quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A sangria ibérica

Por estes dias fiquei a saber que, de acordo com uma decisão recente do Parlamento Europeu, a sangria só poderá ser denominada como tal se for produzida em Portugal ou na Espanha. Acho essa uma excelente decisão, mas gostaria de saber qual o verdadeiro alcance desta medida: aplica-se àquelas bebidas empacotadas ou engarrafadas (que eu não compro nem a tiro!) denominadas de sangria que se podem ver em supermercados por essa Europa fora? Ou visa punir os restaurantes e bares europeus que imitam a bebida ibérica e depois até nos desgastam a palavra sem pagarem os devidos royalties?

Julgo até que esta decisão constituirá uma excelente alavanca para a rastejante economia ibérica, mas, antes de mais, gostaria que me esclarecessem sobre o que verdadeiramente me preocupa: quando voltar a exilar-me (temporária ou definitivamente, o tempo o dirá...) em algum país não ibérico da União Europeia, poderei convidar amigos para tomar uma sangria na minha casa de lá? Ou só poderei fazer isso se levar a bebida já preparada de cá? Poderei continuar a chamar-lhe sangria, se levar fruta, vinho, espirituosa e gaseificada de cá e depois misturar tudo lá? E se preparar a bebida fora da União Europeia, já poderei denominá-la de sangria sem que esteja sujeito a algum tipo de sanção por cá? Urge que estas e muitas outras dúvidas de primordial importância sejam rapidamente esclarecidas para que eu não viole o que quer que seja desta nossa bela Europa!

Há meses tivemos uma decisão sobre a qualidade dos autoclismos, há uns anos uma decisão sobre a qualidade de vida das galinhas, agora uma decisão sobre a nossa tão querida sangria. Pelo andar da carruagem, não tardará muito para que o Parlamento Europeu legisle sobre o sexo dos anjos e resolva, de uma vez por todas, um problema que apoquenta a humanidade há séculos (ou milénios, muito provavelmente).

E já que entramos num registo mais religioso, louvemos esta maravilhosa harmonia europeia: enquanto os deputados vivem na doce ilusão de que têm algum poder (até aprovam leis!), os verdadeiros chefões (e a chefona) desta pseudo-democracia impõem aquilo que muito bem lhes apraz, sem que o Parlamento Europeu seja sequer chamado a opinar. Convenhamos, se é para ter um sistema como o português, onde o parlamento toma decisões realmente importantes, mas os deputados deixam as consciências (quiçá, outras coisas mais) penduradas à entrada e votam de acordo que o que manda o líder partidário, melhor mesmo um sistema como o europeu no qual os deputados ficam entretidos com leis como esta, mas podem entrar para o parlamento com a consciência no seu devido lugar.

Já agora, por uma questão de coerência e respeito para com a vizinhança mundial, aproveito para recomendar que o Parlamento Europeu aprove regras mais rígidas sobre a utilização de determinados nomes de outras bebidas. Como sugestão, para começar: caipirinhas só no Brasil, margaritas só no México, piscos sour só no Chile ou Perú!