quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Considerações em abstrato

«A única desculpa para se fazer uma coisa inútil 
é admirá-la imensamente. Toda a arte é inútil»
Oscar Wilde

Havia já alguns anos que não vendia — apesar de me pagarem cada vez menos, ainda sou pago — aulas a alunos do primeiro ano de uma licenciatura. Talvez fruto de um mundo assustadoramente imediatista, noto esses alunos cada vez mais vocacionados para a aquisição de rotinas na resolução de exercícios e pouco recetivos para aquilo que a Matemática lhes pode transmitir de melhor: a arte de (bem) pensar. Não se tratando, obviamente, de uma característica exclusiva da área, é inegável que a Matemática é especialmente apetrechada para fazer desenvolver nos alunos a capacidade de pensar em abstrato e aprimorar o pensamento lógico-dedutivo. E, sejamos objetivos, por muito que se tenha apego a grandes números, gráficos ou fórmulas aplicadas, ainda é com base no pensamento humano que se dão os maiores avanços no conhecimento.

Excetuando raras e honrosas exceções, por maior que seja o gosto e o contacto com a Matemática no ensino secundário, é apenas na universidade que os alunos se deparam pela primeira vez com aquilo a que verdadeiramente se poderá chamar de uma prova matemática. Parece-me ser esse um aspeto que não pode nunca ser descurado na formação de um aluno nesta fase. A mudança de paradigma quanto à forma como deve ser encarada a Matemática exige também dos professores uma certa perseverança, especialmente quando se trata de alunos já com o pensamento formatado em moldes que menorizam o pensamento abstrato. Não se tratando de alunos de uma licenciatura em Matemática, maior é a renitência para a aceitação de aspetos teóricos ou conceitos mais abstratos da Matemática.

Utilidades e necessidades à parte, por mais fantástico que seja um resultado em si, reside frequentemente na explanação das ideias em torno da sua prova uma beleza que muitas vezes só encontra paralelo na arte.

Longe de mim querer comparar o meu sorriso ao da Julia Roberts — perdoem-me se vislumbram em mim tal heresia! —, mas ocorre-me a propósito destas considerações uma associação com o filme «O Sorriso de Mona Lisa», no qual Julia Roberts desempenha o papel de uma professora de arte numa universidade americana nos anos 50 do século passado. Não sendo eu um especialista em cinema que possa basear as minhas opiniões em padrões de grande erudição cinematográfica, os filmes quase sempre me fascinam por pequenos detalhes. Um diálogo, uma sequência de imagens, uma trilha sonora ou um bom desempenho verbal ou corporal — especialmente feminino — são os aspetos que frequentemente me fazem reter um filme na lembrança. 

No caso específico de «O Sorriso de Mona Lisa», há vários pontos de interesse: os questionamentos sobre o que se pode considerar ou não arte, sobre o que é ou não boa arte ou até mesmo sobre o sentido da formação universitária na vida de uma mulher naquela época. Marcou-me especialmente um pequeno diálogo entre a professora e as suas alunas, quando estas foram apresentadas a uma enorme tela de Jackson Pollock:
— Por favor, não me diga que temos que escrever uma redação sobre isso, — diz com desdém uma das alunas, transmitindo o que parecia ser uma opinião generalizada. Ao que a professora contrapôs:
— Façam-me um favor. Aliás, façam um favor a vocês mesmas: parem de falar e olhem! Não é exigido que escrevam uma redação. Nem tão pouco é exigido que gostem dele. O que é exigido é que o considerem!

Aí mesmo reside um dos pontos importantes de tudo isto. Independentemente do gosto, da necessidade ou da utilidade que possam ter, há certas e determinadas coisas que, em algum momento da nossa formação, deveríamos ser levados a considerar.

Eu mesmo, só muito tardiamente fui levado a considerar as pinturas de Jackson Pollock. Tardei, mas felizmente cheguei a um dos pintores que hoje em dia mais me apraz. A tal ponto de, na minha última visita a Nova Iorque, ter gasto parte significativa das minhas quatro ou cinco horas no MoMA a considerar várias telas de Pollock. E cheguei até ele por linhas muito travessas. Especificamente, através de um trabalho de Richard Taylor, físico australiano, no qual é estudado a evolução da dimensão fractal das pinturas na fase gotejada de Pollock, deixando em evidência a crescente complexidade no emaranhado dos seus traços. Grandes reflexões surgiram na época sobre a intencionalidade dessa crescente complexidade. Em particular, uma associação com a Teoria do Caos, que na época debutava como teoria matemática, levou a revista Time a publicar uma matéria sobre o trabalho de Pollock intitulada «Chaos, damn it!». Curiosamente, esse mesmo Caos que hoje em dia é frequentemente utilizado como chamariz para diversas exposições matemáticas, foi na época utilizado de forma bastante pejorativa. Ao ponto de Pollock ter publicado na mesma revista uma resposta sob o título «No Chaos, damn it!».

2 comentários:

  1. Também eu já "vendi" há alguns anos, aulas de matemática a alunos - do secundário - e também me pediam a "receita".
    Nessa altura estudava e havia colegas de outras licenciaturas que também tinham alguma (ou muita) resistência a seguir o raciocínio que levaria à resposta...
    Imagino que essa tendência possa estar a aumentar, mas o paradigma não estará a mudar apenas na matemática, parece-me que em muitas outras áreas da vida, cada vez pensamos menos, e queremos mais que a receita, queremos o pronto a comer....
    Beijos

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    1. É uma certa obstinação pelo sentido prático das coisas que por vezes nos retira capacidade de pensar! Beijo.

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