quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A cena do presépio

Diz com alguma frequência quem na vida passa a desempenhar o papel de progenitor que forma de amor maior não há do que o amor sentido por um rebento. Sendo provavelmente essa uma grande verdade, não é menos verdade que o objeto desse amor tão singular é muitas vezes utilizado como veículo transmissor de missivas em diversos diferendos entre os progenitores macho e fêmea.

Imagine-se uma cena familiar num final de tarde de novembro, com mãe, pai e uma filha em idade escolar. A menina acaba de chegar da escola, larga a mochila e dirige-se à cozinha, onde a mãe prepara o jantar e o pai aguarda o jantar preparado. Cumprimenta os pais quase mecanicamente e encosta-se a um canto amuada. O pai pergunta-lhe:
— Que se passa?
— A peça de Natal...
— Não conseguiste papel?
— Consegui.
— Então porquê essa cara?
— Queria um papel, mas não o que me deram.
— Que papel foi esse?
— De vaca... Vou fazer o papel de vaca!
— Deixa lá, filha, o importante é participar.
— Pois, mas a Inês vai fazer de Virgem Maria!
Apesar do facto não ser importante para o desenrolar da história, não será de todo despropositado assinalar que essa tal de Inês era a melhor amiga da menina — e talvez o recíproco não fosse assim tão verdade.

O papel de vaca, mesmo que a do presépio, não é papel que um pai possa ter muito orgulho para a representação teatral de uma filha. No entanto, pretendendo desenvolver na menina mecanismos de racionalização, o pai tenta fazer com que ela veja naquela adversidade um lado positivo:
— Não é um papel tão simples quanto possa parecer!
— Não?!
— A história do cinema está cheia de grandes papeis onde os atores praticamente não dizem nada.
— Pai, é o papel da vaca do presépio: vou ficar quieta o tempo todo a bafejar o boneco que faz de menino Jesus e de vez em quando dizer muuuuu. Só isso!

Este é o momento chave. A partir daqui não fica claro se o discurso do pai é apenas fruto do amor paternal, visando o conforto da filha, ou passa a utilizar a conversa como forma de reacender a fogueira de velhas querelas com a mulher. Diz o pai:
— O papel é muito exigente para uma menina. Imagina tu a dificuldade de teres que ficar caladinha o tempo quase todo. As pessoas do sexo feminino têm uma relação muito difícil com o silêncio!
A mãe, que não tinha qualquer tipo de problema auditivo e naturalmente tinha escutado toda a conversa, conseguiu, com algum esforço, manter-se em silêncio. A menina dirigiu-se à mãe:
— Que achas, mãe?
— Não sei... Mas pensa que podia ser pior: se fosses menino, talvez te calhasse o papel de burro!
Não fica também claro se a mãe tentava com esta resposta enviar alguma missiva ao pai da menina. Mas é certo que o amor maternal por vezes também tem as suas fraquezas.

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