não é original e já teve uma primeira tentativa — não sei se muito bem sucedida — com um pequeno filme, contendo alguns chavões e imprecisões históricas, dirigido ao distante povo finlandês. Se é para enveredar novamente por esse caminho, desta vez faça-se a coisa bem feita: lance-se um repto a Brancos, Canijos, Oliveiras, Vasconcelos — e a sua inefável amiga dos peitos — e outros cineastas renomados deste país e realize-se um filme como deve ser! Julgo que a tragicomédia será o género que melhor se adequará ao objetivo, pois terá o mérito de conseguir despertar a atenção dos alemães para os nossos problemas e, simultaneamente, deixá-los bem dispostos — algo recomendável...

Nessa linha, um filme que pode ser levado em conta como inspiração para a obra cinematográfica de resgate da imagem do povo português é a comédia francesa de 2008, Bienvenue Chez les Ch'tis — Bem-vindo ao Norte, em Portugal —, realizada por Dany Boon. Trata-se de um filme que lida muito bem com a questão do deslumbramento do francês típico em relação o sul e o simultâneo preconceito com o norte. Norte e sul de França, no caso. Como seria de esperar, o desdém do personagem principal — e dos espectadores, acredito — pelo norte vai, ao longo do filme, dando lugar a um certo encanto e no final... bom, não quer que lhe conte o final, pois não?

Só a título de curiosidade, refira-se que o filme se tornou a produção francesa com maior sucesso de bilheteira e o segundo filme de sempre mais visto em França. O primeiro continua a ser o Titanic, mas nem queria mencioná-lo neste texto — longe de mim qualquer acusação de mau presságio sobre a realidade portuguesa!

Bienvenue Chez les Ch'tis inspirou já a versão italiana Benvenutti al Sud (Bem-vindo ao Sul). Na Itália, por comparação com a França, há uma generalizada simetria de opiniões quanto a norte e sul. Penso que no caso do nosso filme para os alemães, será fundamental que nos demarquemos da típica imagem de sul da Europa boémia e gastadora. Como também é verdade que geograficamente nos encontramos no extremo mais ocidental da Europa, «Bem-vindo ao Faroeste» será um título que assenta que nem uma luva!

Que alemão poderia sentir compaixão de nós se lhes mostrássemos como imagem portuguesa um Algarve cheio de sol, praia, campos de golfe, mariscadas e boa vida noturna? Praticamente nenhum. Que me perdoem as gentes trabalhadoras do Algarve, mas proponho até que no filme incluamos um algarvio no papel de vilão da história. Por exemplo, um sujeito com aura de político sério, mas que, eleito primeiro ministro, esbanje recursos europeus sem grande critério, dizime a agricultura e as pescas e se rodeie de um bando de amigos banqueiros que lhe deem grandes retornos financeiros e criem um monstro bancário capaz de deixar o país atolado. Para acentuar o tom de tragicomédia da película — e ilustrar a má sorte dos portugueses —, pode-se até fazer com que tal personagem algarvio ascenda ao lugar de figura maior do estado português.

Demasiado ficcionado? Talvez. Mas não esqueçamos que o objetivo de um tal roteiro cinematográfico é tentar convencer os alemães que somos um povo trabalhador, apenas muito mal governado. Como num passado não muito distante eles elegeram presidente um tal de Adolf Hitler, não será difícil aceitarem essa nossa história mirabolante e desafortunada como verosímil.


5 comentários:

  1. Já agora, e para não ficar só o Algarve com uma possível má imagem, inclua também o Sócrates. Não o Ateniense, pelo qual tenho imenso respeito, mas o Portuense, que agora reside em Paris. Inclua também o transmontano (ou angolano) Passos Coelho, e muitos outros das mais variadas regiões deste país. Talvez assim deixe ainda mais clara aos alemães a ideia (errada?...) de que isto é um farwest. A mim, infelizmente, já não me precisa sensibilizar, pois sei há muito o faroeste que isto é. Infelizmente também terei que me incluir, pois também sou Português. E voçê, incluí-se? Será mesmo isto tudo só "má sorte" como diz? Não vejo noutras sociedades tanta má sorte...! Talvez por não terem a "má sorte" de terem um povo como o nosso. O triste é, mais uma vez, ao falar de um povo, termos que nos incluir todos no conjunto.

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    1. Bom... não detetando alguma ironia no meu texto, talvez se possa sentir descriminado(a). Ironias à parte, devo dizer que nada tenho contra os algarvios. Muito pelo contrário. O Algarve teve apenas a "má sorte" de ser a região natal do maior responsável por este cowboyada toda no pós 25 de Abril. Infelizmente não é o único pistoleiro deste faroeste e não há região que se possa dizer imune à estirpe de gente que, mais ou menos tempo, nos tem vindo a desgovernar neste anos todos.

