quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro das coisas

A Clotilde, a Maria Teresa e a Rosa Manuela conheceram-se há cerca de uma dúzia de anos, quando os seus filhos começaram a frequentar a mesma escola. A forte amizade que logo no primeiro ano nasceu entre os meninos estendeu-se com alguma naturalidade às respetivas mães. Jantares, lanches — muitos lanches — e incontáveis telefonemas selaram a amizade de tal forma que, mesmo agora, com os rapazes já crescidos e seguindo caminhos distintos, as três mães continuam a encontrar-se com alguma regularidade. Os telefonemas já escasseiam, para os jantares não há muito tempo, mas pelo menos um lanche, no começo de cada ano letivo, mantêm como hábito sagrado.

Desde cedo, o filho da Clotilde começou a revelar excelentes aptidões para as Ciências Exatas, o filho da Maria Teresa para as Humanidades e o filho da Rosa Manuela... bem, o filho da Rosa Manuela foi ficando para atrás e tardava em revelar aptidões para o que quer que fosse. Na falta de alguma aptidão especial, foi repetindo anos, com o intuito de tentar melhor descobrir a sua vocação. Assim dizia a Rosa Manuela.

Com os filhos da Clotilde e da Maria Teresa acabadinhos de entrar na universidade, no lanche deste ano conversaram naturalmente sobre as opções recentes e as perspectivas de futuro dos filhos.

— O meu filho entrou para Matemática, em Ciências — disse a Clotilde.
— E como são as perspectivas de emprego? — perguntou a Maria Teresa.
— Já foram muito melhores, mas esperemos que as coisas mudem — respondeu a Clotilde.
— Pois é, esperemos que as coisas mudem — concordou a Maria Teresa.
— As coisas?... Quais coisas?! — perguntou a Rosa Manuela.
— A conjuntura, a situação... — esclareceu a Maria Teresa.
— Ah! — apenas disse a Rosa Manuela.

Após um breve silêncio, a Clotilde dirigiu-se à Maria Teresa:
— E para que curso entrou o teu filho?
— Para Filosofia, em Letras — respondeu a Maria Teresa.
— Complicado, em termos de emprego — afirmou a Clotilde.
— Sempre foi, imagina agora! — acrescentou a Maria Teresa com ar de preocupação.
— Bom, esperemos que as coisas mudem! — concluiu a Clotilde.

Após mais um período — um pouco menos breve que o anterior — de silêncio, a Rosa Manuela interveio:
— É para ver como são as coisas: o meu filho ainda não terminou o secundário, mas eu não estou nada preocupada.
— Nada? — perguntaram admiradas a Clotilde e a Maria Teresa.
— Nada! — reafirmou a Rosa Manuela.
— E o que fará ele sem um curso? — perguntou a Clotilde.
— O que fará eu não sei, mas para lhe garantir um bom futuro o pai já o inscreveu na JS e na JSD! — respondeu a Rosa Manuela. E acrescentou: — E esperamos que as coisas não mudem!

6 comentários:

  1. E, se algum dia chegar ao governo, compra um curso numa privada, através do método de equivalências. Esses anos a mais no secundário ainda lhe vão dar um jeitão...

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    1. O problema é que certas perspectivas inquinam melhores planos! ;)

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  3. Esperemos que as coisa mudem...
    Mas não hão de mudar se nada fizermos para isso.

    Não sei o que se passou como meu PC que não detetou os seus novos textos =(
    Só me apercebi agora.

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    1. É verdade, "que sabe faz a hora não espera acontecer".

      Os meus textos estão a ser censurados pelo seu PC? Talvez tenha a sorte de ter um PC com bom gosto... :)

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