quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tamanhos

Os benefícios em termos psíquicos decorrentes da prática de qualquer atividade artística são sobejamente conhecidos e cientificamente reconhecidos, podendo esses benefícios ser obtidos de modo direto, através da libertação psíquica do indivíduo no processo de criação, ou de modo indireto, aproveitando a criação artística como veículo para o autor desabafar sobre os seus vícios/prazeres menos confessáveis, sem que daí advenha grande comprometimento para si.

Na arte da escrita, o aproveitamento de forma indireta é bastante frequente. Um dos subterfúgios mais utilizados nessa arte ficcionada — por vezes só aparentemente — consiste na criação de personagens: querendo o autor abordar um tema delicado sem qualquer tipo de comprometimento para a sua postura, inventa um personagem para dar o corpo ao manifesto e manchar o seu — do personagem — bom nome com posições menos recomendáveis — que, no fundo, são as do autor.

Não me parecendo verdade que os textos que aqui tenho vindo a publicar possam ser considerados arte, também não me parece menos verdade que se tratam de escrita. E mesmo sem arte, os efeitos psicoterapêuticos têm sido evidentes. Sinto-os.

É isso que aqui farei mais uma vez, com variante de que desta vez o confesso.

Avancemos então com um nome para o nosso personagem: Amâncio. Para começo de conversa, coloquemos o Amâncio a meditar sobre um dos seus maiores vícios/prazeres. E dêmos um indício sobre o rumo que a exposição pode levar, deixando o nosso personagem a recordar uma velha máxima brasileira que assegura que «tamanho não é documento». E talvez nem seja.

Mesmo sem acesso a dados estatísticos que o confirmem, o Amâncio sabe que em Portugal sempre houve grande moderação quanto à preferência pelo tamanho. E, pese embora, desde tempos imemoriais as grandes andarem por aí, tem sido nas de tamanho médio que tem recaído a massiva preferência nacional.

O Amâncio, homem muito dado a experimentar dessas coisas pelo mundo fora, recorda-se que parecido com Portugal lhe pareceu ser o Chile — embora com ligeira preferência pelas grandes, especialmente quando partilhadas entre a população estudantil. Mas é bom ressalvar que o Amâncio não teve no Chile uma experiência tão vasta quanto isso para poder tirar grandes conclusões sobre esse país.

Experiência vasta e grandemente prazerosa teve o Amâncio no Brasil, onde em média elas são maiores do que em Portugal — sem, no entanto, chegarem a ser tão grandes quanto as maiores portuguesas.

O que ultimamente tem deixado o Amâncio bastante apreensivo é a constatação de que, tanto no Brasil como em Portugal, há uma acentuada tendência para a proliferação das de tamanho reduzido. Se ainda fosse como na Bélgica, onde as mais pequenas são normalmente compensadas com maior potência e qualidade, ainda menos mal. Mas não, tanto em Portugal como no Brasil, reduzem-lhes o tamanho sem nada lhes acrescentarem em compensação.

Abaixo as minis! Defende o Amâncio, obviamente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O absurdo mora ao lado

O Pereira já fez parte do imenso — talvez nem tanto — contingente de homens com tendência para brincar com o fogo (emanante das mulheres alheias). Uma vez levou a brincadeira longe de mais e fugiu de casa, tendo deixado ao abandono a mulher e os filhos. Como nem tudo que reluz é ouro, não tardou muito para que o fogo da mulher alheia se apagasse e, consequentemente, despertasse no Pereira uma profunda, sentida e merecida dose de arrependimento. A mulher do Pereira, que tinha vocação para a santidade, dessa vez perdoou-o.

Perante essa lição de vida, o Pereira transferiu-se para o imenso — agora sim — contingente de homens que não pretende mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. Mas o episódio da fuga e arrependimento deixou as suas marcas no Pereira. A experiência ensinou-lhe — e ele jamais esqueceu — que, ao menor deslize, paixões fortuitas entram de mansinho, destroem felicidades conjugais e depois passam.

Daí em diante, não só o Pereira abandonou certas palavras e atos relativamente às mulheres alheias, como passou também a tentar mantê-las afastadas até dos seus pensamentos. Custasse o que custasse. Esse o grande erro do Pereira: quis levar longe demais o seu esforço. É sabido que em matérias do pensamento a radicalização facilmente gera descompensação. O absurdo mora ao lado.

No escritório onde trabalhava o Pereira todos — elas, principalmente — sabiam da sua conversão ao mundo dos homens que não pretendem mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. E ele parecia feliz nessa nova postura de vida. Até que, aos poucos, começaram a sentir o Pereira padecer dum certo tipo de estranheza — sobejamente conhecida — que consiste em ficar introspetivo o tempo todo.

