quarta-feira, 30 de maio de 2012

É o Zé!

A Mariazinha era frequentemente apontada como exemplo modelar de menina bem comportada. Passou a delicada fase da adolescência sem suscitar qualquer tipo de problema, tornando-se mesmo motivo de orgulho para os seus pais e objeto da inveja dos pais de outras meninas da sua idade. Até que um dia...

Tudo começou com indisposições e vómitos frequentes. Consultado o médico de família, o veredicto abateu-se como maldição sobre o bom nome da família: «a Mariazinha está grávida». O pai vociferou palavras horrendas, a mãe teve um ataque de nervos e ambos sentiram uma enorme necessidade de punir exemplarmente o malvado que teve a desfaçatez de introduzir tamanha impureza na até então tão pura Mariazinha.

«Quem é o pai?» tornou-se uma pergunta insistente à qual a Mariazinha não dava resposta. Na verdade, a Mariazinha não sabia responder. Mas a pergunta foi repetida tão insistentemente que, não tendo resposta para dar, a Mariazinha sentiu-se coagida a inventá-la: «o pai é o Zé!».

A responsabilidade por ato tão ignóbil recaía assim sobre um ajudante de carpinteiro que por aqueles dias trabalhava na remodelação da casa dos pais da Mariazinha. O Zé, inicialmente sem entender o que podia ter feito de tão grave para que sobre ele se abatesse, de forma intensa, a ira dos pais da Mariazinha, logo se apercebeu que só lhe restava uma solução: casar com a Mariazinha. Nada mal para o pobre Zé, que até então nunca lhe tivera passado pela cabeça vir a desposar fruto de tão superior casta.

Os primeiros tempos foram muito difíceis para o jovem casal. Além do desprezo da família da Mariazinha, tiveram que lidar com a discriminação dos conterrâneos. Confrontados com tais adversidades, decidiram mudar-se para uma terra muito distante, tendo que sobreviver apenas com os rendimentos do Zé como carpinteiro.

À medida que o menino (sim, nasceu um menino) crescia, começavam a notar-se no petiz qualidades inigualáveis como grande líder de massas. E não tardou muito para que, fruto de uma excelente capitalização dessas qualidades, o menino (já crescidinho...) e os pais viessem a granjear posição de grande admiração e destaque, primeiro na cidade, depois no país e, finalmente, em todo o mundo. Repito, em todo o mundo!

Moral da história: se uma filha aparecer de esperança, mesmo que de um pobre ajudante de carpinteiro, tenhamos elevação de espírito e tentemos manter firme a esperança, pois, mesmo assim, o futuro da família pode ser divino!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cotovelos

Os cotovelos são das partes mais injustiçadas do corpo humano. Trabalham que se fartam o tempo todo (podendo chegar ao ponto de serem revestidos por uma pele que mais parece de paquiderme), dão trombadas com elevada frequência (que lhes causam dores terríveis) e depois são utilizados numa metáfora para um sentimento tão vil como o da inveja. Ou numa outra para a tagarelice.

Em nome de alguma justiça corporal, os cotovelos mereceriam de todos nós maior consideração (além de lubrificações regulares com creme para diminuir a aspereza da pele). Enaltece-se o aspeto e desempenho de olhos, boca, mãos, pernas e outras partes que nem preciso mencionar, mas que valor se dá aos cotovelos? Eu contra mim escrevo: em toda a minha vida não tive mais do que três momentos de ponderação sobre a importância dessas articulações. E o terceiro deles foi agora mesmo para escrever este texto.

O primeiro momento de consciência sobre o valor dos cotovelos tive-o numa idade compreendida entre a suficiente para já saber o que queria e a insuficiente para ter o que gostaria. Estudava com uma colega relativamente desenvolvida para a idade (e particularmente avantajada quanto a determinado atributo físico). No momento em que ela, do meu lado direito, se debruçou para entender melhor algo que eu escrevera no meu caderno (talvez a solução de uma equação de grau elevado para a época...), o meu cotovelo direito experimentou uma das sensações de contacto interpessoal mais excitantes até essa idade. Não foi muito, mas por vezes é em pequenos detalhes inesperados que residem os maiores prazeres. E este obtive-o através do cotovelo. O direito.

A história anterior não é das melhores, mas enaltece o valor do cotovelo no despertar para as sensações de prazer num adolescente. E já que chegou até este ponto (muito obrigado!) merece ser recompensado com uma história mais edificante. 

