quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

21122012

Se há aspeto no qual podia considerar a minha existência uma absoluta nulidade, esse é seguramente o das experiências esotéricas. Até ontem. Suspeito mesmo que o mais perto que cheguei de uma experiência com algum grau de esoterismo foi há aproximadamente uma dezena de anos no Père Lachaise, em Paris. Deambulava eu alegre e perdidamente pelo cemitério em visita às moradas eternas de alguns dos mestres universais das letras e da música lá sepultados, quando fui abordado por uma jovem que, notando-me algo perdido, me perguntou (num idioma estrangeiro, já não me lembro qual): «Buscas o Jim?». E imediatamente apontando para um lugar relativamente escondido, acrescentou: «Está ali». Quando lá cheguei já só vi o túmulo do Jim Morrison, mas do jeito que ela me falou, acredito que viesse de algum contacto de elevado grau com o próprio.

É muito pouco, eu sei, mas até ontem foi o que de melhor consegui: acreditar que estive a uns escassos metros e alguns segundos de um contacto transcendente com o Jim. Claro que para uma existência tão pobre nessas matérias muito tem contribuído uma grande dose de ceticismo da minha parte. Um ceticismo congénito e alimentado ao longo das minhas já consideráveis décadas de existência. Acredito que seja uma grande limitação minha e não a confessaria aqui se não fosse para deixar claro que qualquer manifestação nessa direção, ainda que ténue, merece ser levada em consideração.

Era precisamente aqui que queria chegar: se um cético da minha estirpe, que nunca conseguiu ver nada de transcendente — e mesmo quando viu não acreditou — agora lhe confessa acreditar que algo de tenebroso está para acontecer, parece-me que qualquer pessoa minimamente razoável só pode ter uma atitude: dar-lhe crédito. Literalmente.

Não sei o que se passou comigo durante a noite passada, mas sei que hoje de manhã despertei com uma sequência de misteriosos números na cabeça: 21122012. O mais estranho é que esses números me foram zumbidos ao ouvido pela abelha Maia. A princípio não liguei, pois era ainda muito cedo e nem suspeitei que já estivesse acordado, mas depois que liguei os neurónios e parei para refletir...  21 12  20 12... abelha Maia... óbvio não é? A profecia Maia... o fim do mundo! Felizmente a querida abelhinha não só zumbiu esses números ao meu ouvido — acho que foi o esquerdo —, como se dirigiu de imediato para cima do melhor manual de Teoria dos Números que tenho em casa.

Foi para mim claro que a Maia queria dizer-me que se o problema estava na terrível combinação de números, era nesse livro que eu deveria encontrar a resposta. Não fiquei parado — como poderia? —, estudei profundamente o problema, enchi várias páginas de cálculos e cheguei à seguinte solução: 0018 0004 19892068020 05. Coincidência das coincidências, trata-se do meu NIB! Podia tentar explicar-lhe em detalhe o processo que me conduziu a este número mágico, mas o tempo é escasso e é melhor irmos diretos ao que interessa: se quer investir na sua salvação, transfira tudo o que tem para essa conta — eu já faço isso há anos. E para que acredite que não há o menor grau de charlatanismo nesta história, aqui deixo a minha solene promessa de que, falhando a solução, eu devolvo 100 vezes aquilo que investiu na sua salvação. É mesmo isso, se a minha solução falhar e o mundo acabar, eu devolvo-lhe 100 vezes o que transferiu para a minha conta. Pense bem, pois nem nos seus tempos áureos o BPN dava lucros desta ordem a Cavaco & Associados!

3 comentários:

  1. Hum, Teoria dos Números e um também pouco de Processos Estocásticos, ou estou a ver mal? ;)

    Deixo os meus desejos de um Bom Natal e de um Feliz Ano Novo, porque esses podem na mesma existir depois da profecia, nem que seja de outra forma! ;)

    Beijos

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    1. Processos Estocásticos desta vez não foram levados em conta. Foi essencialmente Teoria dos Números pura e dura, com alguma Teoria das Catástrofes à mistura.

      Agradeço e retribuo os votos de Boas Festas!

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  2. Bem engendrado :) E mais um ponto por teres mencionado o Jim. Não é que já tenha tido alguma experiência esotérica, nem sequer estive em Père Lachaise...

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