quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Nascidos na hora exata

A cada começo de novo ano os blocos noticiosos dos canais de televisão em Portugal incluem notícias que, não fosse a escassez noticiosa que caracteriza a época, dificilmente poderiam incluir num noticiário minimamente respeitável — mesmo levando em conta uma certa tendência jornalística para a promoção do facto não noticioso. Reportagens sobre banhistas a tenir de frio que entram em águas geladas no primeiro dia de janeiro, ou de mães que dão à luz em cima da transição de ano já se tornaram tão naturais como a sequência dos anos.

Como manda a tradição, no primeiro dia de 2013 surgiu a notícia de que «o primeiro bebé do ano» — por vezes referido até como «o bebé do ano»! — tinha sido uma menina nascida numa maternidade do Porto. À meia-noite e um segundo. Foi muito agradável começar o ano a saber que na capital nortenha se realizam feitos de tão grande envergadura. O que mais me atraiu na notícia nem foi o facto de que a primeira criança de 2013 tivesse nascido no Porto — ainda não descobri como tal facto pode contribuir para a felicidade de alguém —, mas sim saber que no Porto há um centro hospitalar com tecnologia tão sofisticada a ponto dos nascimentos poderem ser cronometrados com esse grau de precisão.

Desde logo, questões importantíssimas se levantam sobre o tema: qual será o momento exato de um nascimento? Será o instante em que a criança abandona por completo o ventre materno, será o instante em que algum membro da equipa médica observa a criança nesse ventre ou será o momento em que alguém dessa equipa se lembra de olhar para o relógio? Haverá sempre um especialista em cronometria na realização de cada parto?

Levantadas as questões importantes, voltemos à dura realidade dos factos: entre o noticiário da manhã e o da noite descobriu-se que, afinal, «o bebé do ano» não tinha nascido no Porto à meia-noite e um segundo, mas sim em Lisboa à meia-noite em ponto. Por um mísero segundo a cidade do Porto via fugir mais este grande mérito para Lisboa! Para lançar ainda maior confusão sobre o tema, no dia seguinte há um jornal que noticia que «o bebé do ano» não foi menina nenhuma de Lisboa ou do Porto mas sim um menino de não-sei-onde. Ou seja, mais um ano que começa com uma enorme trapalhada sobre assunto tão importante!

Ainda bem que de permeio tivemos o senhor presidente da república a tranquilizar-nos: vamos ter Orçamento de Estado para 2013! Acredita que o orçamento está pejado de sérios atropelos à Constituição e contribuirá ainda mais para a espiral recessiva que nos ataca, mas em mais um raciocínio que caracteriza a sua espiral recessiva de capacidade política, chegou à conclusão de que, mesmo com tudo isso, passaremos para o exterior uma imagem de maior tranquilidade do que a que passaríamos se ele mandasse logo o orçamento que Gaspar & Cia congeminaram para o Tribunal Constitucional. Pelos vistos, esses senhores do exterior ficam mais tranquilos se souberem que neste resto de Europa se atropela a lei e não se faz nada para mudar o rumo do afundamento económico. Deduzo que mais importante do que tudo isso será termos o orçamento a nascer na hora exata!


4 comentários:

  1. "The importance of being ernest", escreveu Oscar Wilde. Será que valerá a pena escrever uma obra com o título: "A importância de nascer à hora exata"? ;)

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    1. E assim levantas mais uma importantíssima questão! ;)

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    2. The importance of being earnest"

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