O segundo momento em que fui levado a meditar sobre a importância dos cotovelos foi na minha primeira visita ao Brasil. Decorria uma campanha televisiva sobre algo que, julgo eu, andaria em torno da solidariedade. Algumas personalidades apareciam esporadicamente na televisão a contar pequenas histórias que tocassem (sentido figurado!) o telespectador. Uma dessas histórias foi contada por Tom Jobim. Versava sobre um homem que, tendo morrido, antes de seguir a merecida trajetória, foi conduzido (por S. Pedro, suponho) a visitar o inferno e o céu. Chegado ao inferno, viu uma enorme mesa, cheia de comida e bebida (tudo do bom e do melhor) e muita gente à volta da mesa a olhar a comida sem poder tocá-la, apesar do ar faminto de todos eles. Motivo? Todos tinham os cotovelos ao contrário. Um inferno. Posteriormente o homem foi levado ao céu. Aí observou aquela que, num primeiro relance, lhe pareceu ser uma cena igual à do inferno: uma enorme mesa, comida e bebida à farta sobre uma enorme mesa e muita gente ao redor da mesa com os cotovelos ao contrário. Não escondendo o espanto pela semelhança com o que acabara de observar no inferno, foi alertado para um detalhe que lhe escapara: cada um utilizava os seus braços para alimentar o vizinho do lado.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Espírito missionário

O Francisco olhou o bilhete, olhou a inscrição por cima do assento, olhou novamente o bilhete e sentou-se no lugar que lhe estava reservado. Com indisfarçável satisfação. Desta vez tinha-lhe tocado em sorte uma companheira de viagem com excelentes atributos físicos. Ainda antes do comboio ter seguido marcha já o Francisco lhe tinha tirado as medidas, sentido a fragrância e apreciado a tez sedosa e morena.

Enquanto executou — de forma subtil, mas não totalmente discreta — esse rastreamento interpessoal, ela permaneceu imóvel. Com óculos escuros e olhando na direção da janela, pareceu ao Francisco que ela tinha o olhar preso em algum ponto do infinito. Talvez dormisse. Não: entre o aro dos óculos e o rosto dela, o Francisco pôde notar um olho a pestanejar.

A forma ligeiramente descuidada de vestir — que nem por isso a fazia pouco sedutora —, o cabelo mal amanhado, o olhar sempre fixo e distante, pareceram ao Francisco sinais inequívocos de alguma tristeza. Dado que ela mantinha as mãos entrelaçadas no regaço, o Francisco não pôde observar os seus dedos de forma totalmente esclarecedora, mas pareceu-lhe mesmo ver no dedo anelar dela uma marca mais clara de alguma aliança recentemente retirada. A marca de uma separação, pensou ele. Talvez carregue ainda a dor profunda de um namoro mais sério, de um noivado ou até mesmo de um casamento que acaba de romper-se, pensou o Francisco.

O Francisco sentou-se naquele lugar com doses de confiança e de espiritualidade mais do que suficientes para rapidamente entabular uma conversa cativante com a sua ocasional companheira de viagem, mas à medida que foi notando nela sinais de tristeza foi também perdendo o seu elã. Uma hora depois o Francisco abandonou o seu lugar no comboio e desceu para a plataforma sem que ela tivesse removido o olhar do tal ponto algures no infinito nem ele lhe tivesse dirigido uma só palavra.

Censurou-se por não ter sequer tentado dar-lhe algum conforto. Despretensioso, claro está. Num mundo de tanta impessoalidade, de tanta solidão, talvez aquela jovem mulher precisasse de uma palavra reconfortante ou até mesmo de um novo olhar de esperança sobre o futuro, pensou o Francisco. Num mundo onde tanta gente — especialmente idosa — sofre por falta de um mínimo de atenção, louve-se o espírito missionário que nesse momento pareceu despontar no Francisco — esta parte não pensou ele. 

Já na plataforma, ele parou e olhou para trás, na direção da janela da carruagem onde ela tinha permanecido para continuar viagem. Nesse instante, ela levantou ligeiramente a mão e dirigiu o olhar na direção do Francisco. Simultaneamente, soltou uma risada e deu um tchauzinho.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Viciados em palmas


Não sei se proveniente de algum traço específico na carga genética dos portugueses, mas parece-me inquestionável haver na idiossincrasia deste nosso povo algo que nos caracteriza como invulgarmente viciados em palmas. Isso mesmo: clap, clap, clap...

As palmas são, provavelmente, a forma mais universal de demonstrar apreço por uma boa execução em diversas áreas de expressão artística. Muito em particular, na área musical. Mas podem também as palmas ser um excelente instrumento de percussão numa execução musical. No flamenco ou na rumba, por exemplo, são batidas de forma intercalada, no tempo e no contratempo, para conferir maior vivacidade ao ritmo. No samba de roda do recôncavo baiano são batidas de forma sincopada para acrescentar maior complexidade ao ritmo. Em Portugal, surgem frequentemente nas salas de espetáculo para acrescentar monotonia ao ritmo, sendo batidas pelo público no tempo forte de cada compasso, muitas vezes abafando o som dos artistas ou atrapalhando-lhes a execução.

