quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O amor à porta

A interdição de fumar em bares e restaurantes foi interpretada pelo Matias, que fuma, como uma excelente oportunidade para as suas investidas de homem faminto. Por força das circunstâncias, rapidamente descobriu que a porta de alguns bares e restaurantes tinha passado a ser o local mais apropriado para a prospeção de comida.

Foi assim que conheceu a Lurdinhas. Antes ainda do Matias se ter levantado para ir à porta fumar — depois que a viu a Lurdinhas fazer o mesmo —, já os olhares deles se tinham cruzado dentro do restaurante. Inevitavelmente, também as palavras se cruzaram à porta do restaurante. Fluíram de tal forma que o Matias e a Lurdinhas acabaram por fumar vários cigarros de uma assentada antes de retornarem às respetivas mesas. E no telemóvel de cada um veio já registado o contacto telefónico do outro e fotos tiradas para anexarem aos contactos.

Além do vício comum pelo tabaco, nessa mesma noite começaram a desenvolver o vício um pelo outro. Três dias depois — praticamente dois, se levarmos em conta que as primeiras palavras foram trocadas à porta do restaurante já perto da meia-noite— já estavam a morar juntos. A química da nicotina fez disparar a química do amor. Um caso flagrante de amor à primeira vista — ignorando o detalhe dos olhares do Matias e da Lurdinhas já se terem cruzado no interior do restaurante, claro está.

Nove meses depois nasceram gémeos. Um menino e uma menina. Nicolau e Albertina. Nico e Tina, mais carinhosamente. Asseguram que os nomes surgiram de forma natural — tão natural como o amor instantâneo que os uniu — como consequência de gostos surpreendentemente coincidentes, mas há quem note nas escolhas implícita homenagem à substância viciante que os aproximou.

Um mínimo de respeito pelo Nico e pela Tina fez com que, após os nascimento, o Matias e a Lurdinhas tivessem deixado de fumar dentro de casa. Passaram a fumar à porta do prédio. Ou, quando achavam que ouvir os impropérios do vizinho de cima era menos incómodo do que ter que descer até à porta do prédio, fumavam à janela.

Moral da história: esta história não tem moral nenhuma! Chega a ser um péssimo exemplo para os mais jovens, pois deixa em evidência vantagens sentimentais provenientes do vício do tabaco, menciona — ainda que ao de leve — caso de dependência humana e, como se isso não bastasse, ainda descreve — sem qualquer tipo de censura — situação comportamental que dá origem a má convivência entre vizinhos!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Oportunidades oportunísticas

O atual primeiro-ministro português disse há uns meses que o desemprego podia constituir uma excelente oportunidade para mudar de vida. E pode. Só não deixou claro se considerava a oportunidade excelente para aqueles que caíam no desemprego. Desconfio que não.

O facto não é novo. Os abutres, por exemplo, vêem numa carcaça uma excelente oportunidade para algo tão básico como a sua própria sobrevivência. Também os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001 constituíram uma excelente oportunidade para as entidades responsáveis pela gestão de aeroportos aumentarem de forma absurda as taxas aeroportuárias. Supostamente, por causa dos encargos inerentes a regras de segurança mais apertada.

Teoricamente aceitável. Quanto à prática, talvez eu não esteja a ver bem o problema — é até bastante provável que tenha uma mente demasiado maquiavélica—, mas sempre que transito em aeroportos fico com a sensação de que as tais regras de segurança mais apertadas são muito incómodas — e onerosas — para passageiros inofensivos e continuam a ser facilmente contornáveis por sujeitos mal intencionados.

Ora vejamos. Após o 11 de setembro ficou interditado o transporte na bagagem de mão de objetos que possam constituir ameaça à integridade física da tripulação. Em particular, canivetes, tesouras, corta-unhas e limas estão liminarmente proibidos. Contudo, apesar de uma garrafa de vidro bem quebrada e segura pelo gargalo poder constituir uma arma mais eficiente do qualquer uma das armas brancas que eu acabei de citar, elas continuam a ser vendidas em qualquer aeroporto que se preze. Sim, eu sei que o negócio das bebidas e perfumes em aeroportos é muito rentável e não deve ser afetado. Deve-se zelar pela segurança, mas sem prejudicar a atividade económica!

