quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Relato de um episódio não ocorrido

Não tenho por hábito abordar aqui temas relacionados com as minhas aulas, nem com o comportamento dos meus alunos — nem alunas. Não porque que não surja nada digno de registo, mas porque não pretendo dar azo a que se notem nos meus relatos detalhes que comprometam a reputação de quem quer que seja — especialmente a minha. Não vá o diabo tecê-las!

Não posso relatar nada de verídico sobre o caso de uma aluna que veio ao meu gabinete ver a correção de um exame de Álgebra, pelo simples motivo de que nunca lecionei essa disciplina. Por conseguinte, não me comprometerei se disser o que quer que seja sobre o hipotético comportamento de uma aluna que não veio à minha sala ver a correção do exame de uma disciplina que nunca lecionei. Nem a aluna chegou perguntando:
— Professor, posso ver a correção do meu exame?
Como ela não perguntou, eu também não respondi:
— Pode sim, claro — e nem acrescentei: — qual o seu nome?
Como eu não perguntei, ela também não respondeu:
— Maria do Céu Formosinho.
Nem eu lhe disse:
— Aqui tem o seu exame.
E, neste ponto, ela não comentou:
— Não sei o que se passa comigo. Tento, tento, mas não consigo fazer esta disciplina!
Nem eu respondi:
— Talvez não esteja a tentar do jeito certo.
Não teria dito isto, é óbvio, pois não cometeria a imprudência de deixar ao critério da aluna a possibilidade de uma interpretação maliciosa que me comprometesse a reputação. Como eu não disse, ela também não perguntou:
— De que forma, professor?
Nem eu tive que responder:
— Não há uma forma universal. Reveja bem o seu método de estudo.
Como esta conversa não aconteceu, também não passei depois pelo embaraço de vê-la tomar uma postura mais ousada na minha frente, de saia curta e perna trançada, a lamentar-se:
— Estes grupos e corpos estão a tirar-me do sério!
Nem eu senti necessidade de acrescentar:
— Não esqueça os domínios de integridade.
Não tendo a conversa chegado a este ponto, a aluna não teve também a ousadia de se inclinar ligeiramente sobre a minha mesa, com a generosa dianteira em riste, sussurrando-me em tom de proposta:
— Faço tudo que o professor quiser para resolver isto de uma vez por todas!
Não foi embaraçoso, porque não aconteceu. E nem eu tive que refrear os ímpetos da aluna:
— Não precisa de chegar a tanto. Só com estudo chegará lá!

Nunca será demais recordar que nada disto aconteceu. E se é verdade que o desfecho da história poderia deixar em evidência os meus bons valores éticos e morais, não é menos verdade que poderia também deixar em causa outro tipo de valores. Repito: trata-se do relato de um episódio não ocorrido!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O grissino

Havia já alguns minutos que ambos permaneciam em silêncio naquele restaurante italiano. Ela observava-o atentamente, enquanto ele, com o olhar distante, se entretinha com os aperitivos.

Não foi o facto de ele ter esquecido a data do aniversário de casamento que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que os homens esquecem com facilidade datas importantes. Mesmo as datas inesquecíveis.

Não foi o facto de já só muito esporadicamente — cada vez mais esporadicamente — ele lhe dar a possibilidade de sentir o seu vulcão em erupção que a fez desconfiar que algo não estava a  funcionar bem entre eles. Afinal, ela sabia perfeitamente que a caldeira vulcânica masculina por vezes pode perder vapor. Mesmo na presença de uma mulher como ela.

Não foi o facto de ele, ultimamente, ter tido algumas saídas imprevistas e chegadas tardias — relativamente mal explicadas — que a fez desconfiar que algo não estava a funcionar bem entre eles. Afinal, ela confiava cegamente no seu olfato e sabia que, se houvesse encontros com outra mulher, ela sentiria o odor da traição. Mesmo que nesse odor não houvesse perfume de marca com fixador potente.

O que realmente a fez desconfiar — ou talvez mais do que isso — que algo não estava a funcionar bem entre eles foi a forma comprometedora como ele, com o pensamento sabe deus onde e expressão de quem recordava um momento de profundo prazer, acariciou na boca aquele grissino.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ciúmes retroativos

«Oh ciúme! Tu magnificador de ninharias»
F. Schiller

Mesmo sabendo que a malfadada crise que atinge o país se propagara até à falta de neve na Serra da Estrela, os três casais não deixaram de cumprir a tradição de se deslocarem umas centenas de quilómetros para celebrarem a Passagem de Ano lá no alto da nação. Depois de uma tarde bem passada a deslizar ladeiras abaixo  —  com a força da gravidade, a escassez de neve acaba por ser um mero detalhe  —  em trenozinhos de plástico, foi no hotel da praxe que contaram as badaladas e as passas e perderam a conta às bebidas. Eles já se encontravam razoavelmente ébrios quando elas sugeriram que recolhessem aos aposentos. Era obviamente cedo para eles. Resistiram. Acabaram por subir elas. Eles ficaram a tentar aproveitar até à última gota.

