segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Os três amigos do Patrício

O Patrício era um fulano com um passado financeiro já de si muito pouco brilhante, mas nos últimos tempos deu para cometer alguns excessos. Os apelos constantes da banca com crédito farto e fácil fizeram com que o Patrício desse passos maiores do que as pernas e mais passos do que devia. Ele contraiu crédito para a casa, crédito para o carro, crédito para uma vida de luxo e outras coisas que mais adiante ficarão evidentes. Depois começou a contrair crédito para pagar outro crédito, até que... Até que chegou a implacável crise financeira e a torneira do crédito secou.

O caso do Patrício começou a ficar tão complicado que, antes de tomar medidas drásticas — só o diabo saberá quais! —, decidiu recorrer à ajuda de amigos. A três muito próximos, em particular: o Branco, o Conceição e o Firmino. Lançado o alerta pelo Patrício, os três acudiram pressurosos a resgatá-lo nessa hora de grande aperto, pois os amigos são mesmo para essas coisas. Começaram por emprestar-lhe dinheiro para os compromissos mais urgentes — a taxas de juro relativamente altas, mas amigos amigos negócios à parte... — e prometeram mais emprestar, conquanto o Patrício se disponha a cortar nos gastos.

Experientes como eram nos negócios, prontificaram-se a arranjar um plano de recuperação para a calamitosa situação financeira do amigo em desgraça. Reuniram com o Patrício e começaram por lhe pedir que descrevesse as suas atividades regulares onde achava que poderia economizar uns cobres.

O Patrício passou rapidamente a sua vida em revista e lembrou-se do vício do jogo, onde por vezes ganhava mas muito mais eram as vezes em que perdia.
— Não, não, isso não! — Vetou imediatamente o Branco. — Um homem precisa do jogo para manter a mente ativa. Cortar nisso é morrer.
Claro que o facto do Branco ser dono da casa onde o Patrício costumava jogar teve a sua influência no veto do Branco.

De seguida, o Patrício reconheceu que tinha gastos exagerados com a bebida. Sabia que seria difícil cortar nesse vício, mas podia tentar fazer um sacrifício.
— Não, não, isso não! — Vetou prontamente o Conceição. — Um homem precisa da bebida para libertar o espírito. Cortar nisso é morrer.
Claro que o facto do Branco ser dono do bar onde o Patrício mais regularmente afogava as suas mágoas teve alguma influência no veto.

O Patrício mencionou depois as visitas regulares às profissionais do prazer. Seria um sacrifício abdicar desse hábito, mas prontificava-se a tentar.
— Não, não, isso não! — Vetou de imediato o Firmino. — Um homem precisa dessas mulheres para libertar a tensão corporal. Cortar nisso é morrer.
Claro que o fato do Firmino ser dono da casa de alterne frequentada pelo Patrício também teve a sua influência no veredicto. 

Começava a ficar claro que o Patrício sozinho não iria apontar a solução para o seu problema. Meditaram bastante e, em conjunto, chegaram à conclusão de que havia gastos regulares onde Patrício poderia cortar: na qualidade da comida dos filhos. Afinal, conseguiriam sobreviver sem o leite matinal, passavam bem sem peixe nem carne e a fruta e os legumes, por natureza, já não eram muito do agrado das crianças.

Os três bons amigos do Patrício passaram a visitá-lo com alguma frequência (para arrecadarem o seu quinhão de juros) e, com muito agrado, constatavam que o brilhante plano por eles gizado estava a fazer o Patrício economizar uns trocados extra. Notavam as crianças com aparência algo escanzelada, mas nada de alarmar: ainda se seguravam de pé e até conseguiam caminhar! Havia que manter o plano de contenção de gastos, pois era óbvio que estava a dar certo!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Finais infelizes

Tendo em conta (o que eu entendo por) certas correntes freudianas da psicanálise, não será de todo disparatado considerarmos a infância como a fase da vida onde entronca grande parte dos problemas que nos atormentam em adultos, resultando com frequência de uma análise mais detalhada de certos casos a atribuição de culpa aos progenitores — à inigualável mãe, muito em particular —, não raras vezes por excesso de proteção.