Nestas questões de controle aeroportuário, assim como em qualquer sistema de regras muito restritivas, dependendo da rigidez de quem controla, podem facilmente surgir situações absurdas. Uma das que presenciei foi no aeroporto de Lisboa, no rastreio da bagagem de mão para um embarque rumo ao Porto. Passou-se em meados da década passada, portanto, já uns anos depois do traumático — especialmente para os noviorquinos — 11 de setembro. Uns metros à minha frente, uma senhora mostrava-se indignada com um segurança totalmente inflexível: a senhora não podia embarcar com um pequeno pote — talvez acima dos 100ml permitidos para líquidos — de creme das mãos. Não bastava à senhora que aquilo fosse considerado líquido perigoso como, dizia ela, «venho de Nova Iorque e lá ninguém implicou com isto!»

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

P C de A a Z

Aldrabão
Batoteiro
Covarde
Demagogo
Enganador
Falso
Galãzinho
Hipócrita
Incompetente
Jotinha
Logro
Mentiroso
Néscio
Oportunista
Pérfido
Quadradinho
Rasca
Sonso
Teimoso
Usurpador
Vaidoso
Xacoco
Zero

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Três príncipes tristes

Durante a semana passada estive na província espanhola que dá nome ao título do príncipe herdeiro da coroa real — as Astúrias. Apesar de lá, como cá, a crise e as medidas de austeridade estarem na ordem do dia, grande destaque noticioso nos média espanhóis estava a ser dado ao nosso príncipe. Não, não estou aqui como português em estado de orfandade monárquica ansiando por uma coroa, num assomo de patriotismo transibérico, a referir-me ao Príncipe das Astúrias. Refiro-me, isso sim, ao Príncipe de Madrid, aquele que vende os pontapés que dá numa bola a peso de ouro e anda triste. Serviu a tristeza do Príncipe de Madrid para que amigos espanhóis, num momento de alguma erudição literária e bom humor, me tivessem dado a conhecer (parte de) um poema de Rubén Darío:
«La princesa está triste..., ¿qué tendrá la princesa?
Los suspiros se escapan de su boca de fresa,
Que ha perdido la risa, que ha perdido el color.
La princesa está pálida en su silla de oro».
Na viagem de volta ao Porto, já em território nacional, tive a oportunidade de seguir, via rádio, o discurso de outro príncipe português: o de Massamá. Esse discurso — horas mais tarde complementado com umas notas tristes na sua página do Facebook — provocou-me também uma associação literária: «O Príncipe Sapo», dos irmãos Grimm. Não duvido nada que, volvido pouco mais de um ano sobre a eleição do aperaltado e bem-falante Príncipe de Massamá, muitos dos seus eleitores o vejam agora como uma espécie de personagem dos irmãos Grimm, mas evoluindo ao contrário: se no famoso conto de fadas é o sapo que se transforma príncipe, neste nosso triste conto de fadas — ou de fados, quem sabe, talvez até com as vogais trocadas — é o Príncipe de Massamá que se transforma em sapo.

Num pequeno aparte, o meu pedido de desculpas a todos os sapos por esta infame associação, pois não vi até hoje na literatura científica nenhum relato sobre a existência de sapo aldrabão, prepotente ou cínico.

Voltando ao conto dos irmãos Grimm. Tanto quanto sei, a versão atual está um pouco polida em relação à original. Na versão original o sapo não se transformava em príncipe quando a princesa lhe dava um beijo, mas sim quando o atirava contra uma parede. Penso que no caso do Príncipe de Massamá, e para que se dê sequência ao triste conto de fadas ao contrário, é chegada a hora dos seus eleitores o atirarem contra alguma parede para que ele encarne na sua condição de sapo. E, para que de futuro não tenhamos que engolir muitos sapos, que se guarde como lição deste conto de fadas ao contrário, que por debaixo de um príncipe de falas mansas, sorrisos simpáticos e cabelos bem pinteados pode estar um tremendo sapo.

Nestas minhas alusões a príncipes, ilusões e tristezas do Portugal contemporâneo, não podia deixar de fazer uma breve referência ao Príncipe de Paris. Aquele que, após seis anos nos quais nos enredou em complexas teias de engenharia civil e financeira, resolveu recolher-se para estudos filosóficos em Paris. Tem estado adormecido, mas imagino que também esteja triste. E já que o momento é de associações literárias, o que me ocorre quando penso no Príncipe de Paris é «A Bela Adormecida Vai à Escola», de Torrente Ballester.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Não é nada do que você está a pensar!