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    2. Percebi a ironia. Não tenho nada contra o Algarve, também. Aliás, gosto imenso de lá ir à praia. Mas também não podia deixar a responsabilidade desta "cow-boi-ada" em que nos encontramos só nas mãos do filho do gasolineiro do Poço de Boliqueime (ou Fonte de Boliqueime, sei lá... até o nome do seu local de naturalidade o comedor de bolo-rei quis mudar!). Mas também não quero retirar a responsabilidade à sociedade, para além da dos políticos. Afinal, é da sociedade que saiem esses mesmos políticos, é nela que são educados (com ou sem valores, mas aí acho que já percebeu onde quero chegar), e é essa mesma sociedade que os elege na junta de freguesia, na câmara municipal, no governo, na presidência da república, nas jotas e jotinhas que por aí andam, etc.. Podemos sempre alegar que temos algumas atenuantes, como sejam a história, a economia, a educação (ou a falta destas), e temos de facto. Mas também é verdade que só apartir do 25 de Abril de 1974 se voltaram a cometer excessos. Não digo que não tenha sido positivo, que o foi. Primeiro por uma questão de liberdade. Mas cometeram-se excessos. Deu-se cabo de muita coisa. E a sociedade portuguesa tem vivido bastantes períodos destes de tormenta só no século passado. Isso transparece na nossa sociedade. Nunca esta sociedade pode de forma serena, construtiva, firme, trilhar o seu próprio caminho na democracia, no seu desenvolvimento cultural, económico, pessoal, etc.. E isso é por demais evidente nos dias de hoje. Devem haver poucas sociedades europeias onde a ezquizofrenia estejam tão latente como aqui. Nota-se isso nas conversas de café, entre amigos, nos comentários a notícias, nas opiniões sobre política. Este país, fruto do seu passado recente, continua esquizofrénicamente dividido entre a direita liberal e a esquerda marxista. Não existe equilíbrio. Em lado algum observo uma tão perversa união entre o pior das políticas de esquerda com o pior das de direita. Conseguimos, ao contrário de outros países europeus, aliar o pior dos dois mundos, em vez do melhor. E a sociedade é eco disso. Se não fosse, nem tal seria possível acontecer. Depois também temos a pouca sorte de ser latinos. Mais temperados que os outros, mas latinos contudo. Disciplina, responsabilidade, cumprir a lei... oh come on! Isso não é coisa para português que se digne! Até se fazem leis que são ambíguas e impossíveis de fazer cumprir logo à partida. Enfim... dava uma crónica interminável o tema. Por isso digo, sim os políticos são enormemente responsáveis pela situação actual e pela falta de desenvolvimento e rumo do país, mas nós todos também o somos. Com menor grau de responsabilidade directa, é certo, mas que o somos, somos. E talvez tenhamos que começar a combater por aí mesmo. Por nós e pelos que nos rodeiam. Nunca vi uma sociedade ou uma democracia nascer de cima para baixo. E as que nascem... não lhes auguro nada de bom. Por isso mesmo, apesar de europeísta, tenho cada vez mais reservas a todo este "projecto" e ao seu "modus operandi".

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    3. Concordo plenamente com o que diz. Acrescentaria, para resumir, que nos falta maturidade democrática.

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  2. Haverão dúvidas que por cada acto de corrupção existe um elemento corrupto e outro corruptor? Existirão dúvidas que ambos não são indivíduos às direitas? Logo, pela lógica, serão maus elementos da sociedade. Existirão dúvidas que por cada um desses existe uma família que não o soube educar? Existirão dúvidas que a sociedade envolvente não conseguiu dar-lhe um melhor exemplo? Existirão dúvidas que a sociedade e a "cultura" portuguesas padecem de uma tremenda falta de educação, de civismo, de consciência de tudo o que são questões políticas, sociais, económicas, científicas, culturais? Salvo raras excepções. Existirão dúvidas sobre a quantidade de gentalha desta que existe no país? É o aluno que cabula o mais que pode. É o professor que não prepara as aulas e que sai a meio da aula para dar dois dedos de conversa. É o empresário que não passa facturas. É o senhorio que não declara as rendas. É a empresa que não respeita o código de trabalho. É o governante que se acha no direito a roubar aqui e ali, pois afinal de contas ele próprio acha-se tão mal pago. É o condutor que faz que não vê o peão no meio da passadeira. É a vizinha que vai passear o cão sem trela e o deixa fazer as necessidades onde lhe apetece e as deixa lá ficar. É o empregado que nunca chega a horas. É a secretária que está constantemente no facebook e a fazer pausas para o café. É o intelectual que parece um papagaio populista e não tem um único pensamento original. É preciso dizer mais que não conheçamos todos no nosso dia a dia? É o país que temos. Como poderemos ter melhor que isto? Se nós mesmos não somos melhores que isto... É uma imensa espiral de Fermat, que em cada momento estamos sempre em pontos diametralmente oposto do plano da evolução social e cívica. Metade não tem interesse nisso, a outra metade não se sente satisfeita sem isso. E tudo fica sempre na mesma. É uma espiral de Fermat entre a direita mais liberal e a esquerda mais marxista. Sempre nos disseram que éramos um povo de brandos costumes...! Em quê? Basta olhar para a história do século XX. Quanto tempo tivemos de estabilidade? Durante a ditadura. A sério?... Somos um povo que só em ditadura conseguiu ter estabilidade? É a este povo que pertenço? É que não quero...! Compare-se a atitude, a postura, a ética e civismo do indígena com a do suíço, do sueco, do alemão, etc.. Compare-se a tradição democrática, a tradição humanista. Compare-se tudo, ou quase tudo. Quando é que poderei ser feliz no meu próprio país? A avaliar pelo progresso temporal linear que levou outras sociedades a chegarem onde estão hoje em dia, talvez daqui a 250 anos! Até lá tenho que fingir que gosto muito disto e que acho que somos o "melhor povo do mundo" (cite). Pois somos, somos sim senhor! Somos o melhor povo do mundo! Pena é que eu já não queira mais ser parte do melhor povo do mundo. Prefiro ir para outra sociedade, menos boa, quem sabe, mas simplesmente funcional, equilibrada, justa.

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