Não me parece difícil aceitar essa teoria, tendo em conta as surpresas desagradáveis com que nos vamos deparando ao longo da vida e que, muitas vezes, nos pegam completamente desprevenidos. Já que assim é, julgo ser da mais elementar justiça distribuir culpas por todos os agentes da nossa formação e não apenas pelos progenitores ou educadores diretos. Uns que, na minha opinião de leigo no assunto, têm papel perverso, mas dificilmente são chamados a prestar contas no processo de esclarecimento psicanalítico, são os criadores de histórias infantis. Sim, esses que nos povoam as ideias com histórias onde os vilões sempre são castigados e os príncipes e princesas são felizes para sempre.

Sendo a nossa formatação também muito baseada nas histórias que nos contam na infância, que preparação teremos nós para encarar a realidade quando os agentes do mal se dão bem? Como aceitar a nossa história quando um Sócrates nos deixa à míngua e vai estudar filosofia em Paris, vivendo à grande e à francesa, e ainda volta para comentador influente da nação? Como aceitar a nossa história quando ela é condicionada por um Coelho que não se cansa de atacar os mais desprotegidos e ninguém o tira do poleiro? (Eu sei que os coelhos não costumam estar em poleiros, mas este a que me refiro infelizmente está).

E se nas história infantis os maus nem sempre se dão totalmente mal — se o lobo mau quis comer a avozinha, algum prazer há de ter tido... — onde a porca torce verdadeiramente o rabo é nos finais das histórias. Desde quando, na vida real, príncipes e princesas — ou plebeus e plebeias, tanto faz — são felizes para sempre? Na melhor das hipóteses, ambos morrem de velhos. Sendo a morte inevitável, por que não refletir esse facto em alguns personagens bons das histórias infantis? Que tal por vezes dizer que foram felizes até que a princesa (já rainha) morreu de enfarte do miocárdio? Ou que o príncipe (já rei) morreu de cancro no pulmão? Neste último caso, poder-se-ia até acrescentar que isso aconteceu porque fumava muito, lançando assim um alerta sobre os malefícios do tabaco.

Querendo evitar uma visão tão fatalista da história, poder-se-ia ainda pensar em finais de outro tipo, também bastante frequentes na realidade, mas nunca refletidos em histórias infantis. Por que não dizer que o príncipe e a princesa foram felizes até que já não se aguentavam mais? Ou até que apareceu mais alguém na jogada? Só a título de exemplo: e foram felizes até que contrataram um novo jardineiro para o palácio e a princesa se encantou por ele. Ou até mesmo o príncipe se encantou por ele. Este último final com a vantagem de contribuir para a formação de cabecinhas com menos preconceitos homofóbicos.

Enfim, não sei se será caso para levar a questão tão a peito, mas se tal fosse viável, a humanidade devia mover um processo coletivo em alguma instância internacional contra esses pintores de mundos em tons exclusivamente cor-de-rosa e azul-celeste.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Peque & Pague

«Alguns elevam-se pelo pecado, 
outros caem pela virtude»
W. Shakespeare

Nas minhas noites de insónia da época em que morava no Rio de Janeiro, uma das atividades que me despertava algum interesse — sociológico, diria — era observar a intensa atividade religiosa em vários canais da televisão brasileira a altas horas da madrugada. Num simples zapping, deparava-me com excelente oferta de cultura religosa que muito me enriquecia — na época, apenas espiritualmente — e rapidamente me fazia voltar ao sono. A oferta tinha uma concentração maior na componente evangélica, mas também por lá se podia encontrar outras formas de menor expressão como o espiritismo ou a umbanda.

Juntando ao conhecimento adquirido nesses anos a minha ancestral formação na Igreja Católica (IC), posso dizer que tenho um razoável nível de conhecimento num vasto leque de religiões cristãs — sobre o Islamismo nada sei e peço desculpa por qualquer coisinha. Na mesma medida em que foi aumentando o meu conhecimento em diversas religiões, foi diminuindo a minha atividade religiosa — não sei como provar uma correlação entre ambos, mas desconfio que exista —, chegando ao ponto de me considerar completamente fora do circuito e acreditando não ter nenhuma necessidade de transcendência por esses lados. É mais ou menos neste ponto que deixo a minha pobre vivência não religiosa dos últimos anos.