O Augusto, que tinha uma relação de maior proximidade com o Pereira, foi incumbido de ter uma conversinha com ele. Vai que o Pereira precisava de se abrir. Saíram juntos para o almoço e à primeira palavra de provocação o Pereira abriu-se num lamento:
— Acho que estou apaixonado!
— Como?!
— Uma paixão impossível...
O Augusto deduziu que o Pereira não se referia à madame Pereira.
— Invade-me o pensamento nas situações quotidianas mais simples.
— Relaxa, deve ser coisa passageira.
— De há uns tempos para cá, não há vez em que lave os dentes ou coma um bife que não pense nela!
— Ela quem?
— A Isabel Jonet!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Exercício especulativo sobre a ociosidade divina


Na minha modesta e pouco fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria especulativa.

Exemplifiquemos.

Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.

O plano inicial de Deus não teria sido propriamente trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos, teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos colhe da ociosidade: a arte.

O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem — por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes. Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando dá.

É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus, como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar os melhores lugares.

Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento — felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e observava uma linda morena — talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode ter uma profunda inspiração ociosa.

Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal, à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O linguista

Disse Millôr Fernandes que um escritor só é realmente famoso quando os seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais. Não me ocorrem estas palavras a propósito de um escritor, dado que sobre o personagem que aqui vou considerar não tenho informação de quaisquer registos escritos, mas sim sobre esse orador — cuja máxima de Millôr Fernandes também se aplicará, acredito — que dá pelo nome de Passos Coelho e que, num dos seus últimos discursos, avançou com uma ousada proposta de "refundação" do memorando com a troika — ou do estado português... ou lá que diabo queria ele refundar...

Perante a imprecisão — ou vacuidade? — da proposta, muitos foram os comentadores e analistas que se debruçaram sobre as enigmáticas palavras de Passos Coelho, especificamente sobre a palavra "refundação" — que o meu corretor ortográfico continua a sublinhar a vermelho.

Imbuído do rigor matemático que me caracteriza, antes de tentar descobrir o que Passos Coelho queria dizer com a palavra, fui tentar descobrir o que a palavra queria dizer. Consultado o dicionário online da Priberam, cheguei à conclusão de que a palavra "refundação" não existia e "refundar" tinha um significado que, no contexto, não combinava nada com o que me parecem ser as ideias políticas de Passos Coelho. Mais tarde consultei o meu velho dicionário da Porto Editora e cheguei essencialmente às mesmas conclusões. Ousei até postar um comentário no Facebook:
De acordo com o que me parecem ser elementares regras da língua portuguesa, presumo que "refundação" será o ato ou efeito de "refundar". E diz o meu dicionário que "refundar" tem o significado de "tornar mais fundo, profundar, afundar". Será que Passos Coelho, finalmente, começou a falar verdade ao país? Ou será que Passos Coelho, simplesmente, não sabe o que diz?
Tive até um amigo que gostou! Qual não foi o meu espanto quando, poucos dias depois, um outro amigo me alertou para o conteúdo deste meu comentário, observando que tinha consultado o dicionário online da Priberam e, surpresa das surpresas:
refundação
s. f.
Ato ou efeito de refundar. 
refundar
v. tr.
1. Tornar mais fundo. = AFUNDAR, APROFUNDAR, PROFUNDAR
2. Tornar a criar, a estabelecer algo; fundar novamente.
No espaço de alguns dias, não só a palavra "refundação" ganhava vida própria, como "refundar" adquiria um novo significado. Confesso que se não houvesse aqui e ali outros comentários com o mesmo teor do meu comentário facebookiano, eu ia começar a desconfiar da minha própria capacidade de leitura — ou até da minha sanidade mental, quem sabe. Desta forma, vou apenas achar que a erudição linguística de Passos Coelho tem esse dom de nos enriquecer a língua. Se outra riqueza não consegue criar para o país, pelo menos essa ele consegue. 

Julgo ser da mais elementar sensatez que de futuro eu passe a prestar atenção redobrada às palavras de Passos Coelho. E digo mais: quando tiver tempo vou tentar reinterpretar todos os seus discursos passados. Agradeço desde já à Priberam que inclua no seu dicionário significados ocultos de palavras como "já", "ouvi", "dizer", "que", "nós", "queremos", "acabar", "com", "o", "décimo", "terceiro", "mês", "mas", "nós", "nunca", "falamos", "disso", "e", "isso", "é", "um", "disparate", entre muitas outras. Não acredito que Passos Coelho tivesse utilizado estas palavras com os seus significados mais óbvios. Na minha conceção, o Passos Coelho linguarudo dá lugar ao linguista!

E para que não volte a cair em más interpretações, numa próxima campanha eleitoral só ouvirei Passos Coelho com dicionário na mão. Dicionário da Priberam, claro!