quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O catalisador

Dois amigos conversam sobre o impasse na vida sentimental de um deles.
— Estamos em ponto morno.
— Em ponto morno?
— Sim. Não aquece nem arrefece.
— Tu e a Nini já namorais há demasiado tempo!
— Pois, desde a adolescência...
— Precisais de um catalisador.
— De um quê?!
— De um catalisador. Algo que provoque reação. Um ingrediente extra.
— Talvez... Mas o quê?
— Deixa ver... A Nini é ciumenta?
— Já foi. Agora nem isso para aquecer!
— Então há que provocá-la.
— Mas como?
— Há diversas possibilidades. Vamos pela mais simples: convives com amigas da Nini?
— Várias.
— Alguma especialmente interessante?
— A Odete!
— Como é essa Odete?
— Um espetáculo! Bonita, inteligente, carinhosa...
— Namora?
— Há tempo que não.
— Então vai ser ela o catalizador.
— Como?
— Faz-lhe uns elogios à frente da Nini. Mostra-te deferente com a Odete. Enaltece-a. Se ela retribuir um pouco, melhor ainda!
— Achas que isso resulta?
— Não sabes como são as mulheres!

Passadas algumas semanas.
— Então, resultou?
— Nada!
— Porquê?
— Vê o meu azar: logo depois que conversei contigo, fui encontrar-me com a Nini. Imagina a primeira coisa que ela me disse.
— O que foi?
— Que a Odete começou a namorar!
— E daí?
— Desde então a Odete nunca mais esteve connosco; não pude catalisar ciúme nenhum!
— Catalisavas com outra, pá! Não convives com outras amigas da Nini?
— Conviver convivo, mas com nenhuma como a Odete! A Odete é realmente muito especial. Vê-la e ouvi-la é deleitar os sentidos! E as formas? E a forma como se expressa? Tão harmoniosa e perfeita como um noturno de Chopin num quadro de Renoir. Ando triste só de pensar que caiu nos braços de um fulano!

O amigo não disse mais nada. Ficou a pensar. Sentindo-se, ele mesmo, um catalisador.

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