quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O absurdo mora ao lado

O Pereira já fez parte do imenso — talvez nem tanto — contingente de homens com tendência para brincar com o fogo (emanante das mulheres alheias). Uma vez levou a brincadeira longe de mais e fugiu de casa, tendo deixado ao abandono a mulher e os filhos. Como nem tudo que reluz é ouro, não tardou muito para que o fogo da mulher alheia se apagasse e, consequentemente, despertasse no Pereira uma profunda, sentida e merecida dose de arrependimento. A mulher do Pereira, que tinha vocação para a santidade, dessa vez perdoou-o.

Perante essa lição de vida, o Pereira transferiu-se para o imenso — agora sim — contingente de homens que não pretende mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. Mas o episódio da fuga e arrependimento deixou as suas marcas no Pereira. A experiência ensinou-lhe — e ele jamais esqueceu — que, ao menor deslize, paixões fortuitas entram de mansinho, destroem felicidades conjugais e depois passam.

Daí em diante, não só o Pereira abandonou certas palavras e atos relativamente às mulheres alheias, como passou também a tentar mantê-las afastadas até dos seus pensamentos. Custasse o que custasse. Esse o grande erro do Pereira: quis levar longe demais o seu esforço. É sabido que em matérias do pensamento a radicalização facilmente gera descompensação. O absurdo mora ao lado.

No escritório onde trabalhava o Pereira todos — elas, principalmente — sabiam da sua conversão ao mundo dos homens que não pretendem mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. E ele parecia feliz nessa nova postura de vida. Até que, aos poucos, começaram a sentir o Pereira padecer dum certo tipo de estranheza — sobejamente conhecida — que consiste em ficar introspetivo o tempo todo.

O Augusto, que tinha uma relação de maior proximidade com o Pereira, foi incumbido de ter uma conversinha com ele. Vai que o Pereira precisava de se abrir. Saíram juntos para o almoço e à primeira palavra de provocação o Pereira abriu-se num lamento:
— Acho que estou apaixonado!
— Como?!
— Uma paixão impossível...
O Augusto deduziu que o Pereira não se referia à madame Pereira.
— Invade-me o pensamento nas situações quotidianas mais simples.
— Relaxa, deve ser coisa passageira.
— De há uns tempos para cá, não há vez em que lave os dentes ou coma um bife que não pense nela!
— Ela quem?
— A Isabel Jonet!

5 comentários:

  1. Pelos vistos, em Portugal, comer bifes passou a ter outro significado. Depois de Isabel Jonet, não mais se comeram bifes como antigamente. Talvez seja uma boa deixa para se tornarem vegetarianos... :P

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    1. Como bifes não como muitos, eu penso mais nela quando lavo os dentes! :D

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