É certo, sabido e quase universalmente aceite que o sofisticado sistema de desconfiança feminino não necessita de muitos indícios — por vezes nem de indícios necessita — para lançar os seus primeiros sinais de alerta. No caso da Laurinda, bastaram duas perdizes depenadas. Viu-as nas mãos do Rolando, chegando de mais um fim de semana de caça no Alentejo, que lhe disse enquanto as exibia:
— Não é nada do que você está a pensar!
(Convém aqui assinalar que o Rolando e a Laurinda formavam um desses casais requintados da capital que se tratam por você). Nem a Laurinda sabia ainda ao certo o que estava a pensar e já o seu sistema de desconfiança dava um primeiro sinal de alerta.

Todavia, o Rolando tinha uma explicação para as perdizes que daquela vez apareciam já depenadas: a dona Ilda, proprietária da casa onde costumavam pernoitar ele e o Pina — eterno companheiro dos fins de semana de caça —, prontificara-se para depenar as perdizes que ambos tinham caçado, e eles, por cortesia, aceitaram. Com esta explicação o índice de desconfiança da Laurinda baixou um pouco, mas nem por isso voltou ao desejável nível zero. Obviamente.

Tempos depois sugiram novos indícios: espetadas nas perdizes — que nunca mais voltaram a chegar com penas em casa — a Laurinda detetou as chapinhas metálicas de algum controlo de qualidade. Sem ter reparado nesse detalhe — e, por conseguinte, sem ter pensado numa explicação —, e antes que a Laurinda pensasse coisas, o Rolando mais uma vez se adiantou:
— Não é nada do que você está a pensar!
— Que explicação tem para isto? — questionou a Laurinda em evidente tom de desagrado.
O Rolando hesitou por breves instantes e, ainda que de forma insegura, avançou com uma possível explicação:
— Isso deve ser coisa dos ecologistas!
— Dos ecologistas?!
— Sim! Não andam por aí a catalogar tudo que é animal selvagem?
— E a dona Ilda?
— A dona Ilda o quê?
— Não tirou as chapinhas?
— Se calhar teve receio de desrespeitar a catalogação ecológica.
— Rolando, Rolando, não tente enganar-me!
— Não tento enganar nada, estou apenas a tentar encontrar uma explicação.

No fim-de-semana seguinte a Laurinda agiu. Quando na sexta-feira, ao fim do dia, o Rolando saía da garagem do prédio onde moravam, ausentado-se para mais um fim de semana de caça, a Laurinda entrava num táxi que já a esperava em frente à porta principal do prédio, e pedia ao taxista para seguir o carro do seu marido. O sentido de orientação nunca foi um ponto forte da Laurinda, mas ela jurava que se o destino era o Alentejo, no nó de Sacavém deviam tomar a direção da ponte Vasco da Gama, nunca a direção oposta!

Cerca de meia hora depois o Rolando parava o seu carro em frente à casa de praia do Pina, na Ericeira. E o táxi que transportara a Laurinda parava umas dezenas de metros atrás. Depois que o Rolando entrou na casa, a Laurinda saiu do táxi.

Finalmente tudo ficara claro para a Laurinda: era aqui, na casa de praia do Pina, que o Rolando passava os fins-de-semana; era aqui, na casa de praia do Pina, que certamente se davam encontros íntimos de elevado grau, sabe deus com que espécie de mulheres! A Laurinda devia ter desconfiado — o sistema de desconfiança feminino é sofisticado, mas não é infalível — que, depois de divorciado, o Pina podia tornar-se uma má influência para o Rolando.

A Laurinda conhecia bem aquela casa dos tempos em que ela e o Rolando passavam fins de semana com o Pina e a sua ex-mulher. Entrou no jardim e foi, pelas traseiras, espreitar à janela da cozinha. Lá viu, de costas, uma mulher com longos cabelos loiros e sapatos de tacão alto. E junto a essa mulher, em clara situação de comprometedora proximidade íntima, o Rolando. A Laurinda respirou fundo e entrou na cozinha. Ao aperceber-se da inesperada aparição da mulher, o Rolando imediatamente disse:
— Não é nada do que você está a pensar!
E não era, de facto. Só uns segundos depois a Laurinda se apercebeu que debaixo dos longos cabelos loiros e em cima dos sapatos de tacão alto se encontrava o Pina.