***

Passava eu há dias, em plena época da grande crise em que vivemos, em frente ao (há não muito tempo inaugurado) faustoso Cenáculo do Espírito Santo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no Porto, quando dei por mim a pensar se será realmente assim: não terei mesmo nenhuma necessidade de transcendência religiosa?

Posta a pergunta, debrucei-me sobre os meus anteriores conhecimentos religiosos na vertente cristã — como já disse, sobre o Islamismo nada sei nada e peço desculpa por qualquer coisinha —, particularmente naquelas que considero serem os expoentes máximos da nossa cultura latina: a IC e a IURD. Se, por um lado, a IC tem preços para serviços básicos e aposta na confissão e no arrependimento como caminho para a salvação eterna, a IURD aponta o dízimo como solução para todos os males que possam apoquentar os seus fieis, preservando-os de toda e qualquer forma de vida terrena menos recomendável. Na IURD não há uma ideia explícita de confissão e arrependimento como via de salvação, mas há um implícito estimular de mecanismos de autocensura, por vezes sobres pecadilhos de nada. Em suma, nem a IC nem a IURD estimulam o fiel a pecar sem culpa. 

Sendo certo e sabido que pecar faz parte da condição humana, tentemos então situar o pecado no quotidiano como algo muito natural. Tão natural como a vontade de pecar. Foi por aí que cheguei à conceção de uma Igreja Peque & Pague (IPP), na qual o fiel é estimulado a pecar e pagar (como o próprio nome indica), havendo uma lista de pecados, tão exaustiva quanto possível, e o preço que o redime. Não me refiro a pecados que possam constituir crime — respeitemos as leis civis, mesmo que nem sempre elas nos respeitem a nós — ou que violem princípios éticos ou morais. Não. Refiro-me a pequenos pecados quotidianos que praticamente toda a gente gosta de praticar mas, por um motivo ou por outro, censura. A mim, por exemplo, assolam-me com certa frequência a Gula, a Preguiça (que na IPP deverão ser sempre escritos com maiúsculas) e até outros menos confessáveis — lá está a tal autocensura. 

Fundada a IPP, faremos — a passagem ao plural é deliberada, pois confere maior credibilidade ao discurso — simultaneamente grandes campanhas no estímulo aos pequenos pecados e apostaremos na facilidade de pagamento. Aceitaremos pagamento parcelado, cartão de crédito, Paypal e transferência bancária. Haverá cartão de fidelização e modalidades de pré ou pós pagamento com débito em conta. E, para os pecadores mais fervorosos, criaremos um Cartão PPP (Peque & Pague Premium) com acesso privilegiado a um sem-número de lugares não propriamente muito recomendáveis por outras religiões. Temos entre os nossos grandes objetivos a criação de um canal de TV com muitos filmes da Scarlett Johansson e outro com muitos filmes do... do... — aceito sugestões das(os) que preferem belos exemplares de outro sexo. A cereja no topo do bolo será um programa diário de Nutícias com a Scarlett como apresentadora, para podermos dar largas à Luxúria. Mas isso só depois que a IPP estiver muito pujante financeiramente e ela se converter.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O T

Quando ele nasceu não houve quem ousasse arriscar que aquele garoto pudesse vir a dar grande homem, tal o seu reduzido tamanho à nascença — mesmo cumpridos a preceito os nove meses de gestação. Armindo foi o seu nome de registo, mas desde o primeiro instante foi por todos tratado por Mindinho.

As previsões não enganaram: o Mindinho veio, de facto, a revelar-se um homem de muito baixa estatura. Na vertical.

Apesar da estatura nada condizente com os normais — e muito preconceituosos — padrões de boa dotação para o galanteio, atingida a idade adulta — talvez mesmo antes, mas evitemos insinuações de teor pedófilo — o Mindinho veio a revelar-se um sujeito com enorme sucesso entre as mulheres. Avesso a poiso certo, foi espalhando o seu encanto pelos quatro cantos — e muitas camas — da região. Uma aqui, outra ali, sem qualquer impedimento de simultaneidade temporal, muitas mulheres lhe fizeram a corte, mas nenhuma logrou conduzi-lo ao altar. Filhos não teve. Que ele soubesse.