Já não se lembravam muito bem porquê, mas sabiam que o momento era histórico. Quiçá para assinalá-lo de forma inolvidável, começaram a fazer algumas revelações surpreendentes. Primeiro foi o Belmiro:
— Lembram-se daquela professora jovem de francês? Uns anos mais tarde encontrei-a numa festa e beijei-a.
— Tu também?!  —  ripostou o Abílio.
A risada provocada foi interrompida pela revelação do Cardoso que, empolgado, quis ser ainda mais surpreendente:
— E eu beijei a Rosinha!
A Rosinha? A Rosinha é a mulher do Abílio!

O Cardoso nem precisou de ver as expressões do Abílio e do Belmiro para ter ficado com a sensação de que talvez tivesse sido uma idiotice ter feito aquela revelação. O Belmiro teve a certeza de que a revelação do Cardoso foi uma idiotice. E o Abílio, colhido de surpresa, ficou por breves instantes a pensar se fingia não ter ouvido a idiotice do Cardoso ou lhe saltava ao pescoço. Antes que o Abílio tomasse a decisão de saltar ao pescoço do Cardoso, o Belmiro, que sabia do episódio, tentou amenizar:
— Ah, Abílio, eram dois adolescentes. Ciúmes retroativos não fazem sentido!
— É!  —  enfatizou o Cardozo.
Ninguém sabe o que ficou na cabeça do Abílio, mas uns copos a mais ajudaram-nos a contornar a delicada situação.

Na manhã seguinte, a Rosinha estranhou ver o Abílio deitado na cama durante largos minutos com o olhar fixo no teto.
— Que se passa?
— Tu e o Cardoso...
— O que é que tem?
— Já vos beijastes?
— Como?!
— Responde!
— Éramos dois adolescentes...
— Não sabia, podias ter contado.
— Ah, Abílio, ciúmes retroativos não fazem sentido!
O Abílio pareceu concordar: ciúmes retroativos não fazem sentido.

Contudo, pelo sim pelo não, quando desceram para tomar o pequeno-almoço com os outros dois casais, o Abílio fez com que a Rosinha e o Cardoso não se sentassem lado a lado. Nem frente a frente. Na frente do Cardoso sentou-se precisamente o Abílio. E, durante o pequeno-almoço, olhou várias vezes para a Rosinha e para o Cardoso tentando detetar sinais comprometedores. Mas não detetou nada. Tamborilava com os dedos na mesa. E tentava convencer-se de que ciúmes retroativos não fazem sentido.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Alexandre, o grande, e a geleia de abóbora

Escreveu um dia Fernando Pessoa que «para ser grande sê inteiro». E acrescentou — meio em jeito de explicação — que «nada teu exagera ou exclui». É provavelmente para fazer jus a essa sentença pessoana de grandeza que o Alexandre do Pingo Doce não receia mostrar todas as suas facetas: tanto aparece num discurso moralista dizendo, entre outras coisas, «que se tem vindo a perder a noção de ética e do comportamento social responsável» como, poucos meses depois, manda o  «comportamento social responsável» às laranjas e coloca o grupo Jerónimo Martins  — detentor dos supermercados Pingo Doce — com sede fiscal num lugar onde a contribuição social para resolver a crise que nos escalpa será bem menos contributiva.

Perante a traição à pátria perpetrada pelo Alexandre que dirige o Jerónimo Martins  — que por vezes eu confundo com o líder do PCP  —, não tardou a surgir uma onda de indignação em redes sociais e caixas de comentários de blogs e jornais, com juras do tipo «não compro mais no Pingo Doce».  Eu próprio cheguei a pensar aderir a essa onda e boicotar o Pingo Doce. A primera coisa que me freou um pouco o ímpeto foi não ter descortinado nos supermercados que tenho por perto algum — único que seja — que tenha a sede fiscal em Portugal: Froiz (Espanha), Intermarché (França), Jumbo (França), Lidl (Alemanha), Minipreço (França) e Modelo Continente (Holanda), todos com sede fiscal a léguas. E outros não tenho por perto.

Mesmo consciente da falta de alternativas, cheguei a pensar aderir ao boicote. Afinal, há já muito tempo que perdi a ilusão de querer ser sempre justo na minhas escolhas e não seria uma certa dose de falta de critério justo numa mera escolha de supermercado que pioraria muito a já assumida carência de ilusão. Além do mais, a hora é de luta e o grupo do Alexandre é o único que deserta na hora em que os ladrões eleitos, em nome da crise, mais me entram no bolso.

Mas o que realmente me demoveu da intenção de boicotar o Pingo Doce foi uma geleia de abóbora. Sim, lá no Pingo Doce há uma geleia de abóbora — não me lembro da marca, mas mesmo que me lembrasse não diria, pois publicidade aqui só paga — que combina na perfeição com o pão matinal produzido pela minha panificadora doméstica. Enquanto não encontrar noutro supermercado geleia de abóbora tão saborosa como aquela, poderei até prometer não comprar outros produtos no Pingo Doce, mas a geleia de abóbora nunca deixarei de comprar.

E por causa dessa geleia de abóbora não jurei uma postura radical de boicote ao Pingo Doce, em sintonia com um «comportamento social responsável» e interventivo contra traidores da pátria. Admito que ultimamente o meu coeficiente de patriotismo também tem andado um pouco por baixo.