Se dúvidas houver, escute-se a gravação da Deolinda ao vivo no Coliseu do Recreios. Não há por lá uma só música mais ritmada que a plateia — camarotes, balcão e galeria incluídos — não faça acompanhar com as suas inestimáveis e ruidosas palmas. Em alguns temas torna-se difícil descobrir se as palmas surgem para demonstrar apreço pelos executantes ou para os testarem na introdução de variações rítmicas ao longo de uma mesma canção. A gravação é de 2011, o Coliseu é o de Lisboa, mas há vários anos que tenho detetado esse vício também nas salas de espetáculo do Porto. E quase sempre com desagrado.

O vício dos portugueses pelas palmas é de tal forma acentuado que passaram também elas a ser a forma predileta de assinalar o minuto de silêncio — note-se o detalhe irónico da terminologia — nos estádios de futebol por este país fora. Minuto de silêncio esse que, quando muito, dura uns dez segundos. Ao décimo primeiro já todos os presentes no estádio, em pé, rendem a sua estrondosa salva de palmas ao homenageado. Não soubesse eu que os portugueses têm, por natureza, uma certa tendência para o culto da tristeza e acharia que o objetivo de tal ato era transformar em alegre um pretenso minuto de pesar. Mas a verdade é que se trata apenas de vício. Vício por palmas. Não é de admirar que as proíbam no fado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Magret de pato


Os jantares entre os dois casais iam acontecendo com certa regularidade ao longo dos anos, ora numa casa ora na outra. De todas as vezes, os anfitriões esforçavam-se para que não houvesse repetição do prato principal de algum dos jantares anteriores. Uma mera questão de orgulho e vaidade que, obsessivamente, tinha sido elevada ao patamar de uma questão de honra!

Desta vez tocava ao Faria e à Maria Alice receberem o Basílio e a Sandrinha em casa. Com a colaboração do Faria, a Maria Alice tentava escolher um prato principal — diferente de todos os anteriores, evidentemente — para o jantar do dia seguinte. O Faria, que era bastante metódico e não suportava ver a Maria Alice tensa, tinha passado a apontar as ementas de jantares anteriores num velho bloco de apontamentos. Após alguns pratos excluídos, por constarem da providencial lista de anotações do Faria, a Maria Alice avançou com mais este:
— Magret de pato.
O Faria olhou a lista de cima a baixo e de baixo a cima e sentenciou:
— Esse nunca fizeste para eles!
— Tens a certeza? — questionou a Maria Alice.
Desconfiar da memória do Faria era uma constante na Maria Alice. Mas desconfiar daquilo que o Faria tinha acabado de ler — ou de não ler, para ser mais exato —, também já era demais!
— Certeza absoluta! — respondeu o Faria.
— Vê bem — ripostou a Maria Alice.
— Já vi e revi: não consta da lista! — contrapôs o Faria com irritação.
Se o Faria era metódico, a Maria Alice era, por método, desconfiada. E a combinação de um com o outro nem sempre resultava num ambiente de saudável harmonia conjugal.

Quando, no dia seguinte, a Maria Alice colocou em cima da mesa de jantar a travessa com o magret de pato acabado de confecionar, o Basílio e a Sandrinha — imediatamente e em simultâneo — proferiram um expressivo «hum, que delícia!». A Maria Alice olhou-os e disse:
— Espero que gosteis de magret de pato.
— Muito — afirmou a Sandrinha.
— E esse que tu fazes é uma delícia! — complementou o Basílio.
O complemento do Basílio caiu sobre a Maria Alice como balde de água fria.
— Já fiz este prato para vós? — perguntou a Maria Alice visivelmente desagradada.
— Sim — respondeu a Sandrinha.
— E estava maravilhoso! — acrescentou o Basílio.
O elogio ao prato da Maria Alice, que numa situação normal teria servido para deixá-la agradada, serviu, em vez disso, para deixá-la bastante agastada. De imediato, a Maria Alice lançou um olhar fulminante sobre o Faria e abanou a cabeça num jeito de quem diz «seu inútil, nem para isso serves». O Faria apenas encolheu os ombros. Sabia que esta história não iria ficar por aqui!

O resto do jantar decorreu com indisfarçável desconforto para os da casa: a Maria Alice sem esconder a frustração pelo prato principal repetido e o Faria sem entender como tinha esquecido de apontar esse prato na sua lista. Enquanto isso, o Basílio e a Sandrinha, alheios ao mau ambiente entre os anfitriões, deliciavam-se com o magret de pato excelentemente confecionado — e as ótimas sobremesas que lhe sucederam. A Maria Alice era, inquestionavelmente, uma cozinheira de eleição!

Logo que entraram no elevador, a Sandrinha beijou o Basílio com satisfação. E exclamou:
— O nosso plano saiu perfeito!
— Acreditaram mesmo que estavam a repetir o prato — acrescentou o Basílio.
— Vais ver: da próxima vez que a Maria Alice for jantar em nossa casa, vai chegar com o nariz menos empinado — rematou a Sandrinha.
Beijaram-se mais uma vez. Celebravam dessa forma a execução irrepreensível de um plano muito bem gizado.