Ainda com perspetiva de muita vida pela frente o Mindinho morreu. Inesperadamente. E, como será fácil de prever, ao seu funeral compareceu um considerável número de mulheres tristes. Algumas com cara de viúva, apesar do Mindinho nunca se ter casado, como já foi dito. Todas elas em estado muito choroso e nos mais diversos estados civis: solteiras, casadas, divorciadas e umas quantas efetivamente viúvas — não do Mindinho, claro. Todas lhe deixaram belíssimos buquês e bilhetinhos a acompanhá-los com palavras de apreço e sentido pesar, muito lamentando a sua partida.

Cumprido o ritual do enterro, os amigos mais chegados recolheram os bilhetinhos. Bastante lhes chamou a atenção a forma como muitas delas apodaram o Mindinho nas dedicatórias: algumas como «Mindinho T», outras como «meu T» e umas quantas até como «meu Tesinho»!

Os amigos ficaram intrigados. Suspeitaram que houvesse no Mindinho algum avantajado predicado de cuja existência eles nunca tinham sequer desconfiado. E ficaram a pensar em como os homens não se medem aos palmos. No mínimo, haverá que considerá-los em todas as direções!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Nascidos na hora exata

A cada começo de novo ano os blocos noticiosos dos canais de televisão em Portugal incluem notícias que, não fosse a escassez noticiosa que caracteriza a época, dificilmente poderiam incluir num noticiário minimamente respeitável — mesmo levando em conta uma certa tendência jornalística para a promoção do facto não noticioso. Reportagens sobre banhistas a tenir de frio que entram em águas geladas no primeiro dia de janeiro, ou de mães que dão à luz em cima da transição de ano já se tornaram tão naturais como a sequência dos anos.

Como manda a tradição, no primeiro dia de 2013 surgiu a notícia de que «o primeiro bebé do ano» — por vezes referido até como «o bebé do ano»! — tinha sido uma menina nascida numa maternidade do Porto. À meia-noite e um segundo. Foi muito agradável começar o ano a saber que na capital nortenha se realizam feitos de tão grande envergadura. O que mais me atraiu na notícia nem foi o facto de que a primeira criança de 2013 tivesse nascido no Porto — ainda não descobri como tal facto pode contribuir para a felicidade de alguém —, mas sim saber que no Porto há um centro hospitalar com tecnologia tão sofisticada a ponto dos nascimentos poderem ser cronometrados com esse grau de precisão.

Desde logo, questões importantíssimas se levantam sobre o tema: qual será o momento exato de um nascimento? Será o instante em que a criança abandona por completo o ventre materno, será o instante em que algum membro da equipa médica observa a criança nesse ventre ou será o momento em que alguém dessa equipa se lembra de olhar para o relógio? Haverá sempre um especialista em cronometria na realização de cada parto?

Levantadas as questões importantes, voltemos à dura realidade dos factos: entre o noticiário da manhã e o da noite descobriu-se que, afinal, «o bebé do ano» não tinha nascido no Porto à meia-noite e um segundo, mas sim em Lisboa à meia-noite em ponto. Por um mísero segundo a cidade do Porto via fugir mais este grande mérito para Lisboa! Para lançar ainda maior confusão sobre o tema, no dia seguinte há um jornal que noticia que «o bebé do ano» não foi menina nenhuma de Lisboa ou do Porto mas sim um menino de não-sei-onde. Ou seja, mais um ano que começa com uma enorme trapalhada sobre assunto tão importante!

Ainda bem que de permeio tivemos o senhor presidente da república a tranquilizar-nos: vamos ter Orçamento de Estado para 2013! Acredita que o orçamento está pejado de sérios atropelos à Constituição e contribuirá ainda mais para a espiral recessiva que nos ataca, mas em mais um raciocínio que caracteriza a sua espiral recessiva de capacidade política, chegou à conclusão de que, mesmo com tudo isso, passaremos para o exterior uma imagem de maior tranquilidade do que a que passaríamos se ele mandasse logo o orçamento que Gaspar & Cia congeminaram para o Tribunal Constitucional. Pelos vistos, esses senhores do exterior ficam mais tranquilos se souberem que neste resto de Europa se atropela a lei e não se faz nada para mudar o rumo do afundamento económico. Deduzo que mais importante do que tudo isso será termos o orçamento a nascer na hora exata!