domingo, 21 de novembro de 2010

Oralmente virgem

Longe vão os tempos em que a virgindade de uma mulher solteira era anseio natural do homem que se propunha desposá-la. Acredito mesmo que, para que tal anseio pudesse ter algum tipo de legitimidade nos tempos que correm, o homem teria que procurar a sua donzela numa faixa etária lá pelos 14 ou 15 anos de idade, quando muito. Uma legitimidade ilegítima, claro.

Sem querer ser muito exaustivo nem alongar-me demasiado em considerações sociológicas sobre o tema, assinalaria apenas como fatores fundamentais para que se tenha alterado de forma tão radical o valor social da virgindade feminina pré-nupcial, a emancipação da mulher, a facilidade de acesso a métodos anticoncetivos e a evolução mental — ainda que por vezes parcial — do homem. Dessa forma, tornou-se inevitável que o leque de anseios masculinos tivesse que se adaptar a esta nova realidade — com claros benefícios para ambas as partes.

Pese embora toda a evolução sociológica e mental masculina, não serão ainda raros os casos em que o homem mantém algum desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte daquela mulher que ele elege como sua até que a morte — ou a separação — os separem. Ciente de que a invasão primeira do hímen se tornou algo dificilmente alcançável em faixas etárias mais avançadas e nada recomendável naquelas que dão maiores garantias de virgindade — pedofilia é crime! —, muitas vezes o homem projeta, ainda que inconscientemente, o seu desejo noutros tipos de invasões primeiras. Nem sempre a projeção aparece de forma consciente, muito menos no homem que se diz moderno, mas resquícios de tais desejos, de formas mais ou menos veladas, pairam por vezes nas mentes masculinas.

Era o caso do Rodrigues, que mantinha com a Clarinha uma relação já suficientemente madura — acabavam de completar um mês de namoro —, a ponto das relações sexuais, em posições essencialmente convencionais, se terem tornado uma prática regular. A intimidade ainda não era plena, mas aos poucos a relação avançava.

Desta vez a Clarinha já revirara os olhinhos, soltara grunhidos e cravara as unhas nas costas do Rodrigues algumas vezes, quando fizeram uma ligeira pausa para recuperar fôlego. Após um ousado, pretensioso e estimulante troque de palavras, ele não notou que a Clarinha se valeu de um eufemismo para lhe fazer uma revelação:
— Sou oralmente virgem.
— Como assim? Nunca falaste palavrões?!
— Nada disso, seu bobo.
— Então?
— Nunca fiz sexo oral, pronto!
Neste, como em muitos outros casos, é frequente a mulher ter que abdicar da sua subtileza natural para conseguir fazer-se entender minimamente. O Rodrigues tentou entender mais:
— Mas porquê, achas que não gostas?
— Não sei... apenas não aconteceu.... não me apeteceu... sei lá!
— Ah...
— Acho que nunca tive relações com intimidade suficiente para isso.

Neste momento, os olhos do Rodrigues brilharam mais intensamente do que o normal e sentiu despertar nele o tal desejo de primazia na invasão íntima de uma parte da Clarinha. Aos poucos foi-se insinuando. A Clarinha, talvez por achar que entre eles já existia a necessária dose de intimidade — mais de 30 dias juntos! — que não existira nos seus casos pretéritos, não se fez de rogada... E revelou ter qualidades inatas para esse ato de grande intimidade com o seu parceiro!

Uns minutos depois, a Clarinha notou o Rodrigues estranho.
— Porque ficaste tão pensativo? Não foi bom?
— Não... foi... foi ótimo!
A Clarinha cometeu o erro de incluir duas perguntas numa só intervenção. E o Rodrigues, apesar de absorto em pensamentos, teve a esperteza suficiente para, convenientemente, responder apenas à segunda pergunta.

Para o Rodrigues tinha sido ótimo, de facto, mas também é verdade que tinha ficado pensativo: um talento destes não podia ser inato... Era óbvio que havia experiência prévia! E tentava entender por que diabo a Clarinha lhe tinha mentido sobre isto. É pouco provável que tenha sido desta vez que o Rodrigues viu saciado o seu desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte da Clarinha.

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