segunda-feira, 3 de março de 2014

O baile de Carnaval

«Se temes o desconhecido, nunca cries 
condições para que ele se revele»
Autor Desconhecido

O Meireles e a Rosalina eram fiéis seguidores de uma tradição carnavalesca que, ofuscada por falsas imitações de realidades tropicais, cada vez mais se vai perdendo: os bailes de carnaval. Ano após ano davam largas à imaginação, entrando em personagens nos quais depois davam largas ao corpo no baile da Associação Cultural e Recreativa da freguesia onde residiam. Mickey e Minnie, Super-Homem e Super-Mulher, Bucha e Estica, Duarte Pio e... e... — como é mesmo o nome dela? —, eram apenas alguns dos muitos personagens que eles já tinham incorporado.

Nesse ano, condicionados por um orçamento familiar que cada vez mais dava para menos, ocorreu-lhes uma solução simples e original: o Meireles iria vestir-se de Rosalina e a Rosalina vestir-se de Meireles. O facto de ele ser um homem não muito alto e ela uma mulher não muito baixa, fazia com que as roupas de cada um se ajustassem razoavelmente bem ao corpo do outro, sem necessidade de ajustes.

Enquanto a Rosalina escolheu de imediato, dentre as roupas do Meireles, um fato, gravata e camisa — com colarinho à Paulo Portas —, o Meireles acabou por sentir mais dificuldades na sua escolha. Não só por haver maior diversidade de roupa feminina no roupeiro, mas, principalmente, porque o Meireles resolveu desde logo incorporar um certo espírito feminino, experimentando quase tudo o que por lá havia antes de fazer a sua escolha. Escolha essa que acabou por recair sobre um vestido comprido e bem justo ao corpo (e um sutiã recheado com esponja para dar volume ao busto, claro está).

Chegado o dia do baile, cada um vestiu-se como sendo o outro e saíram para cumprir a tradição no baile da Associação Cultural e Recreativa. O Meireles não dispensando o batom, o rímel e o verniz nas unhas. Inicialmente sentiu alguma dificuldade para se movimentar nos sapatos de salto alto, mas depressa pegou o jeito. E não mais o largou. Pegou tanto jeito que dançou a noite toda sem a menor queixa do salto alto ou da justeza do vestido. Muito pelo contrário, adorou!

No caminho de volta para casa, o Meireles fez comentários bastante elogiosos ao baile desse ano, notando-se-lhe até uma pontinha de nostalgia nas palavras sobre o baile que acabavam de terminar. Mais tarde, deitado na cama, olhando o teto, voltou a manifestar o seu agrado pelo baile desse ano:
— Pena que não seja como no Rio de Janeiro.
— Como «como no Rio de Janeiro»? Querias que saíssemos neste frio enfeitados de plumas e lantejoulas e com pouca roupa no corpo?
Apesar da ideia das plumas e lantejoulas não ter desagradado ao Meireles, ele respondeu:
— Não... não é isso!
— Então o que é?
— No Rio, há novo desfile no próximo sábado.
— Ai é?
— O desfile das campeãs...
— Vejo que gostaste do baile deste ano.
— Muito!
Tanta foi a ênfase do Meireles nesse «muito» que a Rosalina desconfiou. Não sabendo muito bem do que desconfiava, mas desconfiou. Poder-se-ia mesmo dizer que ficou relativamente apreensiva.

Dois dias depois. A Rosalina, que sempre regressava do trabalho bastante mais tarde do que o Meireles, nesse dia chegou mais cedo do que o habitual. Entrando no quarto, deparou-se com o Meireles vestindo roupas femininas em frente ao espelho.
— Que fazes tu?
— Experimento as tuas roupas.
— Com batom e rímel?
— Queria ver como ficava o conjunto.
— Para quê?
— Para nada... Só para saber se podia ter feito melhor escolha...
A Rosalina nada mais disse. É bastante provável que ainda fosse meditar sobre o assunto. Mas, desde logo, resolveu ficar um pouco mais apreensiva.