quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O linguista

Disse Millôr Fernandes que um escritor só é realmente famoso quando os seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais. Não me ocorrem estas palavras a propósito de um escritor, dado que sobre o personagem que aqui vou considerar não tenho informação de quaisquer registos escritos, mas sim sobre esse orador — cuja máxima de Millôr Fernandes também se aplicará, acredito — que dá pelo nome de Passos Coelho e que, num dos seus últimos discursos, avançou com uma ousada proposta de "refundação" do memorando com a troika — ou do estado português... ou lá que diabo queria ele refundar...

Perante a imprecisão — ou vacuidade? — da proposta, muitos foram os comentadores e analistas que se debruçaram sobre as enigmáticas palavras de Passos Coelho, especificamente sobre a palavra "refundação" — que o meu corretor ortográfico continua a sublinhar a vermelho.

Imbuído do rigor matemático que me caracteriza, antes de tentar descobrir o que Passos Coelho queria dizer com a palavra, fui tentar descobrir o que a palavra queria dizer. Consultado o dicionário online da Priberam, cheguei à conclusão de que a palavra "refundação" não existia e "refundar" tinha um significado que, no contexto, não combinava nada com o que me parecem ser as ideias políticas de Passos Coelho. Mais tarde consultei o meu velho dicionário da Porto Editora e cheguei essencialmente às mesmas conclusões. Ousei até postar um comentário no Facebook:
De acordo com o que me parecem ser elementares regras da língua portuguesa, presumo que "refundação" será o ato ou efeito de "refundar". E diz o meu dicionário que "refundar" tem o significado de "tornar mais fundo, profundar, afundar". Será que Passos Coelho, finalmente, começou a falar verdade ao país? Ou será que Passos Coelho, simplesmente, não sabe o que diz?
Tive até um amigo que gostou! Qual não foi o meu espanto quando, poucos dias depois, um outro amigo me alertou para o conteúdo deste meu comentário, observando que tinha consultado o dicionário online da Priberam e, surpresa das surpresas:
refundação
s. f.
Ato ou efeito de refundar. 
refundar
v. tr.
1. Tornar mais fundo. = AFUNDAR, APROFUNDAR, PROFUNDAR
2. Tornar a criar, a estabelecer algo; fundar novamente.
No espaço de alguns dias, não só a palavra "refundação" ganhava vida própria, como "refundar" adquiria um novo significado. Confesso que se não houvesse aqui e ali outros comentários com o mesmo teor do meu comentário facebookiano, eu ia começar a desconfiar da minha própria capacidade de leitura — ou até da minha sanidade mental, quem sabe. Desta forma, vou apenas achar que a erudição linguística de Passos Coelho tem esse dom de nos enriquecer a língua. Se outra riqueza não consegue criar para o país, pelo menos essa ele consegue. 

Julgo ser da mais elementar sensatez que de futuro eu passe a prestar atenção redobrada às palavras de Passos Coelho. E digo mais: quando tiver tempo vou tentar reinterpretar todos os seus discursos passados. Agradeço desde já à Priberam que inclua no seu dicionário significados ocultos de palavras como "já", "ouvi", "dizer", "que", "nós", "queremos", "acabar", "com", "o", "décimo", "terceiro", "mês", "mas", "nós", "nunca", "falamos", "disso", "e", "isso", "é", "um", "disparate", entre muitas outras. Não acredito que Passos Coelho tivesse utilizado estas palavras com os seus significados mais óbvios. Na minha conceção, o Passos Coelho linguarudo dá lugar ao linguista!

E para que não volte a cair em más interpretações, numa próxima campanha eleitoral só ouvirei Passos Coelho com dicionário na mão. Dicionário da Priberam, claro!

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