quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Peque & Pague

«Alguns elevam-se pelo pecado, 
outros caem pela virtude»
W. Shakespeare

Nas minhas noites de insónia da época em que morava no Rio de Janeiro, uma das atividades que me despertava algum interesse — sociológico, diria — era observar a intensa atividade religiosa em vários canais da televisão brasileira a altas horas da madrugada. Num simples zapping, deparava-me com excelente oferta de cultura religosa que muito me enriquecia — na época, apenas espiritualmente — e rapidamente me fazia voltar ao sono. A oferta tinha uma concentração maior na componente evangélica, mas também por lá se podia encontrar outras formas de menor expressão como o espiritismo ou a umbanda.

Juntando ao conhecimento adquirido nesses anos a minha ancestral formação na Igreja Católica (IC), posso dizer que tenho um razoável nível de conhecimento num vasto leque de religiões cristãs — sobre o Islamismo nada sei e peço desculpa por qualquer coisinha. Na mesma medida em que foi aumentando o meu conhecimento em diversas religiões, foi diminuindo a minha atividade religiosa — não sei como provar uma correlação entre ambos, mas desconfio que exista —, chegando ao ponto de me considerar completamente fora do circuito e acreditando não ter nenhuma necessidade de transcendência por esses lados. É mais ou menos neste ponto que deixo a minha pobre vivência não religiosa dos últimos anos.

***

Passava eu há dias, em plena época da grande crise em que vivemos, em frente ao (há não muito tempo inaugurado) faustoso Cenáculo do Espírito Santo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no Porto, quando dei por mim a pensar se será realmente assim: não terei mesmo nenhuma necessidade de transcendência religiosa?

Posta a pergunta, debrucei-me sobre os meus anteriores conhecimentos religiosos na vertente cristã — como já disse, sobre o Islamismo nada sei nada e peço desculpa por qualquer coisinha —, particularmente naquelas que considero serem os expoentes máximos da nossa cultura latina: a IC e a IURD. Se, por um lado, a IC tem preços para serviços básicos e aposta na confissão e no arrependimento como caminho para a salvação eterna, a IURD aponta o dízimo como solução para todos os males que possam apoquentar os seus fieis, preservando-os de toda e qualquer forma de vida terrena menos recomendável. Na IURD não há uma ideia explícita de confissão e arrependimento como via de salvação, mas há um implícito estimular de mecanismos de autocensura, por vezes sobres pecadilhos de nada. Em suma, nem a IC nem a IURD estimulam o fiel a pecar sem culpa. 

Sendo certo e sabido que pecar faz parte da condição humana, tentemos então situar o pecado no quotidiano como algo muito natural. Tão natural como a vontade de pecar. Foi por aí que cheguei à conceção de uma Igreja Peque & Pague (IPP), na qual o fiel é estimulado a pecar e pagar (como o próprio nome indica), havendo uma lista de pecados, tão exaustiva quanto possível, e o preço que o redime. Não me refiro a pecados que possam constituir crime — respeitemos as leis civis, mesmo que nem sempre elas nos respeitem a nós — ou que violem princípios éticos ou morais. Não. Refiro-me a pequenos pecados quotidianos que praticamente toda a gente gosta de praticar mas, por um motivo ou por outro, censura. A mim, por exemplo, assolam-me com certa frequência a Gula, a Preguiça (que na IPP deverão ser sempre escritos com maiúsculas) e até outros menos confessáveis — lá está a tal autocensura. 

Fundada a IPP, faremos — a passagem ao plural é deliberada, pois confere maior credibilidade ao discurso — simultaneamente grandes campanhas no estímulo aos pequenos pecados e apostaremos na facilidade de pagamento. Aceitaremos pagamento parcelado, cartão de crédito, Paypal e transferência bancária. Haverá cartão de fidelização e modalidades de pré ou pós pagamento com débito em conta. E, para os pecadores mais fervorosos, criaremos um Cartão PPP (Peque & Pague Premium) com acesso privilegiado a um sem-número de lugares não propriamente muito recomendáveis por outras religiões. Temos entre os nossos grandes objetivos a criação de um canal de TV com muitos filmes da Scarlett Johansson e outro com muitos filmes do... do... — aceito sugestões das(os) que preferem belos exemplares de outro sexo. A cereja no topo do bolo será um programa diário de Nutícias com a Scarlett como apresentadora, para podermos dar largas à Luxúria. Mas isso só depois que a IPP estiver muito pujante financeiramente e ela se converter.

6 comentários:

  1. Olha que, se levasses isso a sério, eras capaz de convencer muita gente...

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    1. E a vontade de atingir a salvação, a qualquer preço. Esta é uma ideia perversa, mas brilhante: quanto mais pagar (ou seja, mais pecar), mais hipóteses existem de salvação! No fundo, a Igreja Católica já andou perto disso...

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    2. O sucesso da minha IPP, penso, está em assumi-lo clara e deliberadamente!

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  2. :) Que ideia original... (Não confundir com o pecado original...)

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    1. Apenas tentamos obter soluções para os mais profundos anseios da humanidade... :)

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