quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta aberta ao mago Gaspar

Escrevo estas palavras com o intuito de lhe pedir um favor. Não mais do que um singelo favor. É muito provável que pense que não me deve favores nenhuns, mas analisando bem a situação, facilmente chegaremos à conclusão de que já tenho algum crédito quanto a isso. Ora vejamos: por um lado, desde que o senhor encabeçou este governo de devotos do confisco e passou a ditar as suas impiedosas leis fiscais, já me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá) um respeitável quinhão de rendimentos; por outro lado, nas altas esferas financeiras que o senhor tão bem conhece e venera, dinheiro e favores são duas faces da mesma moeda. Confio na sua prodigiosa inteligência para que chegue à conclusão certa...

Desde já esclareço que não escrevo estas linhas com o intuito de lhe pedir que me devolva — ora aí está um verbo que o senhor muito gosta de deturpar — o dinheiro que me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá), porque do jeito que a realidade que nos quer impor perdeu qualquer sentido de verdade, acredito mais que um rei Gaspar apareça no dia 6 de Janeiro no Palácio de Belém montado num camelo carregado de ouro, incenso e mirra do que o senhor, mago Gaspar, montado no seu coelho, sequer pense deixar de tomar (confiscado ou roubado, o senhor dirá) aquilo que me é devido. São apenas rendimentos do trabalho que o senhor veementemente despreza — os rendimentos, não trabalho, claro —, não são fruto de sagazes jogadas de alta finança, daí a minha descrença.

Fazendo uma pequena análise da sua atuação ministerial, facilmente constatamos que o senhor entrou na lide como o grande mago que chegava para nos salvar do descalabro financeiro. Contudo, à medida que as suas receitas e a realidade se foram mostrando inconciliáveis — algo que muitos desde cedo previram e o senhor provavelmente também, mas nunca disse —, o senhor foi paulatinamente dirigindo a sua atuação para o campo da política.

Atuação política fraca e profundamente demagógica, diga-se de passagem. Primeiro, querendo pintar-nos como um rebanho de ovelhas bem comportadas, depois querendo o senhor mesmo colocar-se no papel de cordeiro em dívida para com as outras ovelhas do rebanho e, ultimamente, querendo pintar de negro as ovelhas com voz dissonante da sua. É verdade, da sua miserável atuação política faz parte essa tentativa recente de fazer passar uma visão maniqueísta da cena política nacional — com os bons à direita e os maus à esquerda, obviamente. Se for para pintarmos uma visão maniqueísta da cena, o que melhor distingue os políticos portugueses da atualidade não é a tendência de direita ou de esquerda, mas sim o caráter: os que o têm e os que o não têm! E, para nosso grande mal, os da bancada da maioria estão todos — talvez com uma honrosa exceção — do lado do não!

Simultaneamente com as medidas de austeridade que o senhor impiedosamente nos tem imposto vem sempre, ao jeito de banda sonora no seu tom pausado e monocórdico, essa lengalenga de que é necessário cortar nos benefícios sociais para corrigir o défice da república. Poderia ser. Mas não é. Já toda a gente — o senhor incluído — se apercebeu de que, do jeito que a situação evolui, a correção do défice vai ficar para as calendas gregas. E qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe que o caso não é o corte no estado social ser o meio inevitável para atingir o objetivo do défice, mas sim o défice ser uma ótima desculpa para atingir os cortes no estado social. Ninguém duvide que os seus fiéis amigos do investimento anseiam pelo momento em que o estado social seja desmantelado e servido em bandejas de ouro para eles se banquetearem.

Posto que o seu mago conhecimento técnico se está a revelar ineficiente, a sua desastrosa atuação política cada vez mais nos desconcerta e entramos em quadra natalícia — época em que sentimentos nobres por vezes falam mais alto —, acalento a esperança de vê-lo aceder ao favor que lhe peço. Tão singelo quanto isto: bata com as portas, largue o inqualificável coelho a pastar nas suas desqualificadas relvas e deixe-nos em paz!

Pode esquecer a sua dívida de gratidão para com Portugal, pois este bom povo também facilmente a esquecerá. Pode até partir montado no tacão alto da sua altivez, seguro de que não foram os gráficos e as folhas de Excel que não se adaptaram à nossa realidade, mas sim a realidade que não teve um mínimo de capacidade para adaptar aos seus excelentes gráficos e folhas de Excel. O importante é que vá... que parta! E não tenha problemas de consciência por nos deixar ao Deus dará. Com a matriz católica que nos caracteriza, depois que nos virmos livres da tragédia grega que nos impõe o senhor e a sua legião do confisco, facilmente acreditaremos que Deus novamente algo de bom nos dará — quase nove séculos de existência já dão algum conforto quanto à sobrevivência mesmo sem magos. Talvez mais uma breve ilusão, pouco importa. Afinal, o que seria da vida sem ilusões? É que já não são só os rendimentos que nos toma (confiscados ou roubados, o senhor dirá) que me preocupam: com o senhor por muito mais tempo no poder serão as últimas réstias de esperança que se esvaem. E sem esperança não há futuro!

4 comentários:

  1. Ontem tive um sonho… sonhei que andava pela rua no meio de uma multidão eufórica… era levado pela torrente de gente, de um lado para o outro, sem aparente sentido ou destino… depois percebi que íamos indo de casa para casa, e que de cada uma dessas casas saiam pessoas… mais tarde, depois de várias viagens destas, rumamos ao aeroporto de Lisboa… aí a multidão imensa cantava, dançava e festejava… finalmente percebi quem eram as pessoas que tinham saído de casa após cada visita daquela multidão errante, que deambulava pelas ruas… eram ministros, secretários de estado e outros membros do governo… estavam a ser conduzidos a um avião que estava na pista… foram entrando entre canções e aplausos… depois chegaram o Cavaco, o Passos, o Relvas, o Portas e o Gaspar… foram também eles encaminhados, ainda meio atarantados, para o avião… finalmente a porta do avião fechou-se e este afastou-se e levantou voo… no ar, entre vivas e aplausos, ouvia-se uma canção, cantada a plenos pulmões: boa sorte, boa sorte eu vos desejo de todo o coração… boa sorte, boa sorte … Entretanto, acordei… não me lembro de mais nada, nem sei qual foi o fim daquela história… Mas ficou-me na memória, o sentimento de alívio e de esperança, e o espírito de união que pairava sobre toda aquela multidão… precisamente tudo aquilo que não encontro, nem vislumbro, neste país real… triste, cansado, acomodado e desanimado…

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    1. Espero que tenha sido uma viagem de ida sem volta! Para bem longe...

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