domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dia dos namorados

O Américo ainda não tinha entrado em casa quando começou a sentir um suave odor a incenso. Já na sala de jantar, o Américo viu a mesa posta com pompa e circunstância — com velas e tudo! Não fosse ter visto apenas dois pratos sobre a mesa e juraria que nessa noite iriam receber visitantes ilustres.

Aniversário dele não era, dela não era, de casados ainda só tinham quatro meses, o começo namoro foi no verão... Não ocorreu ao Américo motivo para ambiente tão especial em casa. Aproximando-se da Detinha para o beijo de boas-vindas, o Américo fez a inevitável pergunta:
— Jantar especial?
— Datas especiais merecem jantares especiais.
— Data especial?
— Ora, não sabes que dia é hoje?
— ...
— Dia dos namorados, esqueceste-te?
Não era bem o caso de se ter esquecido, mas como podia o Américo lembrar-se que a Detinha queria celebrar esse dia? O Américo tentou justificar-se:
— Mas agora já somos casados, querida!
— E daí?
— Daí que este é o dia dos namorados, não o dia dos casados...
Começando a sentir que a Detinha não estava para brincadeiras, o Américo tentou aproximar-se dela para mais um beijo, mas ela prontamente repeliu-o. E perguntou-lhe:
— Significa isso que não pensaste em nada para hoje?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha continuou:
— Não compraste nada para mim?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha insistiu:
— Bombons, lingerie, flores... nada?
Sinal negativo.

O ambiente ficou pesado e jantaram praticamente sem se falarem. O Américo ainda tentou, mas nas três abordagens da noite a Detinha só respondeu por monossílabos. E foi dormir com a cara fechada. Com a cara fechada, com o corpo fechado, com tudo fechado!

Só voltou a esboçar um ligeiro sorriso no dia 17 de fevereiro. Desse mesmo ano, felizmente.