quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Finais infelizes

Tendo em conta (o que eu entendo por) certas correntes freudianas da psicanálise, não será de todo disparatado considerarmos a infância como a fase da vida onde entronca grande parte dos problemas que nos atormentam em adultos, resultando com frequência de uma análise mais detalhada de certos casos a atribuição de culpa aos progenitores — à inigualável mãe, muito em particular —, não raras vezes por excesso de proteção.

Não me parece difícil aceitar essa teoria, tendo em conta as surpresas desagradáveis com que nos vamos deparando ao longo da vida e que, muitas vezes, nos pegam completamente desprevenidos. Já que assim é, julgo ser da mais elementar justiça distribuir culpas por todos os agentes da nossa formação e não apenas pelos progenitores ou educadores diretos. Uns que, na minha opinião de leigo no assunto, têm papel perverso, mas dificilmente são chamados a prestar contas no processo de esclarecimento psicanalítico, são os criadores de histórias infantis. Sim, esses que nos povoam as ideias com histórias onde os vilões sempre são castigados e os príncipes e princesas são felizes para sempre.

Sendo a nossa formatação também muito baseada nas histórias que nos contam na infância, que preparação teremos nós para encarar a realidade quando os agentes do mal se dão bem? Como aceitar a nossa história quando um Sócrates nos deixa à míngua e vai estudar filosofia em Paris, vivendo à grande e à francesa, e ainda volta para comentador influente da nação? Como aceitar a nossa história quando ela é condicionada por um Coelho que não se cansa de atacar os mais desprotegidos e ninguém o tira do poleiro? (Eu sei que os coelhos não costumam estar em poleiros, mas este a que me refiro infelizmente está).

E se nas história infantis os maus nem sempre se dão totalmente mal — se o lobo mau quis comer a avozinha, algum prazer há de ter tido... — onde a porca torce verdadeiramente o rabo é nos finais das histórias. Desde quando, na vida real, príncipes e princesas — ou plebeus e plebeias, tanto faz — são felizes para sempre? Na melhor das hipóteses, ambos morrem de velhos. Sendo a morte inevitável, por que não refletir esse facto em alguns personagens bons das histórias infantis? Que tal por vezes dizer que foram felizes até que a princesa (já rainha) morreu de enfarte do miocárdio? Ou que o príncipe (já rei) morreu de cancro no pulmão? Neste último caso, poder-se-ia até acrescentar que isso aconteceu porque fumava muito, lançando assim um alerta sobre os malefícios do tabaco.

Querendo evitar uma visão tão fatalista da história, poder-se-ia ainda pensar em finais de outro tipo, também bastante frequentes na realidade, mas nunca refletidos em histórias infantis. Por que não dizer que o príncipe e a princesa foram felizes até que já não se aguentavam mais? Ou até que apareceu mais alguém na jogada? Só a título de exemplo: e foram felizes até que contrataram um novo jardineiro para o palácio e a princesa se encantou por ele. Ou até mesmo o príncipe se encantou por ele. Este último final com a vantagem de contribuir para a formação de cabecinhas com menos preconceitos homofóbicos.

Enfim, não sei se será caso para levar a questão tão a peito, mas se tal fosse viável, a humanidade devia mover um processo coletivo em alguma instância internacional contra esses pintores de mundos em tons exclusivamente cor-de-rosa e azul-celeste.